Clara O problema de viver em alerta é que o corpo não sabe mais descansar. A noite cai devagar, mas eu não acendo todas as luzes. Ando pelo apartamento, como se ele pudesse me ouvir, mesmo sem saber quem ele é agora. Cada ruído parece amplificado o estalo da madeira, o elevador parando em outro andar, um carro acelerando lá fora. Tomo banho rápido, sem fechar completamente os olhos. A água quente escorre pelas costas, mas não leva a sensação de que algo está prestes a acontecer. Quando saio, enrolo a toalha no corpo e vou até o quarto. A janela está entreaberta. Tenho certeza absoluta de que a deixei fechada. Meu estômago se contrai. Caminho devagar até lá, cada passo pesado. Olho para a rua. Nada de anormal. O mesmo carro preto continua estacionado, como um erro de continuid

