Maria me observava em silêncio, o homem ao seu lado estava impaciente. Por cima de seu ombro, consigo ver o interior do escritório de Hector. Homens com máscaras de esqui vasculhavam as gavetas de Hector e seus pertences, ao fundo consigo ver meu velho amigo desacordado amarrado em uma cadeira.
— Só de estarmos falando com esse cara, já estamos fodidos! – Ele diz nervoso. – Maria, eu não sabia que era nisso que iria me meter, você não me avisou disso!
— Pare de falar essas coisas na frente dele! – Maria grita furiosa. – Quer mesmo que ele perceba como você é patético e morre de medo de qualquer coisinha? Você é um fraco!
Não consigo conter minha risada, os olhos de Maria olhos me encaram confusos, as mãos do homem tremem apontando a arma para o meu rosto.
— Qual é a piada, i****a? – Sua voz furiosa ecoa o corredor.
— Você é a piada. Uma vagabunda tão burra que maltrata os próprios aliados. – A frieza em minha voz faz uma expressão de fúria surgir em seu rosto.
Maria se aproxima com rapidez, dando um tapa em meu rosto.
— Leve esse desgraçado e amarre junto com os outros. – Seus olhos brilham devido ao ódio. – Vamos ver se essa marra e valentia resistirão a uma sessão de tortura.
O homem me empurra para dentro do escritório com brutalidade, sua arma encosta na minha nuca. Tento transparecer calma e indiferença em meu exterior, mas internamente desejava mata-los com minhas próprias mãos.
Me aproximo de Hector, que estava desacordado amarrado a uma cadeira. Seu rosto estava cheio de hematomas e seus lábios manchados por sangue seco. Ele deveria ter resistido e entrado em uma luta com os capangas de Maria. Ao lado de Hector, estava
Hiroshi Nakamura, filho do seu melhor amigo e contador, Takashi Nakamura. Hiroshi estava com os olhos inchados, diferente dos outros homens, ele parecia ter sido torturado. Sangue escorria de sua boca, seu peito se movia lentamente em uma respiração fraca.
— Tio Dona... Donatello? – Ele geme baixo, seu sotaque japonês era forte.
— Meu Deus! – Tento correr em sua direção, mas o homem chuta minha perna me fazendo cair de joelhos.
— Parado! Não tente nenhuma gracinha! – Ele diz, agora pressionando sua MP5 na minha cabeça.
— Você não tá vendo que estou tentando ajudar ele? Hiroshi é uma criança, pelo amor de Deus! – Minha voz soa como um rosnado. – Ele está sangrando e vai acabar morrendo!
Hiroshi era uma criança, ele tinha apenas 11 anos, ele e seu pai não estavam envolvidos em esquemas criminosos, eram apenas pessoas trabalhadoras. Hiroshi acompanhava seu pai nos dias que não tinha aula, ele amava observar seu pai fazendo cálculos complexos de matemática. A crueldade de Maria e seus homens me enjoava, como foram capazes de torturar uma criança? Esse pensamento me causa calafrios e ansiedade. Se ela foi capaz de fazer isso com Hiroshi, me perguntava que tipo de atrocidades ela poderia fazer com a Giulia caso tivesse a chance.
— Apenas sente na cadeira antes que você se junte ao pai desse japonês. – O homem diz sarcástico.
Meus olhos se concentram no fundo da sala, não havia reparado antes, mas lá estava Takashi Nakamura, amarrado a uma cadeira.
— Takashi... – Meu sussurro é incrédulo.
Em volta de sua cadeira havia uma grande poça de sangue devido ao seu punho que havia sido amputado. A baixa luminosidade onde ele estava me impedia de ver detalhes de seu corpo, mas apostaria com convicção que ele também havia sido espancado assim como seu filho.
Me sento na cadeira, ainda em choque. A corda em meus pulsos contra a cadeira me amarra com força, cortando minha pele.
— Quando Maria acabar com você, irei fode-lo até você implorar pela morte e quando isso acontecer, irei fazer você me assistir fazer o mesmo com o moleque. – O homem sussurra no meu ouvido.
Em um movimento rápido, bato minha cabeça contra a sua, seu sangue esguicha caindo em minha camisa. Jogo meu corpo com força para trás fazendo-a cair no chão e quebrar. Com as mãos livres, soco seu rosto com força, o homem cai no chão, seu nariz esguichava sangue.
— Desgraçado! – Ele grita chamando a atenção dos outros homens.
— p**a merda... – Sussurrei ofegante.
Maria corre para dentro da sala, ao olhar ao redor e perceber a cena, seus olhos brilham de fúria. Corro em direção a MP5 de seu capanga que estava caída afastada de seu corpo, Maria tenta alcança-la primeiro, mas antes que consiga, pego a arma disparando contra seus capangas que correm em minha direção.
Maria tenta tomar a arma da minha mão, suas unhas me arranhavam fazendo meus braços sangrarem. Acerto seu rosto com uma cotovelada. Maria perde o equilíbrio caindo no chão, próximo a porta.
— Parado, desgraçado. – Uma voz masculina próxima ao meu ouvido sussurra furiosa. – Solte essa arma agora ou irei dar fim a sua existência medíocre.
Sinto uma lâmina próxima do meu pescoço, uma corrente elétrica atravessa meu corpo, entrego a arma a outro capanga.
— Maria vamos embora agora! – O homem diz com autoridade.
— Mas... Mas... – O medo em sua voz me faz questionar a identidade desse homem desconhecido que me rendia.
— Alguém chamou a polícia, estava próximo ao prédio quando os vi chegando! – A voz dele é furiosa. – Não pode ser esse mafioso, ele não seria tão inteligente.
— Mas... Como vamos fugir? Nós nem conseguimos os dados! – A voz de Maria era chorosa, seu tom cauteloso.
— f**a-se esses dados! Vamos sair pela porta lateral, ela leva ao beco que eu entrei. – O homem grita impaciente. – Seu dia de sorte, Donatello. Aproveite mais um dia de vida.
O seu sussurro próximo ao meu ouvido provoca arrepios intensos. Uma pancada brutal atinge minha nuca, minha visão se turva e minhas pernas cedem, fazendo-me desabar no chão. Antes de perder a consciência, encaro o pequeno Hiroshi, cuja expressão preocupada é a última imagem que consigo capturar.