Brenda
Fazem dois dias desde aquela conversa. Dois dias que me sinto mais perdida do que antes. Tudo parece revolto dentro de mim. Sinto medo, vergonha e raiva. Tudo isso ao mesmo tempo. Quase não consigo olhar nos olhos de Nando depois de tudo o que contei. Estou sempre me esquivando cada vez que ele tenta alguma aproximação.
Quando Olívia está junto conosco é mais fácil porque sei que ele não vai voltar aquele assunto com ela presente. O que é quase sempre já que a minha filha vive em seu encalço. Ela passa o máximo de tempo com ele e fica inquieta quando ele precisa ir trabalhar.
Confesso que também me sinto angustiada quando ele não está aqui. A sua presença me traz uma sensação boba de segurança. Em especial quando passa a noite aqui. Sei que deveria manda-lo embora. Imagino que seja um fardo para ele ter que ficar conosco como um cão de guarda. Mas não o faço por medo. Medo de que algo aconteça enquanto estamos aqui sozinhas e eu não consiga proteger a minha filha.
As noites longas e insones começam a pesar. Me sinto completamente esgotada. Sem forças nem mesmo para o básico. Toda essa debilidade me assusta. Percebo que o mesmo acontece com Nando assim que me vê entrando na cozinha logo depois de Olívia.
_ Tudo bem? – Pergunta preocupado e apenas assinto com um maneio de cabeça ainda sem fôlego para falar depois da curta caminhada. – Não é o que parece. – Comenta servindo algumas frutas para Olívia. – Come tudo, abelhinha.
Minha filha sorri ao ouvir o apelido que ganhou recentemente. Nando a chama assim porque ela não se separa da abelha de pelúcia que ganhou dele nem um segundo sequer.
_ Tem que comer tudo direitinho para ficar forte e crescer. – Diz antes de enfiar uma nova fatia de morango na boca. – Posso ir com você lá nos barcos que você trabalha se comer tudinho do café da manhã?
_ Hoje não tem trabalho, abelhinha. – Conta me servindo um copo de suco de laranja. – Mas te levo um outro dia. – Garante afagando seu rosto.
_ Já que não tem que trabalhar nada. O que a gente vai fazer? – Pergunta antes de mordiscar uma fatia de melão.
_ Podemos brincar um pouco na praia, assistir filmes, desenhar...
Paro de prestar atenção no que estão dizendo quando começo a sentir um leve incomodo ao respirar, a visão fica turva e tenho a sensação de estar flutuando. Seguro com força na mesa com medo de cair. As mãos e os pés começam a formigar.
_ Brenda. – Nando chama o meu nome em tom urgente me dando uma dimensão do meu estado. – O que está sentindo? – Suas mãos me seguram com firmeza me impedindo de ir de encontro ao chão ao mesmo tempo que seu rosto aparece em meu campo de visão.
_ Uma pressão no peito e dificuldade para respirar. – Digo ofegante.
_ Certo. – Olha para os lados um tanto perdido. – Vou te levar para um hospital. – Decide um tanto afobado.
_ Não. – Minha voz saí embolada. – Hospital, não. – Aperto o seu braço com toda força que tenho. – O Thomás...
_ Pouco me importa aquele i****a. Você é a minha prioridade.
_ Mamãe. – Olívia chama por mim assustada.
_ Calma, abelhinha. – A voz de Nando é calma mesmo em meio a toda essa situação. – A mamãe não está se sentindo bem, mas vamos levar ela até o médico e logo ela vai ficar boa. – Explica tentando tranquilizar a pequena. – Vou precisar pegar a mamãe no colo, mas não fica preocupada.
Queria dizer que não é necessário, mas sinto que vou cair se tentar andar sozinha. Ele me ergue com facilidade e então se apressa em deixar a casa com Olívia em nosso encalço. Sou acomodada no banco de trás do carro junto com a minha pequena que tem a mãozinha presa a minha me passando força.
O clima de tensão toma conta do ambiente. Nando está concentrado na direção e não diz uma só palavra. O pânico começa a me tomar quando noto que a ponta dos meus dedos estão ficando azuis. Um péssimo sinal para alguém com um problema como o meu.
_ Alguém ajuda! – Nando desce do carro gritando.
Logo uma confusão se forma a minha volta. Uma dupla de enfermeiros me tira do carro, colocam em uma maca e me levam para dentro. Como não consigo falar é Nando quem explica a situação para o médico enquanto mantém Olívia nos braços. Me sinto ainda pior pôr a estar assustando mais uma vez.
