Luz | parte II

2317 Palavras
Limpidez Numb.mp3 Com o intuito de escapar da prisão, Tom pede que eu fuja para longe dali antes de colocar nosso plano em prática. Sei que as coisas podem ficar feias, então acato seu pedido e vou à busca do melhor meio do nada que eu poderia localizar. Em poucos dias já estava instalada num hotel que diante de outros aposentos que estive hospedada, era de certa forma, aconchegante. As casas na cidade de interior que contornava um dos maiores lagos de Kansas eram em grande maioria, construídas em vidro, acho que por estarmos quase oitenta por cento cercados de água. E foi isso o que mais gostei! Todavia, se eu precisar fugir, que seja nadando. A visão além dos vidros do quarto me cativa. O hotel é simples, mas diante à cidadezinha, consigo entender e me apaixonar por essa simplicidade. Os lençóis brancos recém trocados junto dos travesseiros pomposos na cama convidam meu corpo à finalmente, poder relaxar de novo. Escuto batidas na porta. Levanto-me, girando a maçaneta e me deparando com Tom, já me segurando em seus braços. Ele me escora no vidro, e sinto seus lábios aveludados dançarem sob os meus. Desço de seu colo, caminhando até a cama e esticando-me sobre ela. Pela forma que deito, meus fios de cabelo ficam pendurados para fora da cama. Tom deita ao meu lado, debruçando-se por cima de mim. Pequenos beijos serenos seus vão sendo depositados em meu pescoço. Sorríamos um para o outro, estávamos finalmente flutuando sob uma nuvem de paz. E foi aí que os tiros começaram. Numa fração de segundos, vejo estilhaços de vidro e móveis destruídos pelas balas voarem pelo quarto. Tom me joga para trás da cama, levantando-a e a fazendo de escudo. Ele saca sua a**a, atirando nos homens que conseguia. Tudo acontece muito rápido, sentia que descarregavam metralhadoras em cima de nós e só tento me manter estática pra ajudar Tom nos tiros que disparava. Até que vejo uma mancha de sangue aparecendo por cima de sua camisa azul-clara. No entanto, minha voz é muito mais baixa que os estrondos dos tiros. Sons que não cessavam, fazendo-me sentir cada vez mais agonia. [...] Rápido como uma flecha ao céu, o silêncio preenche o ambiente complemente destruído. Tom solta sua a**a, soltando também, seu próprio peso ao chão. Estávamos exaustos, nossas mentes só não tinham dado pane porque ainda precisávamos nos manter atentos. Olho para a mancha de sangue cuja se tornava mais ampla pela camisa de Tom: — Precisamos ir para o hospital. Agora. — Calma, estou bem... Atingiu o ombro. — Ele fita os arredores, demonstrando-se incrédulo com o que havia acabado de acontecer. Levanto-me com certa dificuldade, mas estava bem, eram minhas pernas que não tinham mais coordenação. Vou até a recepção do hotel e, vejo que a mesma estava deserta. — Vamos para um lugar seguro, tudo bem? Precisamos tirar essa bala de você. E bem... - Ando sobre os cacos de vidro, observando as flores que decoravam o quarto em pedaços no chão. — Sabe que faria isso por você, mas estou tremendo à beça no momento. — O que foi isso? O que d***o aconteceu aqui? - Tom perguntava a si próprio, como se tentasse entender a situação quase morte que nos metemos. — Foi o cartel. - Ele me fita confuso, como se não esperasse alguma resposta. Muito menos uma resposta como essa. — Cartel? Que cartel? — O cartel de drogas mexicano. — m***a. - Tom percorre seu olhar pelos arredores, antes de fitar-me novamente. — No que você se meteu? - Ando até ele, na tentativa de ajudá-lo a se levantar para sairmos logo dali. — Quer mesmo saber? — Seu medo de parar na cadeia não foi só porque foi testemunha de um quase crime e mentiu diante da polícia. É porque você n******e, de maneira alguma, confrontar a polícia. — Exato. Ambrose ficaria atordoado. — Ok... Quem é Ambrose? - Tom se levanta, seguindo meus passos para fora do cômodo recém destruído que antes era um quarto tão acalentador. p***e quarto. — O chefe do cartel. — Ok... O chefe do cartel. Que no caso, tem sido seu chefe? - Concordo, movendo a cabeça em sinal positivo. — Ok. E você fala assim, serenamente? Como pode estar tão calma? Ei! - Tom para, ficando estático ainda longe do carro, fazendo-me olhá-lo. — Vamos, Tom! Vou te contar tudo, mas primeiro precisamos cuidar de você. Não estou trabalhando pra ele por livre e espontânea v*****e, prometo explicar tudo. Mas agora, só continue a