Julio estava novamente, esperando a apresentação de Yasmin, sentado na primeira mesa, após o palco. Ele exibia um sorriso particularmente satisfeito. Algo estava acontecendo.
Logo ali perto, o mendigo vinha assistir Yasmin, mas é surpreendido por dois homens fortes e m*l encarados. Esses dois homens o cercam e o levam para um beco escuro. O mendigo tenta gritar e pedir ajuda, mas é silenciado por um dos homens que sussurra em seu ouvido: - Fique longe de Yasmin, ou da próxima vez não será só um aviso. - Os dois m*l encarados começam a surrar o pobre homem até que perca os sentidos, o deixando ali.
Após alguns minutos, Samuel acorda, mas não consegue se levantar e só gemer. O padre Emanuel que passava por ali, escuta o gemido e vai correndo verificar. Ao ver o pobre mendigo no chão, ele corre tentar ajuda, trazendo mais dois bons homens consigo. Os três o levam até a igreja.
Lucas vem correndo ajudar. Colocam o mendigo em um leito e seguem cuidando do moço.
Após limpá-lo e cuidá-lo, lhe dando água, Lucas pergunta: - Sabe quem pode ter feito isso com o senhor?
Samuel sabia, mas estava com medo. Não sabia ser Lucas irmão de Júlio, mas sabia que o juiz jamais o deixaria em paz, ainda mais se contasse que desconfiava dele como mentor intelectual do ocorrido.
Samuel diz:- Não sei, não senhor.
Lucas não entendia o que poderiam querer com o pobre homem desvalido.
No borde, os homens sentam-se à mesa sinalizando ao juiz com os olhos.
Madalena percebe tudo sem entender.
Yasmin se apresenta olhando o lugar vazio em que Samuel costumava ficar.
Júlio estava visivelmente feliz, radiante até. Yasmin sentia um arrepio ao ver o semblante dele. Parecia intuir algo. Um terrível pensamento veio em sua mente sobre Samuel...será que estaria bem?
Depois da dança, ao descer do palco, Júlio levanta-se e diz para Yasmin: - Poderia me dar a honra de uma conversa?
Yasmin olha para ele e diz: - Hoje não, preciso procurar um amigo.
Júlio sorri de maneira c***l. Sabia que ela desconfiava e isso lhe dava muito prazer. Tinha controle sobre tudo e todos. Era bom ela saber.
Yasmin vai até Madalena dizendo: - Sinto que algo aconteceu a Samuel. Ele nunca deixa de vir.
Madalena diz: - Agora que comentou, percebi olhares de Júlio para com dois homens suspeitos.
Yasmin se mexe, tendo o ímpeto de ir tirar satisfação com o juiz, mas Madalena lhe segura o braço e a leva para os aposentos privados. Lá fecha a porta e diz: - Está pensando em fazer o que? Acaso pensa em ir lá acusar um juiz de fazer algo com um mendigo?Pode pensar um pouco?
Yasmin sente-se contrariada. Sentia-se impotente diante de toda a situação. Ela levanta-se, dizendo: - Vou procurar Samuel.
Madalena fala furiosa - Você vai sentar-se e aquietar-se ou te amarro ao pé da cama. Fique bem quietinha aqui. Se ele mandou fazer algo a Samuel, a próxima é você. A partir de hoje você não sai mais de casa sozinha, nem vai até o salão.
Yasmin tenta argumentar: - Mas…
Madalena a interrompe: - É isso ou lhe envio novamente para longe da cidade.
Yasmin fala com voz chorosa: - Se ele matou o Samuel?
Madalena diz: - Não foi por falta de aviso que dei a vocês. Agora vamos ter que pensar com calma e agir com mais calma ainda.
Yasmin: - Você acha que ele está morto?
Madalena abraça a menina, dizendo: - Não sei, minha filha, mas uma coisa eu lhe digo: Esse homem é capaz de tudo para atingir o que quer. Não saia desse quarto, nem sozinha, nem vá mais até o salão. Precisamos ter muita cautela e deixar essa obsessão de Júlio por você, acalmar.
