Pré-visualização gratuita Sentidos | parte I
Os prédios altos quase tampam a vista do céu. As cores vivas dos grafites, as portas dos edifícios nuas, sem a arte iluminada que cobre nossos olhos pelas avenidas. As lojas exibem seus produtos à vista dos fregueses, enquanto os vendedores chamam atenção para si. Gosto do que as plantas me trazem, do que os desenhos me contam.
Sempre amei caminhar pelas lacunas e quarteirões, observar as casas e imaginar o que há por trás das paredes e janelas. Cada um tem sua maneira única de mover os objetos com delicadeza para enfeitar seu lar. Instantaneamente, quando esse pensamento me surge, a curiosidade de viver suas realidades me atinge em cheio. Penso em como são suas rotinas, paixões, o que gostam de fazer, os livros que preferem ler, ou se gostam mais de ouvir histórias. Aprecio a loucura de pensar que, enquanto ando pela calçada, vidas correm a todo instante, se desenhando de maneiras intermináveis.
Até que descobri o pior delas.
Quando isso aconteceu, uma parte da beleza dessa minha característica morreu. Desde então, penso que, por trás de cada porta de carvalho que passo, alguém pode estar sendo atacado.
Ainda era cedo. Saí pela manhã sem avisar, para comprar café e caminhar um pouco. Havia um carrinho de flores na esquina. Sentei-me no meio-fio, a calçada era estreita, mas não havia muito tráfego de carros. Observei as mesas cobertas do outro lado, rodeadas de pessoas rindo e jogando conversa fora.
Um grafite de um homem, desenhado como um deus grego, chamou minha atenção. Ele estava com maquiagem de palhaço, com a boca e o nariz pintados. Seu olhar era perdido, triste, mesmo sendo tão belo. Provavelmente é assim que nos sentimos, imersos em coisas que nem imaginamos existir.
– Ei, o que está fazendo aí?
Ergui a cabeça e vi Richard, pai de Tom, parado, olhando para a mesma parede que eu. Sem precisar responder, ele me disse que Tom estava me procurando. Então, seguimos para minha casa.
Filha de um grande amigo do pai de Tom, e conhecendo-o desde que nasci, nos tornamos amigos inseparáveis. Convivo com ele e seu irmão como se fôssemos uma família, afinal, meu pai o tratava como um filho.
Quando chegamos, me deparei com os garotos e meu pai bebendo cerveja e conversando. Pensei que o caso fosse urgente, mas, pelo visto, estavam aproveitando uma folga.
Sentei-me ao lado de Tom na mesa.
– Estamos preparando o almoço – avisou meu pai.
– Legal! – sorri.
Tentei entender sobre o que conversavam, pois peguei o assunto pela metade. Tom falava sobre sua época na escola:
– Foi um período difícil para mim.
– Ah, não seja modesto – retrucou Louis, tirando risadas de todos.
– Hoje vi crianças saindo da escola – comentei, enquanto colocava pratos e talheres sobre a mesa. – Acabei reparando um grupinho rindo de um garoto. Que raiva me deu! – Fechei o armário e me sentei novamente. – Se os pais não estivessem por perto, eu daria uma boa bronca neles.
– Eu me preocupava com Tom na escola – disse Richard.
– Ei! Eu me defendia muito bem – respondeu Tom, rindo.
– Odeio valentões – afirmei, com rispidez.
Rich me olhou, e o ar ao meu redor mudou, de repente. Bem, ao menos foi o que eu senti. Quando Rich me olhou diretamente, senti algo diferente. Não entendi se disse algo errado ou se ele também odiava valentões.
Ele me olhou de uma forma distinta, o que o deixou extremamente atraente. Só conseguia pensar em como meus batimentos cardíacos dançavam numa discoteca dos anos 80, junto à casa de parede azul e o grafite que vi hoje.
– E de que tipo de caras você gosta? – ele perguntou.
– De caras como você – respondi com seriedade.
– Caras como eu? – Rich riu, como se eu tivesse feito a piada do ano.
– Caras como você – repeti, com a mesma seriedade, mesmo que todos à nossa volta estivessem gargalhando.
Todos, especialmente Rich, me viam de qualquer forma, menos a sério.
[...]
Depois do jantar, voltamos às pesquisas até irmos dormir, prometendo começar a investigação pela manhã.
