5. Morena

987 Palavras
Eu fui embora do jeito que eu sempre vou quando tô prestes a explodir: com a cara fechada e a postura de "tá tudo sob controle", mesmo quando por dentro eu tô um liquidificador sem tampa. Saí da boca sem olhar pra trás. Porque se eu olhasse, eu sabia: a Lili ia vir com aquele olhar de "não some" e eu ia ceder. E eu não podia ceder naquele momento. Ceder pra mim mesma, então... imagina ceder pra homem. O Turano tava com aquele calor de fim de manhã, o sol batendo nas lajes como se fosse cobrança. Eu desci a rua principal, desviando de moto, de criança, de cachorro, de fofoca, porque a fofoca, no Turano, tem corpo. Ela tromba com você e ainda pede bom dia. Meu celular tava pesado no bolso, mesmo sem tocar. A imagem do Miguel tinha entrado em mim como farpa: pequena, mas teimosamente ali. Eu respirei fundo, tentando lembrar das minhas regras básicas de sobrevivência emocional: 1. não chorar em público 2. não confiar em promessas 3. não reagir no impulso 4. e nunca, jamais, deixar homem me ver fraca Eu tava indo bem. Até ouvir um motor. Não um motor qualquer. Um motor que ronrona como quem sabe que é caro, e no morro tudo que é caro chega fazendo questão de ser notado. Eu parei no meio da rua, sem virar a cabeça ainda. Porque eu já sabia. Meu corpo reconhece o Atila antes do meu cérebro. O carro encostou devagar do meu lado, vidro escuro descendo com aquela calma de quem acha que tem o direito de interromper a minha vida. A voz dele veio baixa, firme, do jeito que dá vontade de discutir só pra ver ele perder a pose. — Entra. — Eu olhei pra frente, como se eu não tivesse ouvido. — Morena. Aí eu virei com o sorriso mais doce e falso que eu tinha disponível. — Sequestro agora é com convite? Evoluíram. Ele não riu. Ele tava sério. Sério do tipo "tô segurando um mundo na mão e tu tá brincando". — Entra no carro. — Eu tô indo pra minha casa, Atila. — Eu também. — Tu não mora comigo. Ele inclinou a cabeça, me olhando por cima do volante, e eu juro que às vezes ele parece um juiz, só que sem Constituição e com muita audácia. — Hoje eu moro. Eu soltei uma risada curta. — Atila, tu é insuportável. — E tu tá tremendo. Eu congelei. Ódio. Eu senti ódio. Porque ele percebe. Ele percebe quando meu escudo tá com rachadura, e ele insiste em enfiar o dedo. — Tô tremendo de raiva — eu menti, já abrindo a porta do passageiro com força demais. Se ele ia me obrigar a ficar perto, eu ia pelo menos escolher o cenário. Melhor dentro do carro dele do que no meio do morro, com meia dúzia de olho curioso contando quantas vezes eu piso. Entrei e bati a porta. O barulho foi seco. Final. Tipo "agora aguenta". Dentro do carro, o mundo parece outro. Ar-condicionado gelando, cheiro bom, banco de couro. É até engraçado: o Atila, que nasceu e cresceu no caos, gosta de luxo como quem gosta de silêncio. Ele compra silêncio. Ele arrancou com o carro devagar, sem pressa. E eu olhando pela janela, fingindo que o assunto era o céu. O silêncio veio primeiro. Aquele silêncio que não é confortável. É o silêncio de quem tá contando até dez pra não virar monstro. — Tu ia pra onde? — ele perguntou. — Pra casa. — Mentira. — Pra minha casa, Atila. — Tu tava saindo da boca como se tivesse visto fantasma. Eu dei de ombro, olhando pro lado. — Eu sou mulher, amor. A gente nasce vendo fantasma. Principalmente de homem. Ele apertou o volante. Eu vi os dedos dele ficando brancos de leve. — Eu vi tua cara. — Tu vive olhando minha cara demais. Isso é obsessão. — Isso é preocupação. — Preocupação é uma palavra bonita pra controle. — Eu ri, sem humor. Ele respirou fundo, como quem tenta não brigar com alguém que ama e não sabe. — Eu tô te perguntando na moral, Morena. Eu virei pra ele, ainda com o sorriso. — Então pergunta na moral e aceita resposta na moral: não é nada. — Não é nada, mas tu sumiu do teu posto e ficou pálida igual papel. Eu fechei a cara. — Meu posto? Eu tenho patrão agora? Ele freou um pouco mais adiante e encostou o carro num canto mais vazio, num trecho onde dava pra ver o morro lá em cima como um tabuleiro e, ao mesmo tempo, ninguém ficava perto o suficiente pra ouvir. Ele desligou o carro. De repente, só o barulho do ar-condicionado e da nossa respiração. Atila virou o rosto pra mim, devagar, como se estivesse medindo o risco de cada palavra. — Eu não gosto quando tu some. — Eu também não gosto de muita coisa e tô viva. — Para de fazer graça. — Eu não tô fazendo graça. Eu tô mantendo minha sanidade. Tu devia tentar. Ele me encarou, sério. — O que aconteceu, Morena? A pergunta veio diferente dessa vez. Não veio como ordem. Veio quase como pedido. E isso... isso me desarmou de um jeito perigoso. Eu olhei pro painel do carro, pras minhas próprias mãos, pro nada. Porque se eu olhasse pra ele direito, eu ia falar. E eu não podia falar. Miguel não é assunto. Miguel é ferida. E ferida na mão de homem vira arma. Mesmo quando ele não quer. — Não aconteceu nada — eu repeti, mais baixa. Atila soltou uma risada curta, sem alegria. — Tu acha que eu sou burro? — Eu acho que tu é teimoso. Ele passou a mão pelo rosto, como se estivesse cansado. O Atila cansado é uma coisa rara, e é exatamente por isso que assusta.
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