Júlio fica esperando Yasmin voltar. Ao ver somente Madalena retornar, ele fica visivelmente contrariado. Madalena fica esperando ser inquirida por seu irmão. Estava só imaginando quando a confrontaria.
Júlio espera uma meia hora por Yasmin, cansado, resolve ir até Madalena, dizendo: - Onde está Yasmin.
Madalena: - Indisposta. Algo não lhe caiu bem.
Júlio fulmina Madalena, entendendo sua insinuação.
Ela amava seu irmão, mas se tivesse que defender sua filha, não pensaria duas vezes em ficar contra ele. Ele não era bom e justo como Lúcio, sabia que tinha conflitos e uma alma perdida, tentava sempre ficar do seu lado, por saber o quanto se sentia excluído e sozinho, mas tudo tinha limites. Protegeria sua menina de tudo que fosse preciso.
Júlio sai demonstrando raiva. Logo em seguida os homens m*l encarados parte, também.
Madalena observa tudo.
Os três se encontram na taberna onde os serviços tinham sido contratados.
Um dos homens diz: - A moça sumiu.
Júlio: - Minha irmã está desconfiada. Preciso que sumam por um tempo e não voltem ao bordel. Farei uma viagem assim que retornar os procuro. Até lá, a poeira já assentou e voltamos ao plano. Depois do serviço, pago e restante e você somem para bem longe da Cidade dos Anjos.
Os homens acenam com a cabeça, concordando.
No convento, Samuel estava com muita dor e parecia estar com febre e delirando. Em seus delírios fugia do juiz, que o perseguia a cavalo. Ele então começa a falar alto, sendo cuidado por Lucas, que escuta: - Não juiz...não…
Lucas escuta algo sobre seu irmão e fica apreensivo. Tinha que ter o dedo de Júlio. Tudo que de negativo na cidade tinha dedo de Júlio. Ele precisava descobrir quem era aquele mendigo e qual o interesse de seu irmão com ele...só assim poderia ajudá-lo. A questão toda era conseguir sua confiança, mesmo como sacerdote, talvez não conseguisse fazer com que aquele pobre homem desabafasse. Tinha sido brutalmente espancado e, por certo, estaria com muito medo de quem o fez.
Júlio chega em casa, pega um garrafão de vinho, uma taça e sobe para seu quarto, sem cumprimentar ninguém. A sua empregada sorri, animada, era só esperar duas horas e fazer aquela festa, com tudo que tinha cozinhado. Já escolhia o que fazer de acordo com seus gostos e vontades, afinal ele quase nunca comia. Não sabia nem como parava em pé de tão magro e abatido.
Ele não se cuidava. Tomava café da manhã quando não bebia muito, ou almoçava após uma noite de bebedeira. Depois, à noite, só bebia. Ele vivia assim...se consumindo...fugindo do presente. Ou estava fazendo maldade, ou estava querendo algo que era de outro, ou estava com raiva de Lúcio, ou estava tentando ganhar algum benefício em cima da desgraça de outros, ou estava pensando em Yasmin.
O dia amanhece e Lucas fica ao lado do homem por toda a noite. Sua febre cedera e Samuel já estava novamente consciente.
Samuel acorda assustado e tenta se levantar.
Lucas acorda de um cochilo e diz, calmamente:- Você está seguro em um convento. Por favor, não tenha medo.
Samuel diz: - Eu lembro...o senhor é padre Lucas.
Lucas diz: - Isso mesmo. Lembra do que aconteceu ontem a noite.
Samuel faz sim com a cabeça.
Lucas: - Tente descansar. Vou pedir para uma das irmãs lhe trazer um alimento. Precisa repor suas energias. Eu prometo que aqui estará seguro.
De alguma forma Samuel respira aliviado. Era a primeira vez em meses que não precisava olhar sobre seu ombro. As ruas não eram um lugar adequado para se viver. Madalena até deixava ele ficar, mas ele não se sentia à vontade de abusar da moça. Ali, na casa de Deus, sentia-se acolhido.