Às 10h, eu e Tom já havíamos retornado da delegacia e do necrotério:
– O garoto está em coma. Tem um trauma na perna, que parece com a marca dos dedos de uma mão – mostrei as imagens que estavam nos arquivos. – Parece que foi puxado.
– É um Devorador de Almas. Já cacei um desses – disse meu pai, após poucos instantes observando a papelada. – Eles existem em um lugar fora do tempo e espaço. Segundo a lenda, invadem a casa e fazem um ninho.
– Com a força que acumulam, arrancam a alma da vítima e a levam para o ninho – completou Rich.
– O que deu errado? Por que ele está vivo? – indagou Tom ao pai, ainda perplexo.
– Nós o prendemos. O selo deve ter sido quebrado.
– Ei, olhem – Tom nos mostrou o notebook. – Existe uma forma de matá-lo! Um novo sigilo, feito com sangue. Um desenho é feito dentro da casa, enquanto o mesmo desenho é feito... dentro do ninho.
– Ainda tem gente na casa? – perguntou Rich.
– Sim. O garoto tem três irmãos – respondi.
– d***a – Tom suspirou. Nos olhamos, já sabendo o que precisávamos fazer.
– Vamos nessa, galerinha – brinquei, pegando minhas coisas. – Ah, eu quero desenhar o selo dentro do ninho.
– Não, você não vai desenhar o selo dentro do ninho – disse Rich.
– Sério? Nem meu pai está me proibindo!
– Confiamos em você, mas é perigoso demais. O ninho nos desvirtua, mostra coisas que amamos, partes de nossas almas aflitas, nos mantendo vulneráveis.
– É perigoso para todos nós – afirmei.
– Certo. Fico com você para desenhar um selo, os garotos desenham o outro e seu pai vai ao hospital checar as vítimas – Rich tentou finalizar a conversa. – E sem discussão.
– Certo – suspirei.
[...]
O revestimento de pedra na parede exterior da casa e as folhas da palmeira se sacudindo junto ao vento; se não existisse um ser sobrenatural psicopata como habitante do imóvel, diria até que parecia um lugar bonito à primeira vista.
- Vamos revisar o plano. - Diz Tom. - Vocês vão desenhar desse lado. O sigilo de vocês vai estabelecer as bases. Enquanto eu e Cortland desenhamos aqui. - Ele dá pequenas batidas com os dedos na parede. - O sigilo que o mata.
- Estão com o sangue? - Pergunta Rich, fazendo-os concordar. - Certo, então vamos começar.
[...]
Sinto algo me puxar fortemente. Logo, escuto o baque de Rich indo ao chão e vejo-o também ser puxado. Levanto meu rosto, apoiando minhas mãos frente ao meu corpo para ficar de pé. Ouvia rangidos, barulhos semelhantes às cadeiras de balanço antigas e multidões subindo e descendo as escadas. Rich resolve caminhar pelo local e eu o acompanho. Estávamos na mesma casa aonde havíamos entrado há instantes atrás, mas tudo estava tão diferente. Mesmo com a extensa escuridão, havia uma penumbra que nos permitia ver o suficiente. Ainda assim, minha visão parecia desfocada.
A princípio, estávamos sozinhos, até vermos Tom e Cortland mortos. Sabíamos que isso aconteceria, mas olhei para Rich, querendo checar se ele estava bem com aquilo. Ele segue em frente e eu faço o mesmo, até que espíritos começam a nos cercar. Posso ter certeza ao afirmar que esses espíritos, de fato, me assustaram com força. Ficavam paralisados à minha frente à medida que apareciam, sem se moverem ou demonstrarem qualquer reação. Suas expressões vazias eram imensamente angustiantes e sinto meu coração disparar.
Rich ainda não via ninguém e aproveitando a dádiva, focou-se em desenhar o sigilo com o sangue de sua mão recém cortada.
Sentia-me aflita, mas não queria apressar Rich:
- Tem uma criança falando comigo.
- O que ela está dizendo? - Ele pergunta.
- Que logo você vai vê-la também.
Um ser aparece entre os espíritos que preenchiam minha visão, vestia uma capa preta e de uma só vez sinto sua mão sobre mim.
[...]
- Olá, gatinhos. - Sorrio para Tom e Cortland. Na verdade, o Devorador de Almas no meu corpo sorri para Tom e Cortland. - O que acham de largarem a brincadeirinha de pintar e virem comigo para o ninho?
Empurro ambos para longe do sigilo.
