Alencar fitava Glória insistentemente. Ela sentia que ele queria lhe perguntar algo.
Glória fala sorrindo: - O que quer saber?
Alencar: - Como?
Glória: - Está alguns segundos me olhando com cara de quem está tentando ter coragem de perguntar algo. Pergunte…
Alencar sorri, envergonhado.
Glória senta-se ao seu lado delicadamente: - Vamos, não deve ser algo tão difícil assim de perguntar…
Alencar: - A questão da cura...é verdade?
Glória faz uma carinha triste.
Alencar: - Está vendo...melhor trocarmos de assunto.
Glória fala com voz corajosa: - Não sou de louça...apenas lembro da minha mãe…
Alencar: - Apenas não quero causar-lhe desconforto.
Glória: - Está tudo bem...eu sinceramente não sei, Alencar...Acreditava muito nisso. Minha mãe era curandeira...benzia, fazia poções de ervas para cura, rezas ...essas coisas. Desde criança a acompanhava. Um certo dia fui ajudá-la e então começou. Um senhor que sofria de dor e inchaço nas pernas começou a melhorar com os chás de mamãe. Quando eu impus minhas mãos, ele simplesmente parou de sentir dor, em horas suas pernas estavam desinchadas e ele disse que o curei. Imediatamente o povo começou a me procurar e foi acontecendo. Impunha as mãos e acontecia. Padre Emanuel estava estudando isso, mas não tinha nada a declarar até o momento que saí de lá. Agora se tive essa capacidade, qual a razão de não ter curado minha mãe?
Alencar: - Talvez nela não houvesse nada para ser curado...apenas era sua hora e nada podia ser feito. Talvez haja um limite para a cura...e quando chega a hora da pessoa...simplesmente não acontece.
Glória finalmente recebera uma resposta que aquietará seu coração. Ninguém nunca tinha lhe ajudado a superar sua perda, mas aquelas palavras certamente começaram a curar-lhe.
Glória abre um sorriso de agradecimento. Na cabeça daquele rude homem, só vem um único pensamento: que era o sorriso mais lindo que tinha visto em toda sua vida.
Ela pergunta: - Por certo continuará a trabalhar para meu pai...não?
Alencar: - Eu espero...se ele quiser.
Glória: - Creio que não pediria para me buscar se não lhe tivesse confiança.
Alencar sorri com seu raciocínio e diz: - Verdade…
Glória: - Então podemos ser amigos, certo?
Alencar: - Eu não sei se seu pai irá gostar, ou os nobres.
Glória: - Se espera que faça o que os outros querem...vai se decepcionar. Faço o que meu coração manda. Agora se não quiser minha amizade…
Alencar fala rapidamente: - Quero sim...nunca ninguém se importou assim comigo a ponto de me oferecer amizade.
Glória: - Talvez nunca tenham enxergado como seu coração é nobre.
Alencar sorri, dessa vez olhando nos olhos. Ele fugia desse encontro, em parte por temer ter certeza do que estava começando a sentir, e em outra...por temer se atrevido.
Glória levanta-se e estica a mão para Alencar, dizendo: - Venha, vou passar um café...vamos comer um pouco de doce que fiz...vamos adoçar nossas vidas.
Alencar: - Mas acabamos de comer.
Glória: - Minha mãe sempre dizia que um docinho não é comida, é agrado na alma.
Alencar solta uma gargalhada alta e fica envergonhado. Foi a primeira vez que tinha sido espontâneo com alguém.
Ela lhe serve um café com um pouco de doce de figo, era época e Glória lembrava da sua mãe, com aquele doce.
Ele nunca comera então diz: - Nossa que gostoso. Nunca tinha provado.
Glória: - Sério? Por certo viaja muito?
Alencar: - Mais que a maioria das pessoas, mas nem tanto quanto gostaria.
Glória: - Não sente falta de um lar?
Alencar: - Perdi meu lar com minha mãe.
Glória: - Mas ao se apaixonar, pela pessoa certa, por certo, estará em um novo lar, não?
Alencar: - O difícil é saber quem é essa pessoa.