Yasmin estava revoltada. Precisava fazer algo por seu amigo. Também queria colocar Júlio em seu lugar. Alguém tinha que dar um basta nele e em suas maldades. Ela faria o impossível para fazer justiça. Se tem alguém que poderia fazer algo e mudar a situação do juiz, era ela. E isso, Yasmin, sabia.
Júlio entra no seu quarto e começa a beber. Depois de várias taças, ele começa a quebrar tudo. Os empregados, lá embaixo, escutavam tudo assustados, mas sem interferir.
Julio estava transtornado, em ter que esperar, pelo seu plano em ter Yasmin para si. Era para estar com ela naquela noite. Ele não admitia que nada interferisse em seus planos. Madalena não tinha esse direito. Bastarda ingrata. Depois de tudo que fez por ela…
Na verdade era Madalena quem fazia por ele. Ela tentava dar amor e carinho, ser uma família, estar ali por ele. Todos os outros o tinham largado. Ele era uma pessoa extremamente difícil e perdida.
Júlio só via o que fazia de prático para Madalena. Essa era a linguagem que conhecia. Ninguém podia lhe dar nada, sem que ele o devolvesse. Não gostava de dever nada para ninguém e via no amor e carinho de Madalena algo doado...e não gostava nada disso.
Ele estava com ódio dela. Júlio era assim...sentia amor e ódio em segundos. Era incapaz de compaixão e empatia.
Isadora ficava desesperada ao ver como o coração do seu filho era escuro. Via falanges tentando desvirtuar-lo e não podia fazer muita coisa. Só mesmo Yasmin para conseguir tirar daquele coração machucado, fechado e perdido alguma luz. Pelo que ela acompanhava Yasmin, a raiva por ele aumentava. Isadora não sentia esperanças nesse amor. Júlio estava acostumado a ter o que quisesse na força e amor não é assim. Ele não sabia amar, nem ser amado. Ela sentia-se culpada por não ter percebido isso. Será que não deveria ter dado mais atenção e dobrado o amor com ele. Estava ele em prantos ao ver seu filho assim.
Ela sente uma mão suave em seu ombro, sabia ser Miguel. Ela vira-se e o abraça. Finalmente ele estava ali. Ela sabia que agora tudo ficaria bem. Sua fé em Miguel era inabalável.
Ele a abraça e sorri, dizendo: - Pronto, estou com você.
Isadora: - Graças a Deus.
Miguel, serenamente, firmemente e calmamente diz: - Vamos dar passe em nosso filho e tentar ajudá-lo da forma que podemos. depois iremos até Yasmin.
Isadora faz sim com a cabeça.
Os dois assim fazem. Dão um passe longo em Júlio, que para de beber e adormece. As entidades próximas se afastam, deixando-o adormecer tranquilo. Yasmin com o passe já começa a lembrar do lado bom de Júlio e se sentir culpada pelo que fez a ele. Ela começa a ter certeza, que ali, que a maldade dele começou. Ela relembra do menino doce, meio e cheio de bons sentimentos. Algo em Yasmin começa a mudar…
Isadora e Miguel sabiam o que Júlio estava prestes a fazer. Tentariam evitar, mas sabiam que o m*l estava espreitando e o coração de Júlio que era muito envenenado.
Miguel diz a Isadora: - Precisamos unir os irmãos em prol de Júlio, talvez Lúcio possa interferir. Se pudéssemos apenas libertá-lo por um tempo dessas influências negativas, talvez ele voltasse a escutar seu coração. Júlio era um caso de possessão. Já não tinha vontade própria. Seu possessor era um inimigo de outras vidas e, após a rejeição velada de Yasmin, conseguiu a******a para tomar Júlio para si. Júlio já não era uma alma de luz, precisava evoluir, tinha vindo em boa família e teve oportunidades para isso, mas seu espírito atormentado e umbralino, não conseguira suportar a rejeição de sua alma gêmea Yasmin, que era mais evoluída que ele. Certamente chegaria um momento em que ela se lembraria desse amor e do motivo que tinha vindo, para resgatá-lo do umbral e curá-lo, mas talvez ainda demorasse um pouco, por mais evoluída que ela fosse.