- Ei, sei que está aí dentro, garota. - Diz Tom. - Lute! Lute contra ele!
- A garotinha de vocês não está aqui. - Firmo o punho e atinjo o rosto de Tom, sentindo Cortland me segurar por trás. Dou uma cotovelada em seu estômago e logo Tom leva meus braços até minhas costas. Chuto a parte interna de sua coxa por trás, fazendo-o me soltar.
- Faça-o parar, você consegue! Vamos garota, vamos! - Grita Cortland.
Tom desliza sua perna pelos meus pés, fazendo-me desequilibrar e cair. Ele me imobiliza, enquanto Cortland corre para finalizar o sigilo.
- Você vai ficar bem... - Dizia Tom. Debatia-me para que ele me soltasse, assistindo Cortland terminar o símbolo.
Ambos vêem o Devorador de Almas sair do meu corpo e sumir junto ao vento mórbido que antes percorria a casa.
Vejo-me novamente ao chão. Levanto meu corpo, notando Rich correr até mim:
- Que susto você me deu! - Ele me ajuda a ficar de pé, fitando-me com carinho.
Olho em volta e novamente vejo os espíritos que antes enxergava. Dessa vez, parece que Rich também os vê. Até que todos começam a sumir, um por um. Parecem ter ido embora. Finalmente, estavam livres. Eu e Rich andávamos pelo lugar, admirando a sensação boa que isso nos proporcionava.
Acordo nos braços de Tom, sem entender muita coisa. Até que vejo Rich ao meu lado, se levantando do chão:
- Ufa. Acabou. - Suspiro. Respirávamos fundo, permitindo-nos alguns segundos de puro alívio.
- Ei, filha, está bem? - Meu pai se agacha à nossa frente assim que adentra a casa. Concordo, já indagando sobre as crianças que moravam na casa. - Estão bem. Estão todas bem.
- Merecemos uma comemoração, não? - Propõe Rich.
- Por favor! Eu preciso encher a cara. - Tom responde, tirando risos de todos nós.
[...]
- Ei. - Escuto Rich pigarrear. - Seu pai ligou, precisa de você.
Estava do lado de fora do bar. Na esquina dele, mais precisamente. Enquanto os garotos se divertiam, notei um rapaz de jaqueta me encarar na mesa ao lado. Bom, agora ele me encarava bem mais de perto.
- Eu... - O sujeito se desaproxima. - Já vou indo. - Respondo-o sem muito dar atenção.
- Ele precisa de você agora. - Interfere Rich.
- Sim, eu já ouvi...
- Agora! - Rich grita encarando a alma do sujeito. - Quem é ele?
Olho para o dito-cujo, esperando sua resposta:
- Paul. - Responde ele.
- Paul. - Repito, olhando para Rich. Ele fecha sua expressão. Ainda mais.
- Acho melhor você ir. - Paul diz, se retirando depois de fitar Rich pela última vez. E assim o faço.
- Aconteceu algo grave? - Pergunto.
- Precisa ser grave? Seu pai precisa de você, ponto. - Rich fala calmamente, mas aquele tipo de calma que evidencia só estarmos segurando o nervosismo de dentro de nós.
- Certo. - Franzo o cenho, sem entender necas dessa sua alteração de humor tão repentina. Há minutos atrás estavam todos bebendo e jogando sinuca (lucrando em cima de viajantes babacas metidos a espertos, provavelmente). E agora, tudo se resumia em caos.
[...]
- Me desculpe por gritar. Sei que não é certo. - Diz Rich, antes de estacionar o carro em frente ao hotel que estávamos.
- Está tudo bem, não sou uma criancinha. Você só perdeu a paciência, não estou magoada ou traumatizada. - Desfiro em tom irônico. Abro a porta do carro, mas Rich segura minha mão para que eu não saia.
Ele nota meu ar de estresse:
- Você é jovem, sei que quer aproveitar, eu...
- Rich, pare. - Olho em seus olhos. - Só pare. - Finalmente, saio do carro.
- O que foi? - Pergunta ele, também saindo do carro.
- Pare de me tratar assim. - Fito os arredores. Quando examino sua feição, noto um olhar confuso.
- Praticamente te vi crescer, é natural que eu te trate assim.
Aproximo-me dele:
- Já estou crescida. Ainda não percebeu?
- Você ainda é só uma garota. - Diz Rich, sem manter seu olhar fixo ao meu.
