— Ela... Ela é... – Minha voz emocionada se perde no ar, enquanto soluços ecoam pelo carro. Ellen gentilmente massageia minhas costas.
— Pode chorar, Donatello. – Sua voz doce soa tranquilizadora. – Você passou por muita coisa até encontrar sua filha, é natural que se emocione.
Ellen sorri, seus olhos negros marejados de emoção. Dou-lhe um breve beijo nos lábios antes de voltar a olhar pela janela, onde vejo Giulia brincando com Bernardo.
— Ele realmente me enganou. Ficou me dando apoio para buscá-la, sabendo que ela estava aqui o tempo todo. – Rio, secando as lágrimas. – Bernardo é um bom mentiroso quando quer.
— Vamos entrar na casa? A Giulia deve estar ansiosa para conhecê-lo. – Ellen fala em um tom doce, suas bochechas corando. – É uma sensação estranha ser madrasta de alguém.
Saio do carro e Ellen abre a porta antes que eu o faça. A encaro com os olhos semicerrados e ela ri envergonhada. Seguro sua mão e caminhamos em direção ao quintal da casa. Giulia me olha com curiosidade, seus olhos azuis claros brilhando sob a luz do sol.
— Este é o Donatello. – Bernardo anuncia em italiano ao perceber nossa aproximação.
— Olá, Giulia. – Digo em italiano, e a pequena me encara com desconfiança. – Estava ansioso para te conhecer.
Seus olhos me analisam da cabeça aos pés, parando em meu rosto. Era impressionante nossa semelhança; desde a cor do cabelo, olhos, cor da pele, até o formato dos olhos, sobrancelhas, nariz e lábios. Era como ver uma pequena cópia minha, mas em uma versão feminina.
— Eu trouxe um presente para você. – Digo, entregando-lhe uma caixa dourada com um grande laço vermelho.
— Então, você é meu pai? Presentes não vão comprar meu afeto. – Sua voz é cheia de desconfiança e um pouco de desprezo.
Sua reação me deixa desconcertado, o sorriso em meu rosto some, dando lugar a uma expressão de espanto. Olho para Bernardo, que estava tão surpreso quanto eu.
— Essa mulher é sua esposa? Não vejo aliança na sua mão. – Giulia encara Ellen, que sorri gentilmente. – Ela é bonita.
— Me chamo Ellen Rodrigues. – Ellen me surpreende ao falar em italiano. – Você também é muito bonita, foi você que fez esse penteado?
Giulia sorri, saindo da defensiva, seus olhos brilhando enquanto observa Ellen.
— O tio Bernardo me ensinou a fazer alguns penteados, e agora eu faço sozinha. – Sua voz infantil é cheia de orgulho. – Eu até fiz nas minhas bonecas, você quer ver?
Giulia estende sua mão para Ellen, que a segura, as duas caminham em direção ao jardim dos fundos da casa.
— Ela é durona, igual ao pai. — Bernardo comenta, observando Giulia e Ellen conversando no jardim.
— Eu sei, mas pensei que... não sei... Ela pudesse ficar mais receptiva. — Suspiro, sentindo uma mistura de desapontamento e compreensão. — Ela passou por tanto, é compreensível que esteja desconfiada.
Bernardo coloca a mão em meu ombro, oferecendo um sorriso solidário.
— Dê um tempo a ela, Donatello. Ela está apenas começando a conhecer você.
Assinto, sentindo um peso sair de meus ombros.
— Você tem razão. Talvez eu tenha colocado expectativas demais sobre esse encontro.
Giulia se vira na direção de onde estávamos, seus olhos azuis fixos em mim. Há algo de desafiador em seu olhar, mas também vejo uma ponta de curiosidade. Será que ela está disposta a dar uma chance?
— Vou seguir seu conselho, Bernardo. — Respiro fundo, decidindo ser paciente. — Vamos ver como as coisas se desenvolvem.
— É isso aí, Donatello. Tenho certeza de que, com o tempo, Giulia vai se abrir mais para você. — Bernardo sorri, transmitindo confiança.
— Espero que sim. — Respondo, tentando conter minha ansiedade. — Ainda é difícil acreditar que ela está aqui, tão perto de mim. Depois de tanto tempo...
— É um momento importante para ambos. — Bernardo concorda, olhando para Giulia e Ellen novamente. — Ela precisa de tempo para se acostumar com tudo isso. E você também.
Assinto, refletindo sobre as palavras de Bernardo. Realmente, essa é uma situação única e complexa para todos nós.