Afinal é fácil amar um anjo, um ser de luz evoluído, difícil é não desistir da alma atormentada por suas próprias limitações evolutivas. Tudo tinha um limite...e para um anjo talvez não seria amar um demônio? Dizem que para Deus e o amor nada é impossível…seria isso mesmo a verdade? Ou apenas poesia para fazer sonhar?
Miguel e Isadora, aproximaram-se de Lúcio. Ele estava lendo. Em seu coração sentia paz na alma. Nem mais se lembrava de Júlio. A não ser quando fazia maldades. Os dois seres bondosos iniciam o passe. Lúcio começa a ter lembranças dele e Júlio brincando no pátio. Ele realmente não entendia o motivo de tanto ódio que seu irmão nutria por ele. Tinha sempre protegido Júlio, como irmão mais velho. Tentava fazer de tudo para ajudá-lo. Sempre se anulava para que Miguel ficasse perto de Júlio e lhe fizesse as vontades.
Miguel pensa: - Se tivesse sido mais presente e tido o mesmo pulso firme que tive com Lúcio…
Ambos se culpavam. Afinal, Júlio era mais novo e totalmente com o coração precisando de orientação. Era visível isso desde muito pequeno. No dia em que foi rejeitado por Yasmin, Lúcio não estava bem. Ele tinha febre e delirava. Miguel, preocupado em ser algo mais grave, pouco deu atenção à dor sentimental do filho, sendo até mesmo rude. Ali a ciúmes de Júlio virou certeza da preferência do pai para com o irmão. Naquele momento ele se fechara para o amor e para o irmão e o pai. Miguel sabia que foi ali que seu possessor se assentou no perispírito do filho e ficou. Sentia uma enorme culpa, mesmo sabendo que jamais quis isso.
Lúcio já não tinha a visão do possessor, mas lembrava que depois de sua moléstia, Júlio estava diferente e nunca mais o alcançou. Todas as suas tentativas de carinho foram fortemente abolidas e repelidas. Júlio tinha ficado sisudo, desconfiado, arredio, m*****o e totalmente fechado. Até seu semblante antes doce e gentil tinha ficado frio, rancoroso e debochado. Passou a odiar seu irmão tamanha era sua maldade. Era como se tivesse se tornado outra pessoa...ou será que simplesmente tirou a máscara? Ninguém muda tanto assim...Lúcio tinha convicção disso, no entanto, ignorava as leis espirituais. Nem imaginava o poder de um possessor. Sim Júlio tinha se tornado seu possessor. Não havia mais vontade ali...era completamente subjugado. Para libertá-lo exigia um longo exaustivo e complicado processo de separação e neutralização do possessor. Talvez de várias vidas e em plano espiritual, também. Tudo dependeria da força de Júlio em querer resisti-lo...que era nula, naquele momento. Yasmin tinha aceitado vir ao encontro do seu amado e alma gêmea, para tentar libertá-lo e protegê-lo desse inimigo de vidas passadas que já havia os separado.
Em outra vida, esse possuidor amava Yasmin. Ela escolhendo Júlio, por ser sua alma gêmea, abandonou um casamento com ele para fugir com seu verdadeiro amor. O seu noivo abandonado, os perseguiu por todos os dias de suas vidas. Eles acabaram fugindo e sumindo no ar. Conseguiram ficar aquela vida juntos, mesmo com a diferença de evolução, Júlio era amável e gentil como nessa, mas a interferência desse espírito cego de um ódio que prometeu acabar com esse amor, fez de Júlio um fantoche. O possuidor só precisava separar Yasmin de Júlio e teria sua vingança. Dessa vez, parece que estava conseguindo, mas era uma forma do casal evoluir para poderem ficar juntos. Sem Yasmin , Júlio não conseguiria se libertar. Talvez levasse séculos para conseguirem ficar juntos tamanha era a força do ódio do possuidor. Era para que juntos, os dois conseguissem abrandar esse ódio e libertar o umbralino da cegueira. Se eles, na outra vida, tivesse agido corretamente, procurado não machucar ninguém por seu amor, mesmo o verdugo não os perdoando tudo ficaria bem.