Mateo era o filho do meio dos irmãos junto com Francisco. Jovem inteligente, mente brilhante. Estava sempre em um mundo à parte. Dificilmente se conectava a alguém.
Anastácia era sua professora treze anos mais velha. Ele tinha seus dezenove anos e ela trinta e dois. Solteira, filha de costureira, mantinha-se com suas aulas. Dava aulas para os filhos do meio e os caçulas. Era muito inteligente e habilidosa. Respeitada na sociedade, cuidava de sua mãe idosa, seus doze gatos e cinco cachorros, todos resgatados das ruas.
Quem olhava para ela enxergava uma pessoa forte, independente e muito inteligente para a época. Participava de vários grupos de estudo e não se fixava só na literatura, sendo igualmente habilidosa nas ciências.
Mateo preferia a matemática. A forma como Anastácia explicava sobre tudo parecia mantê-lo conectado ao mundo. Somente ao seu lado ele ficava presente. Fora isso...seus pensamentos vagavam. Lúcio tinha preocupação se o seu irmão pudesse ter autismo de baixo desempenho. Fora a incapacidade de conexão presente ao mundo, não apresentava nenhum outro sintoma.
Quando estava olhando Anastácia, prestava atenção em tudo o que dizia. Só viajava em seus pensamentos e desejos, quando eles conversavam sobre outras coisas, ou liam literatura. Quanto ela lia poesia, ele simplesmente voava olhando para a sua boca.
Ela estava totalmente encantada com o brilhantismo dele. Observava seus olhares apaixonados, mas era algo tão puro e gracioso, que não lhe feria. Tinha ensinado filhos de papai arrojados, que achavam que por ser solteira, aceitaria galanteios. Isso muito a irritava. Vivia bem sozinha. Sonhava, sim, com um grande amor...aquele de romances e livros...Se não fosse assim, preferia ficar sozinha. Ter alguém só para dizer que não está só é se aprisionar a uma eterna solidão. Sabia muito bem o que queria e pagaria o preço, caso não encontrasse.
Mateo já estava sonhando com um futuro ao seu lado. Ela aparentava ser mais jovem do que a idade que tinha. Ele, sinceramente, não se importava.
Lúcio percebera a paixão e tentou várias vezes conversar, mas Mateo desconversava e fingia admirar a moça. Temia que jamais concordariam. Ele iria se formar professor de matemática e iria morar com ela. Já tinha tudo na sua cabeça. Viveriam isolados se fosse preciso, mas felizes e juntos. Teriam um ao outro e isso bastava.
Anastácia nem pensava em Mateo como homem. Ele era jovem e romântico. Sua cabecinha por certo encontraria uma moça de sua idade, na cidade. Ela aproveitava os elogios, olhares sedutores e apaixonados, guardando tudo como um presente de momento. Afinal, como alguém tão lindo e brilhante dividiria sua vida ao seu lado?
Ela tinha namorado, mas só egocêntricos e machistas. Na verdade, dois. Ambos foram dispensados pela moça, assim que percebeu como eram . Sua mãe tentou aconselhá-la a aceitá-los com seus defeitos, para não ficar “solteirona”. Anastácia não aceitava ter que engolir defeitos graves como machismo, só para não ficar só. Antes só do que m*l acompanhada. Tida como rebelde, diferente de Amália que era rude e sem modos, quando provocada, Anastácia era sempre quieta e doce, nem contava seus verdadeiros motivos. Quando terminou com aqueles pobres homens machistas, apenas disse que não estava apaixonada. Evitou entrar em detalhes que só reforçariam a raiva por serem rejeitados. Ela queria paz e sossego.
Mateo era sempre muito apaixonado ao falar com ela. Não disfarçava, mas cada dia era mais ousado. Precisava sinalizar. As aulas estavam acabando e logo iria para a faculdade. Imagina momentos com ela, como o primeiro beijo. Não era só isso, pensava na primeira noite de amor deles. Ele realmente sentia um forte desejo pela moça, que não se permitia sentir por ele. Toda vez que estava admirando demais suas ideias ou observando sua beleza angelical, a moça se retraía. Afinal, era só um menino.
Mateo fala para testá-la: - Teremos apenas mais algumas aulas…
Anastácia sentia tristeza. Se apegou ao menino. Não era de uma forma maternal, muito pelo contrário. Via em Mateo, uma seriedade e profundidade de sentimentos, que muitos homens da sua idade, não demonstravam ou sentiam. Ela sentiria muita saudade. Nos finais de semana já sentia.
