Bernardo anuncia que o almoço está pronto, interrompendo o momento tenso. Ellen e Giulia entram na casa, e os olhares entre elas são carregados de significados que escapam à minha compreensão.
Giulia lança um rápido olhar na minha direção, desviando o olhar para os próprios pés. Sua voz é baixa e tímida quando ela se dirige a mim.
— Desculpe pelo meu comportamento antes. – Ela murmura, seus dedos brincando nervosamente com a barra da blusa. – Eu... eu gostei do presente que você trouxe. Vou abrir depois do almoço.
Fico surpreso com a mudança repentina em sua atitude. Olho para Ellen, que sorri orgulhosa enquanto observa Giulia. Parece que ela estava esperando por essa reação.
— Está tudo bem, Giulia. Eu também estou feliz que tenha gostado do presente. – Respondo, tentando transmitir tranquilidade. Sinto-me como se estivesse pisando em ovos, tentando entender o que está acontecendo entre essas duas mulheres.
Giulia sorri timidamente, parecendo aliviada por ter feito as pazes comigo.
— Eu vou lavar minhas mãos para depois pôr a mesa. – Seu olhar é tímido, suas bochechas coram. – Você quer me ajudar com isso?
A oferta dela me pega de surpresa, mas eu concordo com um balançar de cabeça, vendo nisso uma oportunidade de nos aproximarmos mais.
— É claro, ficarei feliz em ajudar. – Meu tom é surpreso.
Giulia sorri tímida, saindo da cozinha logo em seguida.
— Ellen, a encantadora de feras e crianças. – Bernardo diz humorado ao passar por nós.
— Não é tão difícil se comunicar com uma criança, só dar tempo e saber respeitar seus limites. – Ellen sorri timidamente. – Giulia é uma criança muito inteligente, as vezes age como uma adulta.
Nossos olhares se encontram e vejo um ar desafiador em seus olhos negros.
— Ela tem a sua personalidade Donatello. Você não conseguirá conquistar essa criança como pensa. – Sua voz é desafiadora, assim como seu olhar. – Talvez assim você veja como sua personalidade e humor são difíceis de aguentar!
Antes que possa a responder a altura, Giulia retorna a cozinha. Seus olhos nos observam curiosos.
— Pode pegar os pratos na prateleira de cima? Eu ainda não os alcanço. – Seus olhos me encaravam com expectativa.
— Vamos, irei ajudá-la a pôr a mesa. – Digo após lhe entregar alguns pratos.
Giulia me olha com um misto de surpresa e gratidão, e isso me faz sentir um calor reconfortante no peito. Acompanho-a até a prateleira e pego os pratos, passando-os para suas mãos pequenas com cuidado.
— Obrigada, Donatello. – Ela diz, seu sorriso tímido iluminando o ambiente.
— De nada, Giulia. Estou aqui para ajudar. – Respondo com um sorriso gentil.
Sua expressão muda para nervosismo, a observo colocar os talheres na mesa em silêncio.
— Aconteceu alguma coisa? – Perguntei receoso, seus olhos claros voltam a atenção ao meu rosto.
— É que bem... Eu sempre sonhei com o dia que conheceria o meu pai. A vida inteira esperei por esse momento, pelo dia que finalmente conheceria o homem que me pôs no mundo. – Sua fala é tímida, seguida de uma risada amarga. – Com os anos passei a aceitar que isso nunca aconteceria e que seria apenas minha avó e eu pra sempre.
Seu olhar volta a se concentrar na mesa, meu coração se aperta com sua fala. Ela era tão adulta para sua idade, isso me preocupava. Crianças que se comportam como adultos geralmente tem traumas dolorosos que os forçaram a serem adultos muito cedo.
— Eu... Eu sabia que você existia. Sua mãe e eu tivemos um relacionamento no passado e não acabou muito bem. – Suspiro, observando seus olhos claros voltarem a atenção a mim. – Eu só soube que tinha uma filha a pouco tempo e desde então nunca parei de procurar por você.
O silêncio predomina o ambiente durante alguns segundos, até Giulia quebra-lo com um suspiro.
— Minha mãe vivia entrando em brigas com minha avó, até chegou a agredi-la na minha frente e me sequestrar durante a noite, como uma punição a minha vó. – Giulia suspira dando de ombros. – Minha avó me contou que ela nem é minha mãe de verdade... Então consequentemente minha avó nem é minha avó.
