4. Morena

1028 Palavras
A "boca" fica num ponto mais escondido, mas não é um bunker de filme. É mais feio, mais humano, mais real. Tem gente entrando e saindo, tem rádio, tem olhar, tem rotina. Rotina é o que faz o caos parecer normal. Quando eu cheguei, o movimento já tava quente. Não vou falar de detalhe, porque eu não sou tutorial de nada. Mas eu vou dizer uma coisa: tem lugar que funciona no grito. Aqui funciona no olho. E eu tenho um olho que corta. Lili foi direto falar com um dos meninos do corre, eu fui checar o ambiente, não com paranoia, com atenção. Atenção é diferente. Paranoia é medo. Atenção é sobrevivência. Eu já tava quase relaxando quando vi o Atila encostado numa parede, de braços cruzados, olhando o morro como se fosse dono do horizonte. Ele é bonito. Infelizmente. Atila tem aquele tipo de beleza que dá raiva: tudo nele parece feito pra intimidar. Mandíbula marcada, tatuagem no braço, olhar escuro. E a calma dele é sempre ameaça. Ele fala pouco, mas quando fala, o ar obedece. Ele me viu e sorriu daquele jeito que não é exatamente sorriso, é um aviso de que ele tá se divertindo comigo. — Tá atrasada — ele disse. Eu parei na frente dele, firme. — Acordei na hora que eu quis, Atila. Tu tá confundindo meu relógio com teu ego. — Tu tá afiada hoje. — Ele soltou um som curto, quase uma risada. — Eu tô afiada todo dia. Hoje tu que acordou sensível. — Dormiu m*l. — Dormi ótimo. Sonhei que tu aprendia a respeitar mulher. — Eu abri um sorriso lindo e falso. — Esse sonho é ficção científica. — E tu é o vilão. — Eu dei um tapa leve no peito dele com as pontas dos dedos, mas segurou meu pulso com delicadeza demais pra ser só controle. — Para de palhaçada, Morena. — o tom dele baixou. — Teu olho tá diferente. Meu coração deu um pulo i****a. Eu odiei ele por perceber. E odiei mais ainda porque ele parecia... preocupado. — Meu olho tá igual sempre — eu menti, soltando meu pulso com jeitinho. — Te preocupa com as tuas coisas. — Tu é minha coisa? — Atila, pelo amor de Deus, tu é um perigo até quando flerta. — Eu ri alto. Ele se aproximou um pouco, o suficiente pra eu sentir o perfume dele e o problema junto. — Eu sou perigo mesmo. Tu gosta. — Eu gosto de adrenalina. — eu encarei ele. — Não confunde com submissão. Ele ficou me olhando. O silêncio entre a gente sempre parece que tem eletricidade. A Lili apareceu do nada, quebrando o clima como sempre. — Ô casal, dá pra vocês brigarem e se pegarem mais baixo? — ela falou alto, sem vergonha. — Tem gente querendo resolver coisa. Atila fechou a cara. — Não enche, Lili. — Eu encho porque alguém tem que lembrar que o morro não para porque vocês tão fazendo novela mexicana. Eu apontei pra Lili, orgulhosa. — Tá vendo? Essa é minha gerente. Ela me mantém humana. Atila bufou e saiu andando, mas antes ele olhou pra mim de novo. — Depois tu sobe comigo. — Pra conversar ou pra mandar em mim? Ele foi embora, e eu fiquei com vontade de bater nele e beijar ele na mesma proporção. Isso é o que dá se envolver com homem que acha que "amor" é sinônimo de "posse". Lili me cutucou com o cotovelo. — Tu tá com cara de "vou cometer um erro gostoso". — Eu tô com cara de "vou trabalhar", Lili. — Mentira. Mas vamos trabalhar mesmo assim. A primeira confusão do dia foi uma mulher revoltada porque o marido tinha sumido com dinheiro de feira e aparecido bêbado em outro canto, jurando que "foi assalto". Eu ouvi a história toda com uma cara séria de juíza, só que por dentro eu tava pensando: homem é uma entidade que Deus criou pra testar a paciência feminina. Eu resolvi do meu jeito: com bronca, ameaça de vergonha pública e um empréstimo pequeno pra feira, porque fome não espera e criança não tem culpa. A mulher saiu agradecendo e me chamando de "rainha". Eu odeio esse apelido. Rainha parece distante. Eu prefiro "Morena". Morena é perto. Depois veio um menino chorando porque tinha perdido o chinelo novo no campinho e alguém "roubou". — Roubar chinelo é o fundo do poço — eu falei, colocando a mão na cintura. — Quem pegou o chinelo do menino devolve agora ou vai correr de meia até o ano virar! Deu cinco minutos, o chinelo apareceu. Magia não. Medo de humilhação mesmo. Funciona. A manhã foi passando com essas pequenas guerras que ninguém escreve em dossiê: febre, aluguel atrasado, ciúme, fofoca, criança perdida, gente pedindo "só uma ajuda". Até que chegou a foto da semana. A foto que toda semana aquele infeliz manda do meu filho, como se eu fosse uma cachorra que pariu e não preciso ver meu filhotinho. Aquelas fotos eram pra me deixar mais calma, feliz até. Mas só me deixam mais triste e rancorosa. — Lili... hoje tu vai fazer as coisas sem mim por um tempo. — Morena. — Sem "Morena". Faz. — Tu vai pra onde? — Ela me segurou pelo braço, firme. — Eu vou respirar antes que eu faça besteira. — Eu sorri, um sorriso sem humor. — Besteira tipo quê? Eu pensei no dossiê. Pensei no Atila querendo "conversar". Pensei na foto do Miguel. E eu disse a verdade mais perigosa que eu sabia. — Não sei, é melhor não pensar pra não atentar o d***o. Lili soltou devagar meu braço, como se entendesse que isso não era conversa curta. — Tá... — ela falou, baixinho. — Mas não vai sozinha pra lugar nenhum. Tu me ouviu? Eu nem respondi. Porque do outro lado, como se o universo estivesse brincando comigo, eu vi o Atila voltando, e ele vinha com aquela cara que eu conheço: cara de quem sabe que algo tá errado e vai exigir explicação do jeito dele. E eu só pensei: "Hoje eu não tenho paciência pra homem mandão."
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