Glória: - Siga o seu coração.
Alencar pensara que seu coração estava ficando louco. Que se fosse o escutar estaria em sérios problemas. O pai da moça jamais o aceitaria como genro. Já devia até ter um pretendente à altura da moça. Uma tristeza lhe chegara ao coração...Ela estava tão cheia de sonhos...achando que ia ficar com seu pai e ter novamente uma família. m*l sabia que ele já devia ter alguém para a moça, que estava passando da época de casar. Talvez fosse embora e essa tal amizade ofertada não passasse de um sonho impossível. Se ao menos pudesse acompanhá-la em sua vida e protegê-la de tudo.
Ele fica com cara fechada novamente. Glória não entende nada. Estava tudo bem e, simplesmente, se fechou. Era como se um enorme peso estivesse em seus ombros de algo que ela não entendia e ele não explicava.
Glória: - Está tudo bem?
Alencar: - Sim...eu só gostaria que não precisássemos ir para lá. Tem certeza que ficar com seus amigos do convento não seria melhor?
Glória: - Existe algo sobre meu pai, que não sei?
Alencar baixa o olhar e dá um suspiro.
Glória diz, colocando a mão em seu antebraço: - Por favor, Alencar, somos amigos.
Alencar, cuidadosamente, diz: - Eu só penso que está na idade de se casar e seu pai deve já ter um pretendente para você…
Glória fica sem chão. Seu semblante muda radicalmente de expressão. Não tinha se dado conta das convenções sociais. Realmente só pensava em ter uma família novamente. Como aldeã, casava-se por amor, ou no caso de não se importar com isso, com quem se lhe interessasse e cuidasse. Não percebeu que, como nobre agora, teria que casar por conveniência e ao agrado dos pais. Levemente empalideceu e veio uma súbita vontade de voltar correndo para o convento. Tinha sido criada pela sua mãe para acreditar no amor e esperar por ele...mesmo sofrendo pelo seu pai...sua mãe sempre lhe mantinha a chama ardente da magia do amor...lhe fazia acreditar que no final era o amor que sempre vencia. Seu estômago estava levemente embrulhado.
Alencar percebe a mudança dela e diz: - É por isso que não queria lhe falar. Temia que ficasse assim...estava tão bem…
Glória: - Fez bem em me dizer. Um amigo nem sempre diz o que queremos ouvir, mas o que precisamos ouvir.
Alencar: - Saiba que se decidir ficar aqui, eu digo ao seu pai que fugiu e que seguirei seu rastro. Ele uma hora irá cansar de te procurar...e se enviar outros, eu os despistes.
Glória: - Faria isso por mim?
Alencar coloca sua mão em cima da mão dela: - Sim, amigos protegem amigos ...e você é a primeira amiga que tenho.
Glória coloca sua mão em cima da mão dele: - Diga, meu pai é um bom homem. Seja sincero…
Alencar: - Ele busca o melhor para o seu povo, mas ainda é restrito em pensamentos e convenções sociais. Ele trata seus empregados de maneira justa, mas cede ao que a sociedade estipula ser certo, como casamento entre nobres e junção de fortunas. Isso não faz dele um homem r**m, mas não sei mesmo se poderá ser o pai que tanto sonhou...ele parece ser muito diferente da sua mãe…
Glória suspira alto: - Acho que ninguém poderá ser como ela… me amar como ela.
Alencar sente no peito uma vontade de dizer que ele a amava, não como sua mãe, mas como homem...porém pensa na mesma hora o quanto estava sendo tolo...Tão sonhador a ponto de desejar que ela quisesse ficar ali e ele pudesse ficar ao seu lado, protegê-la e cortejá-la. Dessa forma teria alguma chance...longe de tudo, mas quanto egoísmo. Que vida podia lhe dar? Ela poderia ter quem quisesse e uma vida confortável e segura. Ele nem casa tinha...não poderia viver ali para sempre. Como estava sendo t**o… tinha que fazê-la seguir viagem.