O silêncio paira sobre nós, pesado e carregado de emoções. O relato de Giulia me deixa atordoado, como se tivessem me arrancado o chão sob os pés. Sinto um misto de raiva, tristeza e compaixão por ela, que teve que lidar com tanto sofrimento em tão tenra idade.
— Sinto muito que tenha passado por isso, Giulia. Nenhuma criança deveria ser submetida a tal crueldade. – Minha voz sai rouca, repleta de emoção.
Giulia apenas encolhe os ombros, como se estivesse acostumada com a dor e a desilusão.
— É a vida, não é mesmo? – Ela murmura, tentando parecer indiferente, mas vejo a dor escondida em seus olhos azuis.
Um nó se forma em minha garganta, incapaz de encontrar palavras para consolá-la. Tudo o que posso fazer é estender minha mão em um gesto de apoio, que ela aceita com um olhar tímido.
— Você não está sozinha, Giulia. Você pode estar me conhecendo agora, mas sou seu pai e sempre vou estar aqui para você, nunca irei deixá-la. – Minha voz é suave, mas carrega uma promessa de proteção.
Acaricio suas bochechas com cuidado, beijando sua testa em seguida. Seu corpo estava rígido, mostrando seu desconforto com meu contato físico repentino.
— Desculpa... – Sussurrei envergonhado, seus olhos parecem marejados.
— Tudo bem. – Ela dá de ombros disfarçando seu desconforto. – Bem, agora sei que tenho um pai e que Maria não é minha mãe... Ao menos não sou filha de uma pessoa que maltrata as pessoas.
Não consigo disfarçar meu espanto por sua fala. Giulia era uma criança, ela não deveria estar tendo acesso a essas informações, não deveria saber como as pessoas são cruéis e perversas. Mas... Seria impossível uma criança crescer alheia a tudo que ela presenciava ao redor, ainda mais sendo criada com a Maria por perto. Sei que Victoria fez tudo que estava ao seu alcance para manter Giulia segura para viver sua infância, mas as influências de Maria roubaram sua inocência infantil, esperava que isso não tivesse ocorrido por completo.
— Você parece ter gostado bastante da Ellen. Eu vi como vocês brincavam no jardim. – Digo dando fim ao clima tenso.
— Ellen é legal, diferente de muitos adultos. – Giulia fala enquanto ajeita os talheres. – Por isso deixei ela brincar com minhas bonecas que a vovó me deu no aniversário.
Sorri sentindo o clima entre nós se apaziguar. Ellen era ótima em despertar o melhor nas pessoas, era como um dom.
— Ela é uma das melhores pessoas que conheço. – Minha fala sai animada, algo que atraí sua atenção.
Seus olhos azuis me observavam curiosos, como se tentasse descobrir meus pensamentos.
— Você parece estar apaixonado por ela. – Sua risada infantil aquece meu coração. – Ellen falou muitas coisas sobre você.
Seu comentário me provoca um mix de emoções, a olhei tentando disfarçar minha curiosidade.
— Coisas? Que tipo de coisas? – Tentei manter meu tom desinteressado.
Uma expressão divertida surge em seu rosto e suas bochechas ficam vermelhas ao surgir um sorriso em seus lábios rosados.
— Ela sabia que você me perguntaria e eu prometi guardar segredo! – Seu sorriso sapeca aumenta ao ver minha expressão frustada.
— Okay... – Suspiro voltando minha atenção a mesa.
— Sabe, tio Bernardo diz que segredos são valiosos como ouro. – Ela fala com a voz vaga.
— Sim, eles são. – Respondo alheio, ajeitando a mesa.
— Ouro é algo valioso, mas pode ser vendido. – A encaro perplexo. Meu melhor amigo ensinou minha filha a chantagear pessoas? Espera, ela estava me chantageando?
Seus olhos me observavam astutos, como se estivesse em uma brincadeira infantil.
— Estou ouvindo vozes animadas! – Ellen diz entrando na sala de jantar, em suas mãos havia uma travessa com um grande Peru. – Não me pergunte onde ele achou um peru essa época do ano, só me deixe realizar meu desejo de grávida!
Ellen coloca o peru no centro da mesa bloqueando a minha troca de olhares com Giulia, que sorria astuta.
Bernardo entra na sala de jantar, segurando algumas travessas. Ao vê-lo, Giulia sorri animada.