Eu fui embora do jeito que eu sempre vou quando tô prestes a explodir: com a cara fechada e a postura de "tá tudo sob controle", mesmo quando por dentro eu tô um liquidificador sem tampa.
Saí da boca sem olhar pra trás. Porque se eu olhasse, eu sabia: a Lili ia vir com aquele olhar de "não some" e eu ia ceder. E eu não podia ceder naquele momento. Ceder pra mim mesma, então... imagina ceder pra homem.
O Turano tava com aquele calor de fim de manhã, o sol batendo nas lajes como se fosse cobrança. Eu desci a rua principal, desviando de moto, de criança, de cachorro, de fofoca, porque a fofoca, no Turano, tem corpo. Ela tromba com você e ainda pede bom dia.
Meu celular tava pesado no bolso, mesmo sem tocar. A imagem do Miguel tinha entrado em mim como farpa: pequena, mas teimosamente ali.
Eu respirei fundo, tentando lembrar das minhas regras básicas de sobrevivência emocional:
1. não chorar em público
2. não confiar em promessas
3. não reagir no impulso
4. e nunca, jamais, deixar homem me ver fraca
Eu tava indo bem. Até ouvir um motor.
Não um motor qualquer. Um motor que ronrona como quem sabe que é caro, e no morro tudo que é caro chega fazendo questão de ser notado.
Eu parei no meio da rua, sem virar a cabeça ainda. Porque eu já sabia. Meu corpo reconhece o Atila antes do meu cérebro.
O carro encostou devagar do meu lado, vidro escuro descendo com aquela calma de quem acha que tem o direito de interromper a minha vida.
A voz dele veio baixa, firme, do jeito que dá vontade de discutir só pra ver ele perder a pose.
— Entra. — Eu olhei pra frente, como se eu não tivesse ouvido. — Morena.
Aí eu virei com o sorriso mais doce e falso que eu tinha disponível.
— Sequestro agora é com convite? Evoluíram.
Ele não riu. Ele tava sério. Sério do tipo "tô segurando um mundo na mão e tu tá brincando".
— Entra no carro.
— Eu tô indo pra minha casa, Atila.
— Eu também.
— Tu não mora comigo.
Ele inclinou a cabeça, me olhando por cima do volante, e eu juro que às vezes ele parece um juiz, só que sem Constituição e com muita audácia.
— Hoje eu moro.
Eu soltei uma risada curta.
— Atila, tu é insuportável.
— E tu tá tremendo.
Eu congelei.
Ódio. Eu senti ódio. Porque ele percebe. Ele percebe quando meu escudo tá com rachadura, e ele insiste em enfiar o dedo.
— Tô tremendo de raiva — eu menti, já abrindo a porta do passageiro com força demais.
Se ele ia me obrigar a ficar perto, eu ia pelo menos escolher o cenário. Melhor dentro do carro dele do que no meio do morro, com meia dúzia de olho curioso contando quantas vezes eu piso.
Entrei e bati a porta.
O barulho foi seco. Final. Tipo "agora aguenta".
Dentro do carro, o mundo parece outro. Ar-condicionado gelando, cheiro bom, banco de couro. É até engraçado: o Atila, que nasceu e cresceu no caos, gosta de luxo como quem gosta de silêncio. Ele compra silêncio.
Ele arrancou com o carro devagar, sem pressa. E eu olhando pela janela, fingindo que o assunto era o céu.
O silêncio veio primeiro.
Aquele silêncio que não é confortável. É o silêncio de quem tá contando até dez pra não virar monstro.
— Tu ia pra onde? — ele perguntou.
— Pra casa.
— Mentira.
— Pra minha casa, Atila.
— Tu tava saindo da boca como se tivesse visto fantasma.
Eu dei de ombro, olhando pro lado.
— Eu sou mulher, amor. A gente nasce vendo fantasma. Principalmente de homem.
Ele apertou o volante. Eu vi os dedos dele ficando brancos de leve.
— Eu vi tua cara.
— Tu vive olhando minha cara demais. Isso é obsessão.
— Isso é preocupação.
— Preocupação é uma palavra bonita pra controle. — Eu ri, sem humor. Ele respirou fundo, como quem tenta não brigar com alguém que ama e não sabe.
— Eu tô te perguntando na moral, Morena.
Eu virei pra ele, ainda com o sorriso.
— Então pergunta na moral e aceita resposta na moral: não é nada.
— Não é nada, mas tu sumiu do teu posto e ficou pálida igual papel.
Eu fechei a cara.
— Meu posto? Eu tenho patrão agora?
Ele freou um pouco mais adiante e encostou o carro num canto mais vazio, num trecho onde dava pra ver o morro lá em cima como um tabuleiro e, ao mesmo tempo, ninguém ficava perto o suficiente pra ouvir.
Ele desligou o carro. De repente, só o barulho do ar-condicionado e da nossa respiração.
Atila virou o rosto pra mim, devagar, como se estivesse medindo o risco de cada palavra.
— Eu não gosto quando tu some.
— Eu também não gosto de muita coisa e tô viva.
— Para de fazer graça.
— Eu não tô fazendo graça. Eu tô mantendo minha sanidade. Tu devia tentar.
Ele me encarou, sério.
— O que aconteceu, Morena?
A pergunta veio diferente dessa vez. Não veio como ordem. Veio quase como pedido.
E isso... isso me desarmou de um jeito perigoso.
Eu olhei pro painel do carro, pras minhas próprias mãos, pro nada. Porque se eu olhasse pra ele direito, eu ia falar. E eu não podia falar.
Miguel não é assunto. Miguel é ferida. E ferida na mão de homem vira arma. Mesmo quando ele não quer.
— Não aconteceu nada — eu repeti, mais baixa.
Atila soltou uma risada curta, sem alegria.
— Tu acha que eu sou burro?
— Eu acho que tu é teimoso.
Ele passou a mão pelo rosto, como se estivesse cansado. O Atila cansado é uma coisa rara, e é exatamente por isso que assusta.