_ Não se preocupe, senhor. Vamos cuidar bem da sua esposa. – O médico garante quando estou sendo levada para longe deles.
As pessoas que me circundam começam a falar com termos técnicos que m*l consigo entender. Depois de um exame rápido de ultrassom cardíaca tenho um remédio aplicado em minha veia. O efeito parece ser imediato. O monitor cardíaco para de apitar como um louco e a briga por espaço entre meu coração e pulmões se encerra sem nenhum ganhador.
_ Como se sente? – O médico pergunta para ao lado da maca.
_ Melhor. – Respondo ainda um pouco ofegante.
_ Que bom. – Sorri amistoso. – O que a senhora teve foi uma forte arritmia associada ao seu problema com a valva tricúspide. – Explica em seu tom sereno. – A senhora tem tomado os seus remédios corretamente?
_ Me esqueci de tomar algumas vezes essa semana. – Minto.
_ Isso explica o estado em que chegou. – Enfia as mãos nos bolsos do jaleco. – Mas essa conduta não pode se repetir. Isso coloca a sua vida em risco e pode acarretar a outras crises que podem ser mais severas do que está e talvez não consigamos reverter.
_ Prometo que vou me cuidar. – Garanto me sentindo um pouco melhor. – Será que já posso ir embora? – Questiono ansiosa para deixar esse lugar.
_ Ainda não. O que teve foi grave e quero que fique em monitoramento pelas próximas vinte e quatro horas. – Tira as mãos dos bolsos e pega o meu prontuário. – Vou pedir alguns exames. Uma enfermeira vai vim aqui coletar o seu sangue. – Diz com os olhos ainda na prancheta. – Vamos te transferir para uma quarto e vou liberar a entrada do seu marido e filha. – Avisa já se retirando.
A enfermeira que coleta o meu sangue para os exames é a mesma que me leva para o quarto e me conecta nas máquinas que vão ajudar a me monitorar. Logo que ela saí Nando entra trazendo Olívia no colo. Ela está com o braço envolvendo o seu pescoço e seus rostinho está marcado pelo choro.
Ela se lança em meus braços assim que Nando se aproxima da cama. A abraço apertado e aspiro o seu perfume.
_ Como se sente? – Ele questiona atraindo a minha atenção.
_ Bem melhor. – Afago os cabelos da minha pequena. – Tão bem que já poderia ir embora.
_ Mas não vai. – Cruza os braços na altura do peito. – Falei com o médico antes de entrar. Ele não entrou em detalhes, mas disse que você precisa passar as próximas vinte e quatro horas em observação aqui no hospital.
_ E quem vai cuidar da Olívia enquanto fico aqui? Um hospital não é lugar para crianças.
_ Já pensei nisso. – Diz com um sorriso vitorioso. – Ela vai ficar com a minha mãe e a minha irmã na minha casa.
_ Não acho que elas vão aceitar esse arranjo. – Argumento desesperada para sair daqui.
_ Nisso você se engana. – Lá está aquele sorriso outra vez. – Falei com a minha mãe enquanto estávamos esperando por notícias suas e ela não pensou duas vezes antes de vir.
_ A Lúcia está aqui? – Pergunto surpresa.
_ No corredor. Ela queria te ver. Se você quiser, é claro.
_ Tudo bem. – Digo a ele que assente antes de se afastar e caminhar até a porta.
Esperava por uma carranca de raiva ou acusações, mas não recebi nada disso. Muito pelo contrário. Lúcia me acolhe em um abraço protetor que me faz lembrar a minha mãe. Depois de uma rápida e amistosa conversa ela vai embora levando Olívia, que está muito animada para passar um tempo com a vovó Lúcia.
_ Não gosto de ficar longe dela. – Digo a Nando quando ficamos sozinhos. – Nós nunca ficamos longe uma da outra.
_ Sei que é complicado, mas você mesma disse que o hospital não era lugar para ela. – Diz sentando na cadeira ao lado da cama. Queria que ele estivesse perto e segurasse a minha mão, mas acho que é pedir demais. – E garanto que a minha mãe vai cuidar bem dela. Olívia está segura na minha casa.
_ Não gosto de ficar aqui. – Conto começando a sentir os olhos pesados. – Parece que o Thomás vai entrar por aquela porta a qualquer momento.
_ Isso não vai acontecer, Raio de Sol. – Diz segurando a minha mão. – E se ele vier, eu vou estar aqui para te proteger.
Queria continuar acordada e alerta. Tento lutar contra a vontade de dormir, mas não é uma causa justa. Adormeço sentindo o calor da sua mão. A melhor sensação do mundo.