Nando
Beijar a Brenda não estava em meus planos. Mas não pude evitar. Foi algo mais forte do que eu. Me sinto como um adolescente que acaba de dar o primeiro beijo quando me afasto apenas o necessário para poder olhar em seus olhos. Sorrio quando vejo algum brilho a iluminá-los.
Sinto vontade de dizer que sigo a amando, mas me contenho. Esse não é o momento. Brenda precisa se concentrar em ficar bem. Em especial agora. Com a sua visita ao hospital é bem provável que Thomás descubra sobre o paradeiro das duas. Agora mais do que nunca tenho que falar com Brenda sobre a ideia de denunciarmos Thomás por tudo o que fez com ela e Olívia e assim ficarmos um passo à frente dele.
_ O que houve? – Brenda pergunta colocando um pouco mais de distância entre nós e afasta minhas mãos de seu rosto. – Se arrependeu?
_ Nunca. – Seguro suas mãos entre as minhas.
_ Então por que ficou tão sério de repente? – Seus olhos desviam dos meus e se voltam para as nossas mãos.
_ Porque pensei que Thomás pode localizar vocês depois da sua visita ao hospital. – Digo sem rodeios. – E precisamos fazer algo para impedir que ele se aproxime de vocês. Ou melhor dizendo. Você precisa fazer algo para impedir que aquele maldito se aproxime de vocês.
_ Eu? – Questiona erguendo novamente o olhar com cenho franzido. – O que posso fazer contra aquele monstro?
_ Denunciá-lo por maus-tratos, cárcere privado, coesão. – Ergo os dedos à medida que enumero os feitos daquele homem. – Além de pedir o divórcio.
_ Fazer isso deixaria o Thomás ainda mais nervoso. – Diz encolhendo os ombros tornando a desviar os olhos.
_ Mas nos daria vantagem e uma chance para lutar. – Faço com que me olhe novamente. – Sei que dar esse passo te deixa com medo. Mas eu juro que vou proteger a Olívia e você. – Toco seus lábios num beijo rápido. – O poder está em suas mãos. É você quem decide. Se não quiser denunciá-lo vou ajudá-las a seguir fugindo.
_ Sabe. – Começa a falar um tanto receosa. – Eu estou morrendo de medo. Mas não quero fugir. – Diz determinada. – Não quero viver com medo até mesmo do vento. Eu quero ser forte pela minha filha. – Endireita os ombros assumindo uma postura altiva. – Quero que ela seja feliz como eu não pude ser.
_ No que depender de mim vocês duas serão muito felizes.
_ Eu queria ter essa sua fé. – Pondera acariciando o meu rosto. – Enxergar a vida como você enxerga. Mas tudo o que consigo é pensar no pior. Esperar que o pior aconteça.
_ É natural depois de tudo o que você passou. – Trago suas mãos aos lábios e deposito um beijo carinhoso. – Mas não vamos falar mais sobre isso. Você precisa tomar os seus remédios e descansar um pouco.
_ Sobre a denúncia...
_ Eu vou falar com o Diego, o pai do Santiago. Ele é o melhor advogado da Espanha e também amigo da família. Tenho certeza que com ele a nos representar conseguimos ganhar essa luta. – Digo me erguendo a trazendo junto. – Agora vou levar você para o quarto. Chega de agitação.
A amparo até o quarto de hóspedes que mamãe preparou para ela, faço com que tome o remédio receitado pelo médico, espero que adormeça e só então deixo o quarto.
Aproveito que mamãe e Catarina estão cuidando da minha abelhinha para ligar para Diego. Temos uma longa conversa. Conto a ele tudo pelo que Brenda e Olívia passou no tempo em que viveu com Thomás e sobre o nosso plano de entrar com um processo contra o mau-caráter.
_ O que você acha, Diego? – Pergunto um tanto apreensivo.
_ Não vou mentir para você. Vai ser uma batalha e tanto. – Diz antes de um longo suspiro. – Em especial pelas acusações de violência doméstica e cárcere privado. As alegações de Brenda vão ajudar a abrir o inquérito, mas não serão suficientes diante do juiz. Precisamos conseguir provas que apoiem a nossa tese. Testemunhas também.
_ Vou cuidar disso.
_ Tem certeza de que quer se envolver diretamente nesse caso, Nando? – Questiona em tom preocupado.
_ Eu já estou envolvido, Diego. – Respondo ao mesmo tempo em que o som do riso de Olívia chega aos meus ouvidos. – Sei que tudo o que vai acontecer depois que dermos o primeiro passo vai respingar em mim, mas não ligo a mínima. Tudo o que me importa é que mãe e filha estejam seguras.
_ Tudo bem. – Murmura do outro lado da linha. – Só queria garantir que tinha dimensão do que está prestes a fazer.
_ Sou completamente consciente. – Rebato. – Então, Diego. Você pode nos representar nesse caso?
