Nando
Ela está bem. É o que repito a mim mesmo enquanto a observo dormir depois de ter vivido um dos piores momentos da minha vida. Vê-la naquela situação me trouxeram lembranças da última vez que nos vimos. A diferença é que naquela vez não pude estar assim perto e cuidando dela e agora eu posso e é o que vou fazer.
Uma enfermeira simpática vem fazer um novo exame. Ela explica que é para saber se os batimentos de Brenda estão realmente regulares. Preciso soltar a mão dela e isso a desperta. O exame é rápido. E ao que tudo indica está tudo bem. Brenda volta a dormir assim que ficamos sozinhos novamente e eu volto a minha função de velar o seu sono.
Mas, diferente do anterior, esse seu sono é agitado. Sei que está tendo um pesadelo com aquele canalha quando a ouço murmurar o seu nome e depois o de Olívia angustiada. No monitor consigo ver a sua frequência cardíaca aumentar enquanto se debate na cama.
_ Calma. Calma, Raio de Sol. – Peço segurando sua mão que prontamente aperta a minha e seus olhos se abrem num susto. – Está tudo bem. – Sussurro acariciando seu rosto. – Está tudo bem. – Repito olhando em seus olhos. – Vocês estão seguras.
_ Não estamos, não. – Diz com a respiração um pouco melhor. – Ele vai nos encontrar. Tudo por minha culpa. – Vira o rosto quebrando o nosso contato visual. – Por que eu tinha que ser assim? Uma fraca? No fundo o meu pai tinha razão. Eu não sirvo para nada.
_ Não diga isso nunca mais. – Faço com que me olhe. – Você não é fraca. – Seus olhos se enchem de lágrimas. – Sei que passou uma vida ouvido isso, mas não é verdade. – Sento na ponta da cama reduzindo a distância entre nós. – Você é forte, Brenda. – Toco seu rosto com carinho e a sua mão cobre a minha. – Você sobreviveu a uma tormenta que metade das pessoas que conheço não suportaria. – Colo minha testa na dela fazendo nosso hálito se misturar. – Você é forte. – Meu polegar acaricia as maçãs do seu rosto.
O choro vem em pequena ondas, mas é algo libertador. A acolho em meus braços e deixo que despeje tudo o que esteve prendendo durante todo esse tempo em que esteve lutando sozinha.
_ Vai ficar tudo bem. – Sussurro em seu ouvido.
A crise de choro vai passando aos poucos até que ela finalmente se acalma.
_ Melhor? – Ela assente ainda em meus braços. – O que acha de dormir um pouco? Você precisa descansar.
_ Eu não durmo, Nando. – Diz se afastando um pouco para me olhar. – Eu nunca durmo. Preciso estar sempre alerta.
_ Não precisa mais. – Afasto uma mecha de cabelo do seu rosto. – Eu estou aqui agora e vou te proteger.
Sinto vontade de beijá-la, mas sei que não é o momento. Então apenas me acomodo melhor na cama e a trago para os meus braços. Ela ainda luta um pouco contra o sono, mas acaba adormecendo alguns minutos depois.
A enfermeira vem checar o estado de Brenda uma hora depois e não gosta nenhum pouco de me ver deitado com ela, mas não dou a mínima. Após algumas horas eles levam Brenda para refazer alguns exames e aproveito para ligar para a minha mãe que atende no primeiro toque.
_ Tudo bem, filho?
_ Sim. – Digo me recostando na janela com vista para a avenida movimentada. – Aproveitei que levaram a Brenda para fazer alguns exames e liguei para saber da Olívia.
_ Ela está bem. – Garante e o riso da minha abelhinha ao fundo confirma. – Ela está brincando com a sua irmã agora, mas volta e meia pergunta pela mãe e por você.
_ Imagino que sim. – Passo a mão no cabelo o jogando para trás. – Elas são muito ligadas.
_ Eu notei que Olívia é bastante dependente da mãe.
_ Uma depende da outra, mãe. – Falo ao lembrar das coisas que Brenda me contou.
_ Como está a Brenda? – Pergunta se afastando um pouco das meninas. – A notei tão debilitada quando a vi.
_ Ela está realmente debilitada, mãe. Mas vou cuidar para que fique bem.