- Certo. - Fito seus lábios. - Ele me olha, procurando com certeza qualquer indício de seriedade em minha face, mas que se dissipava cada fez mais junto à neblina que pairava ao longe.
Todas as vezes que surgiam dúvidas em meus pensamentos, sempre que eu me pegava tentando entender se era mesmo aquilo que via e sentia ou se era só devaneios improváveis...
Ele me trouxe calmaria diante a um mar incontrolável. Foi como se num determinado instante cujo nem me lembro mais, que passei pela porta da sala e ouvi o som do seu molho de suas chaves sendo colocada sobre a mesinha de centro do quarto, uma sensação me transportasse pra outro lugar. Era outro mundo, um mundo distante, onde tudo ocorria devagar. E nunca quis tanto ceder à quietude.
Ele vem até mim e eu esperava que ele me dissesse alguma coisa. Pra mim, meu olhar diria tudo o que acabei de descrever. Porém, lá no fundo, eu desejava que ele não dissesse mais nada.
Neste momento, as borboletas no meu estômago já estavam sem rumo de tanto voar.
- O Tom... Ele...
Não entendo o que ele quer dizer. Procuro pelo sonho que, talvez só por observar seus gestos, entendo ser fantasioso demais. O único relance que enxergo agora é de uma realidade a qual não fazia ideia me cercando.
Tom.
Ouvimos socos na porta. Era Tom trazendo a realidade. A sua, a nossa, a de Rich. Todas elas.
Batia tão forte que se continuasse, derrubaria a porta. Até que ele entra.
- O que estavam fazendo? - Ele indaga.
- Ora, Tom. Nada. - Junto meus pertencentes, caminhando até a porta do quarto.
- Veio pra nos interrogar? Ou pra dormir? - Brinca Rich.
Fomos todos juntos tomar café da manhã e, o que pensei que pudesse se transformar no apocalipse em forma de refeição, se mostra um lanche recheado de silêncios e palavras simplórias. Um clima péssimo, porém gentil.
[...]
Dias depois.
- Pode me dizer com suas palavras, o que aconteceu no hotel?
- Tom, jura?
- Olha, sei que não gosta de pressão ou cobranças. Acho que ninguém gosta, né? Mas, pensei que a regra trivial da nossa amizade de uma vida inteira era: nada de segredos.
- Nada aconteceu, Tom. - Me aproximo da cadeira que ele estava sentado. - Pra que quer me ouvir dizer?
- Você se mete em cada uma... Tem pensamentos imaginativos até demais. Isso pode acabar te magoando.
- Não vai. Estou sofrendo por acaso?
- Ainda não. Mas está parecendo uma garotinha iludida surfando em meio à ondas que nem existem.
- E você parece estar com ciúme. Morrendo de ciúme.
- Isso não vai resultar em algo bom.
- Isso vai resultar exatamente no que quero.
- Se você diz. - Ele dá de ombros.
- Não fale assim, você só costuma dizer isso pra quem não se importa. Parou de se importar comigo?
- Certo, certo. Chega de drama. - Ele sorri, se levantando e beijando minha testa.
- Vamos trabalhar amanhã? Onde? - Indago.
- Texas. Entretanto, vamos apenas eu e Louis. Seu príncipe encantado pegou estrada, não te contou?
- Vai ficar agindo assim?
- Se você diz...
Escuto sua gargalhada e lhe arremesso uma das almofadas que havia por perto:
- E eu vou junto!
[...]
- Conversou com a futura esposa?
- Pare com isso, Louis. - Responde Tom.
- O que estou dizendo de errado?! Fala sério, ela te conhece quase melhor que eu. E te ama mesmo assim! Entende nossa vida, nosso trabalho! Cara, case.
- E já disse em pensamentos, mas disse, estar apaixonada pelo meu pai.
- Viu? Te conhece melhor que qualquer um! Conhece até quem fez você! - Tom o encara e Louis disfarça seu sorriso debochado.
- n******e estar falando sério. Você ainda diz naturalmente!
- Mas, você não gosta dela, não é? São melhores amigos, e só. Então por que se importa? Também a adoro e não estou me importando com seus pensamentos.
- Ok, Louis. Vou comprar meu almoço e quando eu voltar, nós saímos para investigar.
- Olha, fique calmo, ok? Talvez isso tenha precisado acontecer pra você entender o que sente finalmente. Não acha?
- Pra você como anjo tudo tem um propósito de Deus, é? Pode esperar no carro. Eu já volto.