_ Nem precisa perguntar, Nando. É óbvio que vou representa-los.
_ Obrigado. – Digo realmente grato.
_ Não precisa agradecer. Você e a sua família são muito importantes para o meu filho e eu. – Fala num tom agora mais leve. – Preciso desligar agora. Tenho uma reunião com um cliente, mas assim que a reunião acabar vou dar entrada no processo contra Thomás Lancaster. Te encontro depois para falar qual deve ser o próximo passo. – Encerro a ligação depois de uma rápida despedida.
O primeiro passo foi dado e não tem como voltar atrás. Só me resta estar preparado para proteger Brenda e Olívia do que estar por vir.
Caminho até a janela e sorrio para cena que vejo. Catarina corre atrás de Olívia que gargalha feliz enquanto busca a p******o da minha mãe. Parece até a realização do sonho que um dia Brenda e eu sonhamos quando ainda éramos dois adolescentes fugitivos.
Se naquele dia tudo tivesse saído como planejávamos hoje a nossa realidade seria diferente. Mas a minha abelhinha não existiria. Esse mero pensamento me causa calafrios. Não posso negar que não consigo mais imaginar o meu mundo sem aquela pequena nele.
_ Nando! – Olívia grita o meu nome ao me notar parado na janela. – Vem! – Acena me chamando.
Faço um sinal para que espere e então me apresso em me juntar a elas. Olívia corre ao meu encontro assim que chego ao jardim. Mamãe entra para checar como Brenda está e para dar ordens sobre o almoço.
Quando entramos mamãe ajuda Olívia com o banho e Catarina vai estudar na casa de uma amiga. Na hora do almoço a pequena está tão cansada que está quase caindo sobre o prato. Quando restam apenas algumas garfadas no prato ela escorrega da cadeira, passa por baixo do meu braço e se esgueira até estar sentada em meu colo. Brenda faz menção de pegá-la, mas faço um sinal de que está tudo bem.
Assim que termino de comer levo minha abelhinha para o quarto sendo acompanhado por Brenda.
_ Ela está tão cansada que acho que vai dormir a tarde toda. – Comento enquanto Brenda retira os sapatos de Olívia.
_ Não mesmo. – Diz num meio sorriso com o olhar perdido de amor pela filha. – Vou deixar que durma apenas uma horinha.
_ Mas por que não quer deixa-la dormir? – Questiono sentando na outra ponta da cama ficando de frente para ela.
_ Porque se a sua abelhinha dormir toda a tarde vai passar a noite em claro. – Rebate me olhando de soslaio. – E acredite em mim quando digo que não vai querer passar toda a noite acordado assistindo a milhares de filmes de princesas e brincando até o dia amanhecer. – Afasta uma mecha de cabelo do rostinho da pequena. – O único ponto bom é que ela não choraria.
_ Ela costumava dar trabalho quando era um bebê? – Pergunto realmente interessado em saber da resposta.
_ Até que não. Olívia sempre foi um bebê calmo. Ela só chorava quando sentia algum desconforto ou quando se assustava com os rompantes de Thomás. – Vejo quando seus olhos viajam em meio a lembranças. – Ficava sempre apavorada. No primeiro ano costumava dormir na cama auxiliar que tinha no quartinho dela com medo de que Thomás fizesse algo contra ela. Foi quando voltei a lutar e rebater as ordens dele.
_ Você tinha alguém para te ajudar? Uma babá ou enfermeira?
_ Nunca quis que outras pessoas cuidassem da minha filha mesmo que León e Thomás insistissem nisso. – Volta seus olhos em minha direção. – Não queria que ela crescesse sendo cuidada por um estranho.
_ Você é uma ótima mãe. – Cubro a sua mão com a minha. – E está fazendo um ótimo trabalho com ela.
_ A situação em que estamos diz o contrário. – Rebate sem qualquer fé em si mesma.
_ Não se cobre tanto. – Aperto levemente sua mão. – Essa situação não vai durar para sempre, inclusive, estou cuidando pessoalmente de que isso acabe o mais breve possível. – Afago seus olhos. – Falei com o Diego e ele já começou com o processo contra Thomás. Logo vocês vão estar completamente livres daquele maldito.
_ É o que espero. - Murmura num ar cansado.
_ Chega desse assunto. – Determino tocando seus lábios num beijo rápido. – O que acha de aproveitar para dormir um pouco junto com a Olívia? – Faço com que se deite. – Prometo acordar vocês daqui uma hora. – A beijo novamente. – Fecha os olhos. – Peço acariciando o seu rosto. – Pode ficar tranquila que vou estar aqui cuidando de vocês. – Ganho um doce sorriso que me faz ganhar o dia.
Aos poucos os seus olhos vão fechando até que ela ressona tranquila abraçada a filha. E eu fico ali. Observando mãe e filha juntas. Perdido de amor.