Capítulo 16

1522 Palavras
Brenda O banho faz com que me sinta um pouco melhor e afasta a sonolência causada pelos medicamentos que me deram. Ainda sinto os meus movimentos um tanto lentos quando me seco e visto um roupão que encontro no armário do banheiro. Tomo cuidado de tampar completamente minha cicatriz antes de sair. Não quero que Nando a veja. Mas não é ele quem eu encontro quando retorno para o quarto. Levo alguns segundos para reconhecer a moça que estende dois vestidos sobre a cama completamente distraída. _ Catarina? – Ela ergue o rosto com um largo sorriso ao ouvir o seu nome. _ Você lembra de mim. – Diz vindo me abraçar. _ Nunca esqueci de você. – Digo quando me solta. _ Bom saber. – Brinca e forço um meio sorriso. – Trouxe algumas peças de roupas. Vestidos. Mamãe disse que eram mais práticos. – Fala enquanto me conduz até a cama. – São meus. Temos quase o mesmo tamanho então devem servir. Escolhe o que mais gostar. São dois vestidos curtos com estampas florais. Algo que não uso a muito tempo. Pego o branco com estampas de flores amarelas e sem decote. _ Precisa de ajuda para se vestir? _ Não. Eu consigo sozinha. – Digo antes de seguir de volta para o banheiro. Seria mais rápido me vestir com a ajuda de Catarina, mas não suporto a ideia de que ela veja as minhas cicatrizes. Sinto vergonha por tê-las embora não tenha merecido nenhuma delas. Depois de me vestir amarro os cabelos num r**o de cavalo e retorno para o quarto. Nando está de volta e me olha de uma maneira que mexe comigo. Me faz lembrar o Nando que conheci quando vinha passar as férias na cidade. O garoto que me apresentou a beleza do mundo e me mostrou o que era o amor. Que pena que não sou mais a aquela garota que ele conheceu. _ Tudo pronto. – Ele diz quebrando o silêncio. – Já paguei a conta, comprei os remédios que o médico receitou e marquei uma consulta com o cardiologista que vai acompanhar o seu caso para daqui três dias. _ Fez tudo isso enquanto tomava banho? – Pergunto um tanto chocada. _ Meu irmão é bastante eficiente quando quer, Brenda. – Catarina fala dando um leve empurrão no irmão que revira os olhos em resposta. – Vamos logo. Imagino que você esteja louca de saudades da sua filha. Ela não faz ideia do quanto. Estou contando os segundos para ter a minha filha perto de mim novamente desde o momento em que Lúcia a levou. Mas não é apenas a saudade. Também estou angustiada por estarmos longe uma da outra. O medo de que Thomás consiga nos encontrar agora é ainda maior. Nando garante que estamos seguras, mas ele não sabe do que está falando. Ele não conheceu o Thomás como eu. Ele não faz ideia do que aquele homem é capaz de fazer quando contrariado ou desafiado. Mas eu sim. Tenho marcas que não me deixam esquecer. _ Tudo bem? – Ele pergunta quando entramos no elevador e as portas de aço lustradas se fecham. _ Sim. – Dou a resposta padrão que aprendi a repetir ao longo desses seis anos que convivi com León e Thomás. Não sei se ele acredita ou simplesmente não quer insistir. Seguimos calados enquanto Catarina não para de falar sobre a noite com Olívia no caminho até o estacionamento e depois no percurso até a casa deles. Uma enorme, mas acolhedora, mansão. _ Espero no carro enquanto você pega Olívia. – Digo quando ele estaciona o carro em frente à entrada principal. _ Como assim, Brenda? – Catarina questiona colocando a cabeça entra os bancos. – Temos que entrar todos. – Abro a boca para falar, mas ela não me dá espaço. – Mamãe está nos esperando para o café da manhã e não aceita desfeitas. Ela salta do carro antes que consiga argumentar. Nando faz o mesmo dando a volta no carro para me ajudar a sair e, mesmo dizendo que não é necessário, me ampara enquanto caminho. Olívia corre ao meu encontro e abraça minhas pernas assim que passamos da porta. Me ajoelho para conseguir a abraçar direito. Aspirar o seu perfume e sentir o seu corpinho contra o meu me traz alívio e dissipa a angustia que ainda apertava em meu peito. _ Senti muita saudade, mamãe. – Ela conta desfazendo o nosso abraço. – Fiquei até triste. – Toca o meu rosto com carinho. – Não