7. Morena

1085 Palavras
Eu ri pelo nariz, aquele riso que não é risada, é aviso. — Teu inferno é teu ego, Atila. — Eu tô falando sério, Morena. — Ele inclinou a cabeça, paciente demais pra quem costuma mandar até no vento. — Eu também tô. Só que tu não gosta quando eu tô falando sério. Eu fui destravar a porta, pronta pra sair daquele carro antes que minha cabeça perdesse a briga pro meu corpo. Só que a mão dele foi rápida: ele segurou meu pulso. Não apertou forte. Só... prendeu o suficiente pra eu sentir. — Não vai embora assim. — Assim como? — Com essa cara de quem tá se segurando. Eu puxei meu pulso devagar e encostei as costas no banco, fingindo que eu tava calma. — Eu não tô me segurando. Eu tô me controlando. Tem diferença. Ele soltou o ar, e eu vi o olhar dele descendo pra minha boca por um segundo. Foi rápido, mas eu vi. E meu estômago fez aquele negócio ridículo de adolescente apaixonada, sendo que eu já devia ter maturidade emocional suficiente pra não reagir a mandíbula bonita. — Tu tá com raiva — ele disse, baixo. — Eu tô sempre com raiva. — Não. Essa é diferente. Eu olhei pra frente, pro painel, pra qualquer coisa que não fosse a cara dele. Porque eu sabia: se eu olhasse, eu ia ceder. E eu não gosto de ceder. — Fala logo o que tu quer, Atila. Ele encostou o braço no meu banco, sem me tocar, mas tomando espaço do mesmo jeito. A presença dele é assim: mesmo quando não encosta, ocupa. — Eu quero que tu pare de engolir tudo. Porque uma hora tu explode. — Eu explodo quando eu quiser. — Eu tô vendo tu explodir agora. Eu virei o rosto na hora. — Não vem me analisar, não. Tu não é psicólogo. — Sou pior — ele respondeu, com aquela calma perigosa. — Eu te conheço. Meu peito apertou de raiva. Raiva dele. Raiva de mim. Raiva do mundo que sempre acha que pode me ler como se eu fosse placa. — Não conhece. — Conheço, sim. — Atila... — Morena. Ele falou meu nome e, do jeito que falou, pareceu que ele encostou sem encostar. Eu senti no pescoço. Ridículo. Eu fiquei quieta. E esse foi meu erro. Porque quando eu fico quieta, eu dou espaço. E Atila adora espaço. Ele se aproximou mais, devagar, como se estivesse dando chance pra eu recuar. Só que eu não recuei. Eu fiquei. Orgulho é uma doença. — Eu posso te tocar? — ele perguntou, baixo. Essa pergunta me pegou no meio do peito. Atila pedindo permissão... era quase ofensivo. E ao mesmo tempo... era bonito. Porque controle, pra ele, é natural, e pedir é escolha. Eu engoli seco. Meu corpo respondeu antes da boca, inclinando um nada pra frente. — Pode. E foi como se eu tivesse acendido um fósforo num lugar cheio de gasolina. A mão dele veio primeiro no meu rosto, devagar, segurando minha mandíbula com cuidado; cuidado demais pra quem é conhecido como Fúria quando tá no comando. O toque dele não tinha pressa, tinha intenção. Ele me olhou como se estivesse pedindo confirmação com os olhos. Eu devia ter afastado. Devia ter dito "não". Devia ter lembrado que eu tava com a cabeça cheia de dor e esse tipo de coisa vira vício. Mas eu não fiz nada disso. Eu encostei minha mão no peito dele e empurrei de leve. — Tu fala demais. E beijei. Foi eu que beijei primeiro. Porque eu odeio a sensação de ser puxada sem escolher. Eu escolhi. Mesmo que a escolha fosse uma péssima ideia. Atila respondeu como se tivesse segurando a vontade desde ontem. Desde sempre. A boca dele veio firme, quente, e eu senti aquele choque conhecido: raiva virando desejo, orgulho virando fome. Eu odiei o quanto eu gostei. Ele passou a outra mão pela minha nuca, puxando meu cabelo com cuidado, e eu juro que só isso já me fez perder metade das minhas palavras. Minha boca ainda brigava, mas meu corpo tava traindo bonito. Eu quebrei o beijo só pra respirar e falei na cara dele, perto demais: — Isso não quer dizer que tu ganhou. — Não quero ganhar — ele murmurou, encostando a testa na minha. — Quero tu. Eu ri, sem humor nenhum. — Fala assim e tu vai me irritar. — É a ideia. Ele beijou de novo. E dessa vez eu não pensei. Eu só... fui. Eu agarrei o pescoço dele com as duas mãos e puxei, com raiva. Raiva do mundo. Raiva do nome do Carlos entrando na minha cabeça. Raiva da foto do Miguel queimando no meu bolso. Raiva de tudo que eu não controlo. E Atila... Atila era a única coisa ali que eu conseguia tocar e sentir como real. Ele desceu a mão pela minha cintura, apertou meu quadril, me puxou mais pra perto, e eu soltei um som baixo que eu odiei ter soltado. — Olha aí — ele sussurrou contra minha boca. — Tu fala que não precisa de ninguém. — Eu não preciso — eu respondi, mas minha voz saiu fraca, e isso me irritou mais ainda. — Eu só... quero. Ele me olhou. Aquela pausa curta, aquele instante de respeito. — Então me quer. Eu fechei os olhos por um segundo. — Quero. Atila me puxou de novo, e eu senti o corpo inteiro esquentar apesar do ar gelado. O carro virou um mundo pequeno. Um mundo onde não existia polícia, não existia dossiê, não existia passado. Só existia o toque, o beijo, a respiração pesada e essa necessidade absurda de esquecer o resto. E eu deixei. Porque às vezes a gente escolhe o erro só pra sentir que ainda manda em alguma coisa. Atila colou a boca no meu pescoço e eu cravei a unha no ombro dele, avisando: — Não inventa de me marcar, não. — Tu acha que eu sou moleque? — Ele riu baixo. — Eu acho que tu é territorialista. — Sou. — Então se controla. — Tô me controlando. — ele sussurrou. — Por você. Eu devia ter respondido com deboche. Mas a frase me atravessou num lugar que eu não gosto de admitir. Eu puxei a boca dele de volta pra minha, como quem briga com sentimento. E a gente se perdeu ali com pressa e raiva e desejo, com aquelas pausas curtinhas só pra respirar e se xingar em silêncio.
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