andar, combinado? — Tem certeza de que foi esse cartel? — Acho que tenha sido o cartel rival. - Fita-me Tom em choque, quase boquiaberto. — Agora vamos pro carro, tudo bem? Ele concorda, mesmo que seus sentidos estivessem caminhando de mãos dadas até um precipício. Sua sanidade pedia licença, levantando-se da mesa na reunião de negócios que seu cérebro comandava agora. Quando ele achava que sua vida já era louca demais, nada como quartéis em guerra para apimentar um pouco as coisas, não é? [...] — Tom, este é Bruce. — Bruce se aproxima de Tom, dando-o um aperto de mão. Logo em seguida, dois adolescentes aparecem no corredor. — Bruce e sua família. - Completo. Tom cumprimenta a todos, inclusive a esposa de Bruce. — Já está melhor? Mais calma? - Bruce me pergunta, servindo-me um copo d'água. Aceno em concordância, aguardando-o terminar de falar. — Ótimo, porque vai precisar tirar essa bala. Solto um riso abafado, olhando para as expressões de desespero que me cercavam: — Certo. Não se preocupem, consigo resolver. — Que bom! Queríamos evitar chamar alguém do cartel. — Com certeza. - Diz Tom, forçando um sorriso. — Ok, então vamos nessa. - Fito Tom, também forçando um sorriso pra esconder meu nervosismo. Ora, não é todo dia que preciso operar Tom. — Alguém pode me trazer uma vodka, por favor? Um pano e um kit de primeiros socorros, também. E dois copos. - A filha de Bruce me entrega tudo e, sorrio em agradecimento. Coloco a vodka no copo e antes de entregar pra Tom, dou algumas boas goladas. Enquanto Tom bebia, jogo boa parte da vodka no local da bala. Ele grunhe de dor e, respiro cada vez mais fundo, acariciando seu braço. — Certo, vamos lá. - Digo antes de começar a retirar a bala, tentando confortá-lo. Ele aguenta firme até que eu consiga alcançá-la com a pinça e finalmente, depositá-la dentro do copo vazio. — Pronto, acabou. Muito bem, se comportou direitinho. - Brinco, tentando distraí-lo enquanto mais vodka era lançada em sua ferida, antes que eu pudesse suturá-la. — Acabou! Agora só vamos acompanhar pra ver se está tudo em ordem, ok? - Tom me solta um sorriso, como se confiasse fielmente em minhas palavras. — Claro, vou adorar me consultar com você. - Diz baixinho. — Bruce, será que pode nos deixar a sós por um minuto? - Pede cordialmente e, posso jurar que sua expressão muda por completo. Ele agora emanava seriedade e introspecção. — O que foi? Quer saber quem é essa família, né? — Sim?! Entendo que ficamos longe um do outro por quase dois anos, mas, wow! Você se superou, querida. — Não tenho muito que te contar meu amor. - Digo, lavando a pinça que havia usado no procedimento de retirada da bala. — Pode começar a me explicar por que se envolveu com uma família que trabalha pro cartel. Acho que é um bom começo, e você? Sorrio com sua tentativa de ironia, ele me soava uma graça até mesmo irritado: — Bruce entrou nessa sem querer. - Afirmo. — E você? Também entrou? Escorreu sem querer no mesmo buraco que ele já havia caído? — Bruce é o bonzinho da história, Tom. Ele é mesmo! Por isso o ajudo, por isso trabalho com ele. Criamos laços resistentes, você sabe que viver na margem da morte com águas violentas ao redor fortalece laços de maneira única e inquebrável. Eu me importo e me preocupo com ele e com os filhos. Ademais, faria o mesmo por você e Louis. Tirei você da cadeia, não tirei? — O cartel me tirou, não foi? Esse era seu contato que te colocava lá dentro com facilidade e até abria celas? E eu era inocente! Parei lá apenas porque policiais não acreditam em espíritos. E olha que Louis já tentou contar. — Nunca deu certo, né? - Completo, soltando um riso zombeteiro. — E esse é o ponto, Bruce também é inocente! Quem você acha que vai cair primeiro? Bruce? Ou o monstro? Ambrose jamais cairá. — E por isso você precisa cair junto do Bruce? — Não. Eu vou impedir que ele caia. Tentar, ao menos. - Tom respira fundo, soltando o ar de seus pulmões com rigidez. — Bruce é brilhante, aprendi um mundo de coisas com ele só me permitindo observá-lo e ouvi-lo diariamente. Se a queda se tornar inevitável... Vou lutar pra que a ascensão retorne, Tom. — Ao invés de me preocupar com Lúcifer como imaginei que me preocuparia, vou precisar me preocupar com Bruce, um gênio do bem que infelizmente usa seus dotes infalíveis e amplo conhecimento sobre áreas do dinheiro, contabilidade, estatística e política, pra