— Eu não sei o que tu tem, mas eu sei que tu tá carregando isso sozinha.
— Eu sempre carreguei tudo sozinha. — Eu mordi a parte de dentro da bochecha.
— Desde quando?
Eu olhei pra ele, finalmente.
— Desde sempre. — e a frase saiu com mais verdade do que eu queria.
Atila ficou quieto por um instante. Aí ele falou baixo, com uma honestidade que eu não tava pronta pra ouvir dentro de um carro fechado.
— Eu não quero que tu se quebre.
Eu senti o peito apertar. Eu odeio quando alguém fala comigo como se eu fosse de vidro. Porque eu não sou. Eu sou de pedra.
Mas até pedra racha. Eu engoli seco e resolvi atacar, porque atacar é meu reflexo quando o coração ameaça aparecer.
— Atila... tu tá fazendo isso porque tu gosta de mim ou porque tu gosta de mandar?
Ele abriu um meio sorriso. Só que o sorriso dele não teve deboche. Teve... coisa.
— Os dois.
Eu revirei os olhos, mas minha garganta travou. Porque eu conheço esse tom. É o tom de quem vai se aproximando e, quando você percebe, já tá perto demais.
Ele inclinou o corpo um pouco. Não invadiu meu espaço... ainda. Só reduziu a distância. Como se testasse.
— Tu não precisa me contar tudo — ele falou. — Mas tu precisa parar de fingir que tá bem.
Eu soltei o ar devagar. Meu corpo inteiro queria duas coisas ao mesmo tempo: 1º sair correndo, 2º ficar ali, porque ficar ali era... quente
A presença dele no carro deixa o ar mais denso. É ridículo. O carro tem ar-condicionado e ainda assim parece que eu tô respirando fogo.
— Eu não tô fingindo — eu disse, mais baixa. — Eu tô... resolvendo do meu jeito.
— Teu jeito é se trancar por dentro.
— Meu jeito funcionou até aqui.
— Funcionou te deixando dura.
— Dura? — Eu arregalei os olhos.
— Dura. — ele repetiu, firme. — Tu não deixa ninguém chegar perto de verdade.
— Olha quem fala. O homem que acha que sentimento é fraqueza. — Eu dei um riso curto.
Ele me encarou por um segundo. Depois, como se tivesse cansado de se controlar, ele falou:
— Contigo eu não consigo.
— Atila... — Meu estômago deu um giro i****a. Eu odiei meu corpo por reagir. Ele levantou a mão e encostou de leve no meu queixo, só o suficiente pra me obrigar a olhar pra ele.
— Tu vai me enlouquecer, Morena.
Eu engoli seco. O toque dele foi mínimo, mas a sensação foi enorme. E eu, que sou boa em controlar o caos do morro, sou péssima em controlar o caos que ele me causa.
— Para — eu sussurrei, sem força. — Tu acha que tudo resolve assim?
— Eu não tô tentando resolver — ele respondeu, a voz mais baixa, mais perto. — Eu tô tentando te trazer de volta.
A frase me pegou num lugar que eu não admito que existe.
Eu desviei o olhar e ele soltou meu queixo, mas não afastou o corpo. Ficou ali, perto. Presente. Como se dissesse: eu espero, mas eu não vou embora.
E isso me irritou.
— Tu tá me sufocando — eu falei, e minha voz saiu mais dura do que a minha vontade.
Ele recuou um centímetro. Só um.
— Então respira. — Eu respirei. Só que a respiração veio tremida. Atila percebeu. Claro que percebeu. — Isso que tu recebeu... foi mensagem, né?
Meu coração deu um pulo que eu tentei esconder na marra.
— Que mensagem?
— Morena.
Ele falou meu nome como quem corta mentira com faca. Eu fiquei em silêncio. O silêncio é a confirmação mais barulhenta que existe.
Atila fechou os olhos por um segundo e abriu de novo, com o olhar mais pesado.
— Eu sabia.
— Sabia o quê?
— Que alguém tá mexendo contigo.
— Ninguém mexe comigo. — Eu ri, mas foi aquela risada que é quase choro, só que com raiva.
— Hoje mexeu.
Eu mordi a língua. Porque eu queria dizer "não", mas eu já tava com a imagem do Miguel queimando na cabeça.
Atila encostou a testa no volante por um instante, como se estivesse segurando a própria explosão.
Quando ele levantou a cabeça, ele tava perigoso.
— Me diz só uma coisa — ele falou baixo. — Isso coloca o Turano em risco?
A pergunta era dele por inteiro: o homem e o dono do morro misturados.
Eu olhei pra ele e senti a verdade na ponta da língua: isso coloca meu coração em risco. Mas eu sabia que essa resposta não serve pro Atila.
Então eu respondi do jeito que eu consigo.
— Eu não vou deixar.
Ele me encarou por um tempo longo. Aí ele estendeu o braço e destravou o cinto dele, depois destravou o meu.
— O que tu tá fazendo? — eu perguntei, já desconfiada.
Ele virou o corpo pra mim de novo, sério.
— Eu vou te levar pra casa. — e a voz dele baixou. — Mas antes, tu vai parar de fugir.
— E tu vai me obrigar como? Vai me dar sermão no carro? — Eu levantei a sobrancelha, tentando recuperar meu deboche.
Ele sorriu. Dessa vez teve calor.
— Se precisar, eu fico aqui contigo até tu lembrar que tu não tá sozinha.
Meu peito apertou. Meu estômago revirou. Meu orgulho se armou.
E eu, que sou Morena, Criminosa com C maiúsculo, só consegui responder com a coisa mais honesta e mais irritada do mundo:
— Tu é um inferno.
Ele se aproximou mais um pouco, sem me tocar.
— Eu sou. — ele disse. — Mas eu sou teu inferno.