Louis suspira com a mudança de assunto do amigo, mas concorda, deixando-o sair.
E é lógico que ele não foi esperar no carro.
Ele me mandou esperar no carro.
E quando Tom chegou, fomos apenas os dois caçar, porque Louis tinha simplesmente desaparecido, mandando só uma mensagem como sinal de vida e batendo suas asinhas.
Ah, Louis...
[...]
Algumas boas milhas de estrada com silêncio e sentimentos desconfortantes depois, o impossível - que é bem possível vivendo vidas como as nossas - acontece:
- Tom... Onde estamos? - Indago. - Pra que eu fui vir nessa caçada, Deus!
- Está tudo bem. Provavelmente um feitiço... Cujo alguém tenha nos mandado pra longe. E você veio porque se caçamos uma vez separados, foi muito.
- Pra casa de um granfino no meio do nada? Céus, Tom, se algum louco canibal morar aqui? Alguns filmes do Jason me traumatizaram.
Tom me fita com sua expressão de dúvida estampada:
- Você assiste a filmes de terror como canções de ninar desde criança e sexta-feira 13 te traumatizou? Lembro-me como se fosse ontem quando a senhora da locadora perguntou qual era seu personagem favorito e você respondeu: "Freddy Krueger, ele é tão engraçado e tem uma história de vida pra lá de louca."
- Ok, mas a família do Jason era sinistra! Algumas cenas ficaram no meu subconsciente, exatamente porque eu assistia com uns sete anos de idade. Meu pior pesadelo é acordar numa maca com psicopatas sinistros tirando meus órgãos. Ou numa banheira lotada de gelo e ver minha vida se dissipar junto do meu lindo fígado e pulmões.
- Wow, wow. - Um homem loiro desce as escadas. - Posso não ser normal, mas órgão de ser humano ainda não é meu prato favorito. - Tom saca sua a**a, mirando-a ao homem prontamente. - Vocês invadem minha casa e ainda me apontam uma a**a? Macacos me mordam, galerinha.
- Poxa, mas com uma apresentação dessas, né... - Falo, tentando amenizar a situação com o loiro desconhecido. E um pouco assustador, diga-se de passagem.
- Desculpe, é convencional que eu encontre dois sujeitos falando de órgãos na sala da minha casa às 01h da madrugada.
- Certo, você venceu. - Olho para Tom, abaixando sua a**a. - É muito bom com as palavras, permita-me dizer. E está calmo demais pra quem encontra dois sujeitos falando de órgãos na sala da sua casa às 01h da madrugada.
- Machucaria vocês antes que pudessem me machucar.
- Isso deve trazer segurança, de fato.
Ele sorri. Tom me chama e vejo a geladeira aberta. A casa fora construída em conceito aberto, dando-nos uma bela visão da cozinha ainda que estivéssemos na sala.
Uma bela visão de sua cozinha e de sua geladeira.
De sua geladeira repleta de sangue.
- É um vampiro. Pelo menos não mata pessoas, pelo visto. - Diz Tom. - Aqui tem um estoque inteiro de algum hospital.
- Mandaram-nos pra cá propositadamente? Talvez na esperança de que ele nos matasse? - Indago.
- Acho bem provável.
- Não vou m***r ninguém. - Promete o vampiro. - Amanhã cedo vocês seguem viagem, podem ficar no quarto de hóspedes.
- Acho que vamos pegar estrada agora à noite mesmo. - Tom interfere.
- Vai ser um pouco difícil. Carros não passam pela estrada nesse horário.
- Estamos no meio do nada! Sem ofensas. - Sorrio sem jeito. - Mas estamos.
- Ofensa alguma. Concordo plenamente com você. - Ele abre um largo sorriso. - Fiquem à v*****e. Não posso oferecer nada por enquanto, mas amanhã logo cedo providencio um café da manhã se desejarem.
Depois de agradecermos, Tom nota um notebook na mesa da sala e pede permissão para usá-lo. O homem concorda, seguindo para o segundo andar.
- Tom, esse lugar me assusta. - Afirmo, assim que o loiro some do alcance de nossas vistas.
- Ele levantar bandeira branca nos ajudou e muito, demos sorte dele não nos atacar. Poderíamos nos virar e acabar com ele, mas não sabemos onde estamos e nem com quem estamos lidando.
- Não vai m***r ele depois, né? Como o Rich faria, ou meu pai.