_ Claro que vai. – Diz um tanto enigmática. – A Mirabella sabe desse seu cuidado com a Brenda? Vou formular melhor a pergunta. Ela sabe que a Brenda está de volta?
_ Mirabella e eu terminamos há alguns dias. O que significa que a minha vida não diz respeito mais a ela.
_ Certo. – É tudo o que diz. – Vou precisar desligar para preparar o jantar das crianças. Prometi assar torta de framboesa para a sobremesa.
_ Olívia vai adorar. – A minha abelhinha também é uma formiguinha que ama doces. – Qualquer coisa liga.
_ Você também.
_ Tchau, mãe. – Desligo no mesmo instante que trazem Brenda de volta para o quarto.
O médico vem junto, garante que as coisas parecem estar dentro dos conformes e diz que, se tudo estiver bem, Brenda será liberada amanhã na primeira hora. Ela ainda tenta nos convencer a ser liberada ainda hoje, mas seus argumentos são completamente ignorados por nós dois. A sua carinha contrariada a deixa ainda mais linda.
_ Odeio comida de hospital. – Comenta quando trazem o seu jantar.
_ Mas vai comer tudo. – Digo colocando a bandeja diante dela que olha para a sopa completamente desanimada. – Sei que não parece muito gostoso, mas você tem que comer para recuperar as forças.
_ O que está fazendo? – Pergunta quando aproximo uma colherada de sopa da sua boca.
_ Cuidando de você. – Digo a desarmando. – Agora abre a boca. – Peço com carinho. – Estive falando com a minha mãe. – Comento a fazendo comer uma nova colherada de sopa. – A Olívia está bem. Se divertindo muito com a Catarina.
_ A sua irmã já deve ser uma mulher feita. – Comenta com um meio sorriso que me aquece o coração.
_ Ela até que é. Mas minha mãe e eu meio que ignoramos isso. – Brinco a fazendo comer mais um pouco.
Seguimos conversando sobre amenidades. Volta e meia arranco um sorriso dela. Depois do jantar ligo a televisão num programa qualquer. Mas não demora muito para Brenda voltar a dormir.
A noite é tranquila. Durmo na poltrona ao lado da cama velando o sono dela. Depois café da manhã Brenda é levada para repetir exames e aproveito para ir até a cafeteria tomar um café expresso para espantar o sono. Volto ao quarto quase que ao mesmo tempo que Brenda e o médico vem logo em seguida.
_ Já posso ir embora? – Pergunta segurando a minha mão buscando força.
_ Vou organizar a papelada da sua alta, mas quero que faça um acompanhamento de perto com um cardiologista da sua preferência.
_ Mas por que isso, doutor? – Questiono preocupado.
_ Os exames da sua esposa foram bons, mas não excelentes. E considerando tudo o que aconteceu recentemente acho que seja prudente fazer visitas ao médico com mais frequência. Assim conseguimos evitar que uma crise como a de ontem aconteça. – Explica com as mãos enfiadas no bolso do jaleco. – Também é de extrema importância que a senhora tome as suas medicações nos horários corretos, se alimente bem e evite situações estressantes.
_ Vou cuidar pessoalmente disso, doutor. – Garanto.
_ Ótimo. Vou preparar tudo e também deixar a receita com a enfermeira. Vocês podem pegar antes de ir. – Informa antes de se retirar do quarto.
_ Acho que preciso de um banho. – Diz soltando a minha mão.
_ Consegue tomar banho sozinha ou precisa que chame alguém para te ajudar? – Pergunto ela levanta usando a cama como apoio.
_ Acho que consigo sozinha.
_ Tudo bem. Mas não tranca a porta. – Peço a ela que me olha com desconfiança e talvez medo. Ver isso estampado em seus olhos e saber o motivo de estar ali acaba comigo. – Não vou entrar. É só para o caso de você passar m*l lá dentro. – Explico a tranquilizando.
_ Você tem razão. – Diz com o rosto um tanto corado um tanto envergonhada. – Vou deixar a porta apenas encostada. – Avisa antes de seguir para o banheiro com passos lentos.
Essa debilidade dela que tanto me machuca vai passar. É isso que prometo a mim mesmo. Brenda vai voltar a ser aquela garota forte e decidida que conheci. Vou ajudá-la a cuidar de todas as feridas feitas por aqueles dois monstros e a superar tudo o que viveu.