Glória já se sente melhor com essa possibilidade. Ela diz: - Eu vou pensar, Alencar...Se eu ficasse aqui...você ficaria comigo? Podíamos cuidar um do outro...como amigos…
Ele ergue seu olhar e acaba segurando o coração. Então com uma certa força diz: - Terá uma vida de princesa com seu pai. Talvez o amor acabe acontecendo com o convívio. Pode ser um homem agradável e gentil, como saberá se não tentar?
Glória: - Pois digo que se não há reconhecimento de almas, o convívio pouco adianta. e não me importo em ter uma vida de princesa...quero ser feliz...e para isso não preciso de luxo, mas de amor. Coisas não abraçam, beijam e cuidam…
Alencar acha tudo aquilo muito lindo para se dizer e se ouvir, mas temia que a vida dura não fosse tão linda assim no dia a dia.
Glória: - Sei o que está pensando...que sou jovem e tola e não sei o quanto uma vida pode ser dura.
Alencar olha para ela surpreso. Parecia que tinha o dom também de ler pensamentos...
Glória fala enfaticamente: - Pois lhe digo que via a vida das aldeãs e da minha mãe e não tenho medo de uma vida igual ou mais simples. Sei bem o preço que é.
Ele realmente olha para aquela menina mulher com corpo frágil, mas alma de guerreira e acredita em sua força e coragem. Estava decidido: se fosse sua vontade ele a ajudaria. Ele então diz olhando bem para seus olhos: - Se quiser ficar aqui, eu fico com você e nunca deixarei seu pai lhe encontrar.
Glória o abraça de forma pura, mas graciosa. Era bom sentir-lhe o cheiro. Ele tinha cheiro de lar...
Ele a corresponde lhe abraçando com mais força. Já sentia desejo por ela. Ela, ainda estava entre o carinho e o desejo, sem entender bem o que estava sentindo. Ele sabia que teria que esperar...não estava pronta para o amor…
Os dois começam a fazer tudo junto. Glória aos poucos vai confiando cada vez mais nele, deixando que se aproxime. Alencar vai cada vez chegando mais perto, precisava de alguma forma tocar seu corpo e saber se gostava. Ele buscava tentar conquistá-la.
Os dias vão se passando e nenhum dos dois queriam que o juiz chegasse. Rezavam para que seu prazo não tivesse fim. Logicamente Júlio iria aproveitar a moça para fazer uma aliança junto ao ministro. Tinha interesse nisso e não descansaria até conseguir. Infelizmente nenhum dos dois percebera o caráter perverso do aparentemente nobre juiz.
Depois de um tempo, Alencar fez um canteiro de flores para a moça. Ela estava feliz com o gesto. Sem perceber foi se encantando e já tinha olhares de desejo para o rapaz.
Ele tentava provocar e chamar atenção ficando sem camisa e tentando se apresentar de forma mais gentil.
Júlio então, em uma manhã, entra pela porta do chalé. Alencar estava sem camisa e Glória já estava mais acostumada, sem corar.
Ele olha para o rapaz e diz: - Pelo visto as coisas ficaram mais quentes por aqui.
Envergonhado, Alencar pega sua blusa e Julio diz, fazendo gestos com a mão: - Não se incomode por minha presença. Se a dama não se importa, quem sou eu.
Júlio senta-se. Ele estava com olhar diferente, deixando um pouco de leve sua máscara cair.
Glória sente um arrepio. Ele tinha dito que quando voltasse seria para seguirem viagem.
Alencar não tinha certeza do que Glória decidira. Estava em estado de alerta e, se precisasse, a tiraria dali a qualquer momento.
Glória: - O senhor aceita um suco, ou um café?
Julio: - Sempre muito gentil, minha querida. Aceitaria um suco.
Ela vem com um copo de suco e o alcança.
Júlio bebe e diz: - Estava uma delícia, muito obrigado.- ele faz uma pausa e continua: - Bom, vamos logo ao assunto que me trouxe aqui: a entrega da moça sã e salva para seu pai. - fala esboçando um sorriso falso na face.
Glória e Alencar olham e escutam atentamente.