- Não. Você sabe que não. - Ele sorri de maneira reconfortante e, sorrio de volta.
O loiro novamente surge com sua honrosa e nada medonha presença, mas agora com uma bandeja em mãos:
- Achei essas frutas. Pode ajudar se a fome apertar.
- Oh, muito obrigada. - Sorrio junto de Tom, que sinaliza em agradecimento. O homem sobe as escadas e podemos escutar uma porta bater, provavelmente ao ser fechada. - Não vai querer? - Pergunto a Tom, mordendo a bonita maçã verde que chamou minha atenção na fruteira. Espero não dar uma de "Branca de Neve especial Texas".
Ou "Branca de Neve especial Lugar Nenhum".
- Vai comendo, vou fazer algumas pesquisas. Algumas várias pesquisas. - Tom sorri, se sentando frente ao notebook.
Ando pela sala, admirando as diversas obras-primas que preenchiam o lugar. Acho um livro fora da estante e me encontrando num completo tédio e num curto estágio de paranóia, resolvo me distrair com as palavras já lidas pelo homem do segundo andar. Céus, isso viraria título de livro. Ah meu Deus, eu não quero morrer.
Viu? Curto estágio de paranóia.
Concentro-me no livro, sentando-me no sofá de couro preto à frente de onde Tom fazia suas pesquisas. Céus, eram poemas. Poemas de amor! Sinto um estranho alívio. Um psicopata viciado em pulmões não leria poemas tão lindos, né? Acho que não tem nada a ver, mas agarro esse alívio com unhas e dentes e me deixo flutuar pelos poemas.
Estava tão cansada. Minhas pálpebras pesavam. Lutava para me manter acordada, fitando Tom a cada vez que abria meus olhos. Percebo que ele apagou a luz, deixando só o abajur próximo a nos aceso. Sua lâmpada alaranjada me transmitia sossego e sinto meus olhos arderem de sono, eu própria me implorava para ceder ao cansaço. Olho para o relógio pendurado na parede: 02h10. Fiquei entre meus cochilos de poucos segundos e minhas olhadas em alguns versos por mais tempo que imaginei.
- Tom, vem deitar. - Peço-o.
Quando éramos pequenos, tinha medo do escuro. Sempre detestei a sensação, a impotência de não poder enxergar o que transitiva pelos espaços ausentes de claridade. Depois que minha mãe morreu, meu pai não me escondia às forças malignas que podiam me machucar. Era engraçado, porque nunca sentia medo. Não sentia medo de nada. Mas ficar sozinha e no escuro me causava até taquicardia, sempre me foi desesperador.
Tom tinha o costume de se deitar ao meu lado, eu dizia que havia tido um pesadelo, mas na verdade, nem havia conseguido dormir ainda. "Certo, pirralha, mas vamos dormir, viu?"
E nunca dormíamos, conversávamos até de madrugada e ríamos baixo para que meu pai não escutasse, já que trabalhava até tarde.
- Preciso continuar pesquisando. Tente descansar. - Diz ele.
- Não sei se consigo. Sinto-me meio tensa estando aqui.
- Vai ficar tudo bem. Se o homem fosse nos fazer m*l, já teria feito. E a casa é segura. Ele também parece querer manter-se protegido.
- Sim, você está certo.
- E eu não permitiria que nada de r**m te acontecesse.
Sorrio em resposta. Volto para minhas falhas tentativas de leitura, cochilando dentre curtos espaços de tempo. Abria o olho e sempre via a mesma cena, Tom inerte no notebook.
Até que o vejo me olhando. Em meio a gigante soneira, peço-o que venha deitar mais uma vez. Se eu estava morta daquela maneira, ele com certeza também estava.
Ele continua a me olhar, e sinto uma distinta sensação me acalentar. Era como se meu corpo me avisasse de uma iminente situação de perigo, onde eu me encontrava presa numa armadilha e que morreria daqui a poucas horas, enquanto meu coração me mandava calma e sensatez. Sempre brincávamos que um dia ainda conheceríamos outro planeta e de repente, estando vivendo essa aventura imprevisível, sinto que estamos fazendo isso agora mesmo. Era uma luta dentro de mim, mas a parte que me transportava essa paz e segurança, com certeza eu devia a Tom.
Ele se deita ao meu lado, e me aninho junto a ele como fazia há anos atrás. Só ali percebo como ele sempre foi um planeta inteiro dentro de mim. Adormeço após alguns poucos instantes.
[...]