— Agradeço pela sua paciência, Bernardo. Você tem sido um grande apoio nesse processo todo. — Expresso minha gratidão sinceramente.
— Somos uma família, Donatello. Estamos aqui uns para os outros, sempre. — Bernardo responde com um sorriso caloroso.
— Eu fui um tremendo i****a com você nessas últimas semanas. Você tem sido um amigo incrível. – Sorri envergonhado, seus olhos me encaram desafiadores.
— Você sempre acaba agindo feito um babaca, metendo os pés pelas mãos. – Bernardo toca meu ombro e eu o encaro. – Sabe que com a Giulia você não poderá ser assim, não é mesmo? Não existe espaço para erros e explosões. Ela é uma garotinha muito especial, já passou por muitas coisas e você não pode fazer ela passar por mais traumas.
Suspiro, observando as duas brincarem animadas.
— Eu sei... Você está certo. – Digo voltando a encarar seu rosto. – Mas só irei descansar quando essa merda toda for resolvida, quando nós não estivermos em perigo.
Bernardo olha ao redor e dá um tapinha no meu ombro.
— Que tal a gente entrar e tomar uma cerveja enquanto eu preparo o almoço? – Bernado sorri amigável. – Assim podemos acalmar nossos ânimos.
— Uma cerveja gelada é tudo que preciso agora. – Digo o acompanhando em direção aos degraus da varanda da casa.
— Minha mãe não está em casa agora, ela está fazendo algumas compras com as amigas. – Bernardo diz assim que entramos na cozinha. – Ela deve chegar para o almoço.
Pela janela da cozinha, observava Giulia e Ellen brincando juntas, tão em sintonia que pareciam se conhecer há anos. A habilidade de Ellen com crianças era impressionante, e esse pensamento aquecia meu coração, pois sabia que ela seria uma mãe incrível, completamente diferente da minha própria mãe.
— Ela é ótima com crianças. – Digo as vendo brincar.
— Giulia parece ter gostado muito da Ellen. – Bernardo diz observando Giulia pela janela. – Pelo menos as coisas serão menos difíceis que pensei.
Dou um gole na minha cerveja e volto minha atenção a Bernardo que fatiava alguns legumes.
— Acho que você e a Ellen deveriam se casar. – Sua fala faz com que eu me engasgue com a cerveja.
Minha crise de tosse atrai o olhar preocupado de Giulia que me encara a alguns metros da janela. Aceno para a pequena que parece de tranquilizar.
— Casar? De onde você tirou isso? – Minha fala é nervosa.
— Eu sei que você já pensou nisso muitas vezes. Você fala da Ellen como de ela fosse uma Deusa sensual. – Sua risada fraca causa um rubor em meu rosto. – Acho que assim será mais fácil pra todos, até mesmo pra Giulia.
— Como... Como assim? – Gaguejei, nervoso.
Bernardo suspira, virando em minha direção. Seus olhos parecem nervosos.
— Você sabe que legalmente Giulia não é filha de Mariana e nem sua. Maria registou essa criança para evitar que descobrissem a sua existência. – Bernardo limpa suas mãos no pano de prato. – Ela legalmente não é sua filha e isso dificulta nossa vida em muitos pontos, sabe bem do que estou falando.
Bernardo suspira, ficando em silêncio por alguns segundos.
— Vocês precisam se livrar o mais rápido possível dessa pendência e sair o quanto antes do país pois quando a Maria descobrir que a Giulia está com você, ela vai fazer de tudo para acabar com nossa vida. – O seu olhar fica preocupado, distante. – Temo que ela acabe matando Giulia e a Ellen.
Sua fala causa um arrepio em meu corpo, como um presságio.
— E como casar com a Ellen mudará isso? – Pergunto tentando afastar meus pensamentos.
— Simples. Vamos forjar os papéis dizendo que a Giulia é filha da Ellen e que Maria a registrou indevidamente. Com o casamento de vocês, fica tudo mais fácil de ser manipulado. – Seus olhos brilham orgulhosos de sua ideia. – Estou me saindo um ótimo mafioso!
Minha boca se abre surpresa. Como não havia pensado nisso antes? Minha atenção volta a Ellen que sorria animada.
— Casar.... – Sussurrei, aéreo. – Talvez... Talvez não seja uma ideia tão absurda.
Enquanto observamos Giulia e Ellen conversando animadamente, sinto uma pontinha de esperança crescer dentro de mim. Talvez, com o tempo e o apoio de todos ao seu redor, Giulia possa finalmente encontrar um lar e uma família verdadeira.