A "boca" fica num ponto mais escondido, mas não é um bunker de filme. É mais feio, mais humano, mais real. Tem gente entrando e saindo, tem rádio, tem olhar, tem rotina.
Rotina é o que faz o caos parecer normal.
Quando eu cheguei, o movimento já tava quente. Não vou falar de detalhe, porque eu não sou tutorial de nada. Mas eu vou dizer uma coisa: tem lugar que funciona no grito. Aqui funciona no olho. E eu tenho um olho que corta.
Lili foi direto falar com um dos meninos do corre, eu fui checar o ambiente, não com paranoia, com atenção. Atenção é diferente. Paranoia é medo. Atenção é sobrevivência.
Eu já tava quase relaxando quando vi o Atila encostado numa parede, de braços cruzados, olhando o morro como se fosse dono do horizonte.
Ele é bonito. Infelizmente.
Atila tem aquele tipo de beleza que dá raiva: tudo nele parece feito pra intimidar. Mandíbula marcada, tatuagem no braço, olhar escuro. E a calma dele é sempre ameaça. Ele fala pouco, mas quando fala, o ar obedece.
Ele me viu e sorriu daquele jeito que não é exatamente sorriso, é um aviso de que ele tá se divertindo comigo.
— Tá atrasada — ele disse.
Eu parei na frente dele, firme.
— Acordei na hora que eu quis, Atila. Tu tá confundindo meu relógio com teu ego.
— Tu tá afiada hoje. — Ele soltou um som curto, quase uma risada.
— Eu tô afiada todo dia. Hoje tu que acordou sensível.
— Dormiu m*l.
— Dormi ótimo. Sonhei que tu aprendia a respeitar mulher. — Eu abri um sorriso lindo e falso.
— Esse sonho é ficção científica.
— E tu é o vilão. — Eu dei um tapa leve no peito dele com as pontas dos dedos, mas segurou meu pulso com delicadeza demais pra ser só controle.
— Para de palhaçada, Morena. — o tom dele baixou. — Teu olho tá diferente.
Meu coração deu um pulo i****a. Eu odiei ele por perceber. E odiei mais ainda porque ele parecia... preocupado.
— Meu olho tá igual sempre — eu menti, soltando meu pulso com jeitinho. — Te preocupa com as tuas coisas.
— Tu é minha coisa?
— Atila, pelo amor de Deus, tu é um perigo até quando flerta. — Eu ri alto.
Ele se aproximou um pouco, o suficiente pra eu sentir o perfume dele e o problema junto.
— Eu sou perigo mesmo. Tu gosta.
— Eu gosto de adrenalina. — eu encarei ele. — Não confunde com submissão.
Ele ficou me olhando. O silêncio entre a gente sempre parece que tem eletricidade. A Lili apareceu do nada, quebrando o clima como sempre.
— Ô casal, dá pra vocês brigarem e se pegarem mais baixo? — ela falou alto, sem vergonha. — Tem gente querendo resolver coisa.
Atila fechou a cara.
— Não enche, Lili.
— Eu encho porque alguém tem que lembrar que o morro não para porque vocês tão fazendo novela mexicana.
Eu apontei pra Lili, orgulhosa.
— Tá vendo? Essa é minha gerente. Ela me mantém humana.
Atila bufou e saiu andando, mas antes ele olhou pra mim de novo.
— Depois tu sobe comigo.
— Pra conversar ou pra mandar em mim?
Ele foi embora, e eu fiquei com vontade de bater nele e beijar ele na mesma proporção. Isso é o que dá se envolver com homem que acha que "amor" é sinônimo de "posse".
Lili me cutucou com o cotovelo.
— Tu tá com cara de "vou cometer um erro gostoso".
— Eu tô com cara de "vou trabalhar", Lili.
— Mentira. Mas vamos trabalhar mesmo assim.
A primeira confusão do dia foi uma mulher revoltada porque o marido tinha sumido com dinheiro de feira e aparecido bêbado em outro canto, jurando que "foi assalto". Eu ouvi a história toda com uma cara séria de juíza, só que por dentro eu tava pensando: homem é uma entidade que Deus criou pra testar a paciência feminina.
Eu resolvi do meu jeito: com bronca, ameaça de vergonha pública e um empréstimo pequeno pra feira, porque fome não espera e criança não tem culpa. A mulher saiu agradecendo e me chamando de "rainha". Eu odeio esse apelido. Rainha parece distante. Eu prefiro "Morena". Morena é perto.
Depois veio um menino chorando porque tinha perdido o chinelo novo no campinho e alguém "roubou".
— Roubar chinelo é o fundo do poço — eu falei, colocando a mão na cintura. — Quem pegou o chinelo do menino devolve agora ou vai correr de meia até o ano virar!
Deu cinco minutos, o chinelo apareceu. Magia não. Medo de humilhação mesmo. Funciona.
A manhã foi passando com essas pequenas guerras que ninguém escreve em dossiê: febre, aluguel atrasado, ciúme, fofoca, criança perdida, gente pedindo "só uma ajuda".
Até que chegou a foto da semana.
A foto que toda semana aquele infeliz manda do meu filho, como se eu fosse uma cachorra que pariu e não preciso ver meu filhotinho.
Aquelas fotos eram pra me deixar mais calma, feliz até. Mas só me deixam mais triste e rancorosa.
— Lili... hoje tu vai fazer as coisas sem mim por um tempo.
— Morena.
— Sem "Morena". Faz.
— Tu vai pra onde? — Ela me segurou pelo braço, firme.
— Eu vou respirar antes que eu faça besteira. — Eu sorri, um sorriso sem humor.
— Besteira tipo quê?
Eu pensei no dossiê. Pensei no Atila querendo "conversar". Pensei na foto do Miguel. E eu disse a verdade mais perigosa que eu sabia.
— Não sei, é melhor não pensar pra não atentar o d***o.
Lili soltou devagar meu braço, como se entendesse que isso não era conversa curta.
— Tá... — ela falou, baixinho. — Mas não vai sozinha pra lugar nenhum. Tu me ouviu?
Eu nem respondi.
Porque do outro lado, como se o universo estivesse brincando comigo, eu vi o Atila voltando, e ele vinha com aquela cara que eu conheço: cara de quem sabe que algo tá errado e vai exigir explicação do jeito dele.
E eu só pensei:
"Hoje eu não tenho paciência pra homem mandão."