Anastácia disfarça sorrindo, tentando demonstrar empolgação: - Isso é bom, não? Significa que vai entrar para a faculdade e ter sua tão sonhada profissão. Será uma honra tê-lo como um colega de profissão.
Mateo brilhava seus lindos olhos castanhos esverdeados, sempre que ela parecia lhe dar um elogio. Ele diz: - Mas não iremos nos ver.
Anastácia: - Estará descobrindo um mundo de conhecimentos, fazendo amizades e nem se lembrará de mim.
Mateo: - Impossível esquecer você.
Anastácia: - Diz isso agora, menino.
Mateo fala irritado: - Não sou um menino, tenho dezenove anos.
Anastácia olha para ele de forma graciosa. Era lindo ele querer que ela o visse como um homem e não um menino. Não entendia que para ela a diferença de idade sempre existiria. Era isso que mais a encantava, ele simplesmente não se importava. Ela diz: - Não estou te chamando de criança, Mateo, estou dizendo que ainda é muito jovem e tem muito para viver.
Mateo: - E por acaso você se sente velha e no final da sua vida?
Anastácia: - Não mesmo! Mas sei que não estou iniciando minha vida.
Mateo: - Que bom que pensa que não é velha, pois não é. Isso tudo é padrão social. Somos eternos quando pensamos no universo.
Anastácia: - Isso vindo de alguém que ama a matemática, muito me surpreende.
Mateo: - Pois creio ser a matemática a maior representação de Deus na vida. Tudo é matemático, o universo é matemático, tudo é harmoniosamente perfeito.
Anastácia adorava o modo como ele falava de seu amor. A fé com que acreditava em suas convicções muito a lembrava de quanto tinha sua idade. Existe um fogo no olhar de quem acredita em algo que ela havia perdido. Ao ver o fogo no olhar daquele menino, ela se perdera em doces momentos. Ela então diz:- Admiro tudo o que acredita e sei que serás um grande homem.
Mateo, aborrecido, diz: - Lá vem você novamente me lembrando que não sou um homem. Acaso quer deixar claro um abismo entre nós?
Ela finge não entender sua pergunta: - Não entendi o que quer dizer?
Mateo: - Você faz de tudo para me chamar de menino. Isso é para evidenciar nossa diferença de idade. Como se isso fosse um muro entre nós?
Anastácia: - Falo de fatos. Ainda é muito jovem, não criança, mas jovem. Tem maturidade muito além da sua idade, isso digo, mas a diferença de idade entre nós existe como um fato e não um muro.
Mateo: - Espero mesmo que não enxergue assim. Por vezes parece que a usa para fugir de mim.
Anastácia o estava achando ousado naquele dia. Parecia querer lhe falar algo e muito temia o que. Ela diz: - Não seja t**o. Agora está parecendo um menino.
Mateo: - Lá vem você novamente tentando me afastar com esse argumento. Não me sinto uma criança perto de você, sinto-me homem.
Anastácia leva um susto com o recado direto. Ela tenta desconversar: - Voltando ao assunto da aula…
Mateo: - Não. Vamos continuar nesse assunto. - ele estava agitado e em pé , falando um pouco mais alto que o normal.
Ela ficou preocupada. Nunca o tinha visto assim. Então diz: - Você está muito agitado. Tente se acalmar e me dizer, de maneira suave, o que tanto lhe está incomodando.
Mateo chega mais perto dela, bem na sua frente. Anastácia, dá um passo para trás, assustada. Ele estava decidido: iria se declarar antes que fosse tarde demais. Teria que ter certeza que ela o esperaria. Ele diz: - Vamos nos separar. Isso não te incomoda?
Ela faz um gesto de pare com as mãos e diz: - Desse jeito agitado, me n**o a conversar com você.
Mateo não iria recuar, ele era daquelas pessoas que esperavam, calmamente, mas quando decidia fazer algo, era arrojado e sem medo, jamais recuando. Ele então lhe pega pela cintura e lhe dá um beijo.
Anastácia sente seu coração bater forte. Ela tenta recuar, mas ele segura sua nuca com as mãos e continua em seu beijo suave e ardente. Vendo o carinho e a intensidade daquele beijo, Anastácia não consegue evitar e lhe corresponde. Nunca havia sentido tanta força em uma pessoa antes. Seu coração sentia e sua mente pensava: realmente era um homem em corpo de menino. Algo naquele menino e em sua intensidade que lhe fazia confiar em seus sentimentos.
Anastácia não pensava mais em nada e só sentia. O beijo foi ficando mais intenso e cheio de paixão. Mateo nem parecia estar dando o seu primeiro beijo. Estava tão cheio de certezas e confiança que sabia que tinha nascido para beijá-la. Ela corresponde ciente de que nunca foi beijada daquela forma. Parecia que tinha nascido para beijá-lo.