Júlio, sem perceber o receio de ambos, diz: - Estou tendo algumas questões pessoais e pediria um tempo maior para irmos até o pai da moça. Eu realmente faço questão de ir junto.
Coração puro não disfarça emoções e transborda seus sentimentos. Eles deixam claro o alívio. Já o coração doente sabe maldar tudo e a tudo está atento. Julio aperta os olhos com a reação de ambos. Precisava ficar de olho.
Alencar diz: - Estaremos esperando até que o senhor possa vir. Sabe mais ou menos o tempo que irá levar?
O juiz, escondendo a verdade, diz: - Creio que umas duas semanas. Na verdade seria uma, mas queria pegá-los na surpresa. Algo estava acontecendo e intuía ser alguma coisa que lhe estragasse seus planos.
Glória sai e na mesma hora se decide. Não iria até seu pai. Algo naquele homem era muito sinistro. Conversaria com Alencar assim que ele saísse para irem pedir ajuda no convento. Ela sabia que lá teria abrigo para ambos.
Júlio se despede e vai até seus homens. Ele diz: - Cerquem a casa de longe e fiquem de olho. Ninguém sai daqui. Entenderam?
Os homens olham seriamente para ele e balançam a cabeça.
Alencar está da janela olhando tudo e pressentindo algo no ar. Ele observa que os homens se espalham, disfarça e vai ver onde cada um está, fingindo cuidar da casa e dos afazeres. Precisava sondar o lugar se precisassem fugir.
Glória fica nervosa, mas percebe que ele estava fazendo algo importante. Ela se cala e vai cozinhar, esperando o momento certo de conversar.
Alencar já sabia a posição dos homens. Estes nem notaram o que ele estava fazendo. Acostumado a agir sozinho, ele observava tudo de longe, com paciência e cuidado para que ninguém percebesse. Já tinha se livrado de muitos, mas nunca teve necessidade de matar. Sempre deu um jeito de escapar, confundir, esconder, camuflar. Evitava matar, mesmo que fosse preciso, fizesse.
Ele entra na cabana. Glória diz: - O que está acontecendo?
Alencar: - Estamos sendo vigiados. Acho que o juiz não é tão nobre assim, do contrário não colocaria homens a nos vigiar...ou…
Glória: - Ou?
Alencar: - Maldou eu estar sem camisa na sua frente.
Glória fica com as bochechas coradas pela insinuação.
Alencar: - Infelizmente ele pode pensar que estamos tendo algo e queremos fugir.
Glória diz desapontada: - Infelizmente?
Alencar faz cara de confuso. Não sabia o que dizer. Ele tenta se explicar: - Infelizmente pelo engano. Não estamos juntos querendo fugir…- ele para um pouco realmente confuso e diz: - Quer dizer, estamos querendo fugir juntos, mas não da forma que ele pensa…- agora fica ele com as bochechas vermelhas.
Glória sorri.
Ele olha para ela e sorri também.
Estava muito bobo nessa explicação. Ambos sabiam.
Ele olha para ela com muita paixão e ela não abaixa o olhar. Estava receptiva, mas talvez não pronta.
Ele precisava ir com calma.
Glória sabia que precisava que ele fosse com calma e confiava nisso. De alguma maneira sabia que ele iria cuidá-la. Sentia-se segura e protegida com ele...sabia que jamais lhe faria m*l ou deixaria que lhe fizessem m*l. Ela diz: - Precisamos ir embora, não gostei do juiz. Senti algo perverso nele. Acho que ele está interessado em conhecer meu pai.
Alencar: - Senti o mesmo.
Glória: - Vamos para o convento. Eu sei que lá encontraremos abrigo.
Alencar: - Tem certeza? Aquele padre senhor parecia não gostar de mim.
Glória: - Ele estava preocupado. O jeito como você se apresentou não foi muito amigável.
Alencar: - Fui como sempre sou...
Glória já de forma íntima e amiga diz: - Exatamente. Aí está toda a questão.
Alencar faz cara de não entender.
Glória sorri e os dois se olham apaixonadamente novamente.