queria dormir longe de você, mamãe. Mas a vovó Lúcia ficou comigo. – Ergo os meus olhos que se encontram com os de Lúcia. _ Obrigada. – Digo de modo sincero. _ Não foi nada. – Garante apoiando as mãos nos ombros de Olívia. – Adorei ficar contando histórias para essa pequena princesa durante toda a noite. – Beija o seu rostinho corado da minha pequena. _ Podemos continuar essa conversa à mesa. – Nando pede me ajudando a levantar. – Brenda precisa comer para tomar os remédios que o médico passou. _ Você ainda está doente, mamãe? – Olívia pergunta com um arzinho preocupado. _ A mamãe está se recuperando, abelhinha. – Ele fala a pegando no colo. – Não precisa ficar preocupada. Isso é tudo o que precisa ouvir para ficar tranquila. Ela simplesmente acredita no que ele diz e a invejo. Queria ser como ela. Queria acreditar que tudo está bem e que não existe mais nada de r**m no mundo, mas não consigo. Sigo os outros até a sala de jantar onde uma linda mesa está posta com as mais variadas comidas. _ Perdi completamente o limite. – Lúcia fala enquanto nos acomodamos em torno da mesa farta. – Acho que exagerei um pouco. _ Ninguém está reclamando, mãe. – Catarina fala se servindo de uma generosa fatia de bolo. _ Não mesmo, vovó. – Olívia fala antes de comer mais uma amora. – Não tem ninguém gritando e nem bravo como naquela outra casa que a gente morava. – Deixa escapar alheia as pessoas a sua volta. Recebo alguns olhares, mas ninguém comenta nada e agradeço por isso. Uma conversa amena surge na tentativa de preencher o silêncio e quebrar o constrangimento. Me mantenho calada e jogando a comida de um lado para o outro do prato como de costume. _ Já estou satisfeita. – Olívia suspira se recostando na cadeira. _ Que bom, amorzinho. – Lúcia fala pincelando a ponta do seu nariz. – Já que terminou de comer pode ir com a tia Catarina brincar no jardim enquanto a sua mamãe come mais um pouco. _ Certo, vovó. – Diz antes de correr para longe puxando Catarina pela mão. _ Ela está bastante à vontade aqui. – Comento com os olhos perdidos no lugar onde elas sumiram. _ Ela está em casa. – Lúcia responde com um sorriso nos lábios. – E você também. – Diz me olhando nos olhos. – E é por esse motivo que quero convidar vocês para ficarem aqui. _ Não quero incomodar. – Digo apressada. _ Não é incomodo algum. – Rebate segurando a minha mão sobre a mesa. – Não é um convite por educação, Brenda. Realmente quero que fiquem. – Sua mão livre toca o meu rosto com carinho. – Você ainda não está bem. Está claro que o seu estado ainda é debilitado. Não me sentiria tranquila sabendo que você pode voltar a se sentir m*l e não tenha ninguém para ajudar. Sei que você e Olívia estão hospedadas na casa do meu filho e que é um lugar seguro. Mas, ainda assim, vocês ficam sozinhas. _ Aquela casa é sua? – Pergunto me voltando para Nando que assente com um maneio de cabeça. – Por que não me disse quando nos levou para lá? _ Porque você estava agindo de modo arredio e sabia que não aceitaria ficar na casa sabendo que era minha. _ Vocês podem discutir isso depois. – Lúcia determina. – Agora, mocinha. – Sorri afastando uma mecha de cabelo do meu rosto. – Trate de comer e depois vá descansar um pouco. Já mandei preparar o seu quarto. Ele fica entre o quarto do Nando e da Olívia. – Beija a minha testa antes de se retirar da mesa. Fico a observar deixar o cômodo em direção ao jardim. Ao longe consigo ouvir o riso da minha filha. Ela se sente feliz aqui. Livre. _ Minha mãe tem razão. – Nando fala me trazendo de volta a realidade. – Você precisa se alimentar. Já percebi que nunca come direito. Fica sempre jogando a comida de um lado para outro. _ É que quase nunca sinto fome. – Dou de ombros antes de beliscar uma fatia de morango. _ Mesmo sem fome precisa se esforçar, Brenda. – Pede me fazendo olhá-lo. – Você precisa ficar bem. Olívia precisa de você. – Diz olhando no fundo dos meus olhos. – E eu também. – Sussurra antes de tomar meus lábios em um beijo que me arrebata a alma ao mesmo tempo em que parece me devolver a vida.
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