8. Morena

1104 Palavras
O beijo ainda tava quente na minha boca quando o rádio estourou, chiando como se o mundo tivesse decidido que eu não merecia nem cinco minutos de paz. — FÚRIA! FÚRIA, NA ESCUTA! É URGENTE! Eu congelei. Atila também. Respiração pesada, olho escuro, aquele segundo em que a gente volta pro corpo como quem volta pra um lugar que não queria. O vapor repetiu, mais alto, desesperado: — FÚRIA, RESPONDE, c*****o! Eu me afastei com raiva, ajeitando a blusa como se arrumar roupa arrumasse dignidade. E porque eu tava com raiva, eu fiz questão de usar o nome que corta: — Vai lá, Fúria — eu falei, seca, sem olhar pra ele. — Te chamaram. Eu vi ele endurecer na hora. Ele odeia quando eu puxo esse lado dele. "Fúria" não é apelido. É aviso. Atila pegou o rádio, voltando praquela postura de dono do mundo. — Fala. — Fúria, tem movimentação lá embaixo. Carro descaracterizado rodando duas vezes. E... — o cara hesitou — tão perguntando da Morena. Eu senti o sangue gelar de um jeito que nem o ar-condicionado conseguiu competir. Atila não olhou pra mim. Mas eu senti a energia dele mudar. Aquilo que tava quente virou lâmina. — Segura tudo — ele respondeu, curto. — Ninguém fala nada. Fecha as entradas. Eu tô descendo. — Fechou, Fúria. O rádio chiou e morreu. E o carro ficou mudo. Mudo do tipo que dá pra ouvir o coração batendo errado dentro do peito. Atila ficou um tempo olhando pra frente, como se o vidro fosse tela de cinema. Eu fiquei olhando pra minha própria unha, porque eu preferia encarar esmalte do que encarar pergunta. Ele respirou fundo, e eu vi a mandíbula dele trabalhar. — O que é isso, Morena? Eu dei de ombro, o mais leve que consegui. Porque se eu mostrasse o peso, eu desabava. — É o Turano sendo o Turano. — Não se faz de doida. Eu soltei uma risada sem humor. — Doida eu não tô. Eu só... não tô afim de conversar. Ele virou o rosto pra mim devagar. O olhar dele queria atravessar minha pele, procurar mentira por baixo. — Tá acontecendo alguma coisa contigo. Eu olhei de volta, firme, como eu sempre faço quando tô quebrando por dentro: com desafio. — E se tiver? — E se tiver, tu vai me contar. — Tu não manda em mim. — Eu sorri, aquele sorriso que parece bonito, mas é muro. Atila ficou quieto um segundo. Eu vi ele engolir a vontade de brigar. — Eu não tô mandando. — Tá sim. — Morena... — Atila, liga o carro — eu interrompi, a voz mais fria do que eu queria. — Me deixa em casa. Ele ficou parado, como se não aceitasse. — Eu não gosto disso. — Aprende. Silêncio. Aí ele ligou o carro. O motor roncou baixo e a gente começou a subir sem falar mais nada. E é engraçado como o caminho é curto quando você tá fugindo... e infinito quando você tá com vontade de desaparecer. Eu fiquei olhando pela janela, vendo o Turano passar como se fosse cenário: as crianças, os becos, as casas empilhadas, o barulho de vida. Todo mundo vivendo, rindo, brigando, vendendo coisa, fofocando... e eu com o peito apertado como se tivesse um tijolo dentro. Atila dirigia com as duas mãos no volante, rígido. Ele tava perto, mas parecia longe pra c*****o. Quando encostou perto da minha casa, ele não desligou o carro de primeira. Ficou um tempo ali, parado. Como se quisesse dizer alguma coisa que não sabe dizer. Eu destravei o cinto e fui abrir a porta. A voz dele veio baixa: — Tu vai ficar bem? Eu parei com a mão na maçaneta, respirei fundo e respondi do jeito que eu sei: — Eu sempre fico. Ele não falou nada. Eu senti o olhar dele queimando na minha nuca, desci do carro e bati a porta, não com raiva, com final. Atila baixou o vidro de leve. — Morena. Eu me virei, já com a cara montada. — O quê? Ele parecia querer me pedir desculpa. Parecia querer pedir pra eu não fechar a porta por dentro. Mas Atila não é homem de pedir. Ele é homem de fazer. — Se alguém encostar em tu... — ele começou. Eu cortei, rápida: — Ninguém encosta em mim. — Se encostar, eu vou saber. — Problema teu. Eu virei e comecei a andar. Atrás de mim, eu ouvi o carro dele arrancar. E só quando o som do motor sumiu é que eu percebi que eu tava prendendo o ar desde o começo. Subi a escada da minha casa como se cada degrau fosse um teste de postura. Abri a porta. Entrei. Tranquei. Tranquei de verdade. Por fora e por dentro. A casa tava silenciosa, do jeito que só casa de gente sozinha fica. Um silêncio que não briga com você, mas também não te abraça. Eu larguei a bolsa em qualquer lugar, tirei o chinelo, andei até o quarto. Passei pela gaveta onde o dossiê tava escondido e nem abri. Porque eu não precisava ler nada pra lembrar do que eu já sei: tem coisa me caçando. Cheguei no banheiro e encarei o espelho. A mesma cara. A mesma Morena. Batom meio borrado. Olho bonito, mas cansado. A postura de quem aguenta. Eu fiquei olhando pra mim por um tempo... até a primeira lágrima escapar sem pedir licença. Eu limpei na hora, com raiva. — Não — eu falei pra mim mesma. — Não começa. Só que meu corpo não liga pra discurso. O peito apertou, a garganta queimou, e quando eu vi eu tava chorando daquele jeito feio, silencioso, que não faz som, mas faz o mundo todo doer. Eu apoiei as mãos na pia, cabeça baixa. Chorei. Aí eu levantei o rosto e encarei o espelho de novo e eu vi a minha fraqueza ali, e vi também a minha força. Porque eu posso chorar. Mas eu não posso quebrar. Eu respirei fundo, puxei o ar como quem puxa coragem do fundo do pulmão, lavei o rosto com água gelada e apertei as bochechas pra voltar cor. Truque velho. Funciona. Passei a mão no cabelo, ajeitei a postura. Olhei pra mim e falei bem baixo, como ordem: — Tu é forte, Morena. Minha voz saiu falha. Eu repeti. — Tu é forte. Eu engoli o choro que sobrou, como eu sempre faço. Porque no Turano, mulher forte não é a que não sente. É a que sente tudo... e mesmo assim levanta. "Eu posso até chorar sozinha... mas amanhã eu acordo de pé."
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