Depois de um tempo ele termina o beijo encostando seu nariz no dela, dizendo: - Eu amo você.
Anastácia sentia suas pernas tremendo. Estranhamente não controlava seu corpo. Um beijo era só um beijo até ali. Ela entendeu o que era se apaixonar...entendeu-se apaixonada já algum tempo, mas temerosa por tudo que sentia diante daquele menino. O que dizer para ele? Não podia dar margem aquela emoção, mas como mentir para aquele coração tão nobremente doce e puro? Como fingir não sentir o que estava sentindo, diante da coragem e fervor de toda aquela paixão? Ela docilmente diz: - Mateo...não é certo.
Ele ainda encostado nela, lhe segurando com força, demonstrando medo de perdê-la, diz: - Amar não é certo? Não entendo um só lugar nesse mundo ou no universo em que o amor não seja a única coisa certa nesse mundo.
Em seu coração, Anastácia, tinha a certeza de que ele era a pessoa que tinha esperado sua vida toda. Talvez ele mudasse de ideia, talvez ele não conseguisse enfrentar o mundo ao seu lado com tudo o que passariam, mas certamente viveria cada segundo que ele quisesse. Ela então o abraça forte. Ele sorri, feliz em ser correspondido. Tinha sido melhor do que imaginava. Só Deus sabe, quantas vezes tinha imaginado aquele momento, tentando ter coragem.
Os dois ficam minutos assim. Anastácia tenta ser a sensata dos dois: - Preciso ir. Está na hora.
Mateo lhe dá mais um beijo, o que ela corresponde. Ele diz: - Amanhã conversaremos sobre nosso futuro. Anastácia olha com o olhar doce, porém duvidoso, com ternura de quem não acreditava em um futuro, mas adorava a ideia de um. Mateo então diz, de maneira firme e incisiva: - Sim, vamos conversar sobre nosso futuro. Tenho planos e quero saber se aceita.
O coração dela ao ouvir isso se enche de alegria. Era como se a alma dela sorrisse. Todo seu corpo parecia sorrir de emoção. Não estava acreditando em alguém tão igual ao que tinha desejado em todos aquele anos...tão forte, intenso, determinado e seguro dos seus sentimentos e dela… Ela faz sim com a cabeça e sai.
Mateo abre um lindo e doce sorriso largo. Anastácia saí sorrindo pela rua. Não acreditava no que estava sentindo e em como tinha encontrado, naquele menino, o homem da sua vida.
Ursinha ao ver a carinha de Mateo, logo entende se tratar da professora. Ele sobe para o quarto, ela vendo que estava sozinha, olha para Isadora e diz : - O que está acontecendo?
Isadora com a cara feliz, diz: - Meu filhote está lutando pelo o que quer. De todos é o mais parecido com Lúcio...Decididamente os dois são a cópia de Miguel. - estava com orgulho de mãe.
Ursula cruza os braços e diz: - Vai me contar ou não?
Isadora diz: - Tenho uma ideia melhor...faz um chocolate quente, daquele com canela, que nosso menino gosta e vai lá no quarto conversar...acho que alguém precisa desabafar...vai ser bom contar para alguém, que o ame como um filho. Faça isso por mim, minha amiga...dê a ele o colo que gostaria de dar….
Úrsula faz sim com a cabeça e vai fazer o tal chocolate quente, receita de Isadora.
Levando no quarto de Mateo, Ursinha pede licença e o vê com carinha de apaixonado. Ela entra e diz: - Olha o que eu trouxe para meu amor...
Isadora , que está junto, diz: - Não entra de cara no assunto, ou vai assustá-lo. Ursinha faz cara de quem sabe o que está fazendo e Isadora diz: - Desculpa. Só quero ajudar...- ela diz se afastando.
Mateo pega o chocolate e diz: - O chocolate da mamãe. Que saudade que estou dela.
Ursinha: - Todos nós.
Mateo: - Queria que ela estivesse aqui, agora.
Ursinha: - Ela está em seu coração. - ela faz uma pausa e diz: - Você sabe que te amo como se fosse um filho, né? E que farei tudo por vocês? Sei que não sou sua mãe, mas gostaria de poder dar o colo que ela não pode dar...
Isadora diz: - Boa ursinha...
Mateo: - Eu sei sim, ursinha...
Ursinha diz: - Você está com uma carinha tão feliz.
Mateo: - Eu estou muito feliz, mas com medo.
Ele termina de tomar seu chocolate quente, deita a cabeça no colo de ursinha, que o acarinha.