indiretamente tocar o tráfico e seguir com a morte de milhares de pessoas? — Que faz isso, pois ele e sua família vivem sob ameaças e olhos atentos. — Certo, estamos em uma luta contra demônios, e agora vamos lutar contra um cartel também? Só vamos embora daqui, ok? É o mais sábio a se fazer agora. — Mas... — Quando a guerra entre os cartéis cessar, ajudaremos Bruce. Eu prometo. [...] Entendo que Tom estava - muito, pra caramba, absurdamente - preocupado comigo. Sinto em não tê-lo ouvido e partido no exato momento em que ele havia sugerido. Deitada no cômodo de poucos metros quadrados, com luzes de estádio ligadas sobre mim, fecho meus olhos. Entretanto, a claridade ainda me persegue, fazendo-me enxergá-la mesmo quando a escuridão deveria preencher tudo. Céus, como a vida é irônica. Levanto-me, andando de um lado para o outro. Bastava-me esperar que alguém me contasse o que eu fazia ali. Mas, quem eu esperava, afinal? Sou alvo de tantos... Tento pensar quem seria pior e, me assusto ao chegar à conclusão de que Ambrose seria pior do que o próprio Lúcifer. Assusto-me ainda mais quando o vejo parado frente à porta. — O que estou fazendo aqui? O que quer de mim? - Disparo. — Você tem o poder de salvar uma vida hoje. Vai querer jogar? — Maratonou jogos mortais noite passada com sua esposa? - Sinto um baque em meu rosto. Ótimo, já comecei a apanhar. Dois de seus homens me levam até a sala de sua casa, vulgo palácio da rainha Elizabeth: — O que ela faz aqui? - Pergunta Bruce assim que me vê. Logo de cara, já percebo de qual vida Ambrose se referia. — Você o ama? Porque pedi a Bruce que me dissesse alguém que ele amasse. Pedi que deixasse de fora a esposa que tem um caso com o advogado, e deixasse também os filhos, já que seria uma resposta óbvia demais. Pense bem antes de responder. Certo, encontrei alguém definitivamente mais s****o que Lúcifer. — Sim, claro que o amo. — Mas, e Tom? O caçador? Seu namorado da vida toda? Ambrose desfere outro soco em meu rosto, fazendo-me sentir que meu maxilar havia dado um nó. Cuspo o sangue, levantando meu queixo para olhá-lo. Encaro-o por alguns segundos, tendo ciência de que minha resposta foi ridícula e que precisaria falar algo melhor pra sairmos ambos vivos dali. — Quando eu era mais nova, pré-adolescente, sonhava com mais de um garoto. Um dia, uma colega de escola me disse que "se eu estava gostando de dois, de três, no fim, eu não gostava de ninguém". Isso me perseguiu por muito tempo. Por anos, se meu coração balançasse por mais de um ser humano, me sentia falsa. Não só falsa como fria também. Sentia que jamais amaria alguém de verdade. Que eu não conseguia o fazer. O que nem essa colega de classe nem ninguém me falaram e eu precisei aprender sozinha, é que não existe um só tipo de amor. E nem falo de "amor romântico" ou alguma outra baboseira cuja podemos nomear. Somos seres humanos, a criação mais perfeita de Deus, pulsamos natureza, um universo circula dentro de nós. Tudo se vai, tudo se acaba, tudo muda, porque assim é o mundo. Sabe o que eu considero infinito? O amor. Sinto amor por muitas pessoas, amores diferentes, em relações diferentes, com pessoas diferentes. E ninguém, nunca, será capaz de silenciar a capacidade que tenho de sentir. Nem mesmo você, Ambrose. Se me chamou aqui pra honrar a vida de Bruce, estou honrando. Sinto outro soco quase acabar de arrebentar meu maxilar. Cuspo mais sangue, passando a língua pelos meus dentes. Ok, ao menos estão todos aqui. — O que você deseja? - Me indaga Ambrose. — d****o um mundo aonde mulheres não precisam mais levar pancadas de homens como você. Certo, outro soco. Já são quatro. — Vou perguntar de novo; o que você deseja? — Meu namorado, Tom, aquele que você aparenta já conhecer muito bem, costuma trabalhar matando monstros. Quero muito o ver m***r você. Já estava no aguarde do quinto soco. Mas, espera... Acabou? — Ela tem personalidade. - Ironiza Ambrose, fazendo seus homens rirem junto dele. — Entendeu o que eu queria, Bruce? Sinceridade. Nada mais que isso. Ele nos solta. Voltando para casa, ou para onde o destino me levasse – contanto que Tom estivesse - não consigo entender se Lúcifer havia entrado em seu corpo ou se só existiam vários Lúcifer's por aí. Mas a melhor notícia é que, existindo ou não, eu já sabia lidar com todos eles.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR