O beijo ainda tava quente na minha boca quando o rádio estourou, chiando como se o mundo tivesse decidido que eu não merecia nem cinco minutos de paz.
— FÚRIA! FÚRIA, NA ESCUTA! É URGENTE!
Eu congelei.
Atila também. Respiração pesada, olho escuro, aquele segundo em que a gente volta pro corpo como quem volta pra um lugar que não queria.
O vapor repetiu, mais alto, desesperado:
— FÚRIA, RESPONDE, c*****o!
Eu me afastei com raiva, ajeitando a blusa como se arrumar roupa arrumasse dignidade. E porque eu tava com raiva, eu fiz questão de usar o nome que corta:
— Vai lá, Fúria — eu falei, seca, sem olhar pra ele. — Te chamaram.
Eu vi ele endurecer na hora. Ele odeia quando eu puxo esse lado dele. "Fúria" não é apelido. É aviso. Atila pegou o rádio, voltando praquela postura de dono do mundo.
— Fala.
— Fúria, tem movimentação lá embaixo. Carro descaracterizado rodando duas vezes. E... — o cara hesitou — tão perguntando da Morena.
Eu senti o sangue gelar de um jeito que nem o ar-condicionado conseguiu competir. Atila não olhou pra mim. Mas eu senti a energia dele mudar. Aquilo que tava quente virou lâmina.
— Segura tudo — ele respondeu, curto. — Ninguém fala nada. Fecha as entradas. Eu tô descendo.
— Fechou, Fúria.
O rádio chiou e morreu.
E o carro ficou mudo. Mudo do tipo que dá pra ouvir o coração batendo errado dentro do peito.
Atila ficou um tempo olhando pra frente, como se o vidro fosse tela de cinema. Eu fiquei olhando pra minha própria unha, porque eu preferia encarar esmalte do que encarar pergunta.
Ele respirou fundo, e eu vi a mandíbula dele trabalhar.
— O que é isso, Morena?
Eu dei de ombro, o mais leve que consegui. Porque se eu mostrasse o peso, eu desabava.
— É o Turano sendo o Turano.
— Não se faz de doida.
Eu soltei uma risada sem humor.
— Doida eu não tô. Eu só... não tô afim de conversar.
Ele virou o rosto pra mim devagar. O olhar dele queria atravessar minha pele, procurar mentira por baixo.
— Tá acontecendo alguma coisa contigo.
Eu olhei de volta, firme, como eu sempre faço quando tô quebrando por dentro: com desafio.
— E se tiver?
— E se tiver, tu vai me contar.
— Tu não manda em mim. — Eu sorri, aquele sorriso que parece bonito, mas é muro.
Atila ficou quieto um segundo. Eu vi ele engolir a vontade de brigar.
— Eu não tô mandando.
— Tá sim.
— Morena...
— Atila, liga o carro — eu interrompi, a voz mais fria do que eu queria. — Me deixa em casa.
Ele ficou parado, como se não aceitasse.
— Eu não gosto disso.
— Aprende.
Silêncio.
Aí ele ligou o carro.
O motor roncou baixo e a gente começou a subir sem falar mais nada. E é engraçado como o caminho é curto quando você tá fugindo... e infinito quando você tá com vontade de desaparecer.
Eu fiquei olhando pela janela, vendo o Turano passar como se fosse cenário: as crianças, os becos, as casas empilhadas, o barulho de vida. Todo mundo vivendo, rindo, brigando, vendendo coisa, fofocando... e eu com o peito apertado como se tivesse um tijolo dentro.
Atila dirigia com as duas mãos no volante, rígido. Ele tava perto, mas parecia longe pra c*****o.
Quando encostou perto da minha casa, ele não desligou o carro de primeira. Ficou um tempo ali, parado. Como se quisesse dizer alguma coisa que não sabe dizer.
Eu destravei o cinto e fui abrir a porta.
A voz dele veio baixa:
— Tu vai ficar bem?
Eu parei com a mão na maçaneta, respirei fundo e respondi do jeito que eu sei:
— Eu sempre fico.
Ele não falou nada. Eu senti o olhar dele queimando na minha nuca, desci do carro e bati a porta, não com raiva, com final.
Atila baixou o vidro de leve.
— Morena.
Eu me virei, já com a cara montada.
— O quê?
Ele parecia querer me pedir desculpa. Parecia querer pedir pra eu não fechar a porta por dentro. Mas Atila não é homem de pedir. Ele é homem de fazer.
— Se alguém encostar em tu... — ele começou.
Eu cortei, rápida:
— Ninguém encosta em mim.
— Se encostar, eu vou saber.
— Problema teu.
Eu virei e comecei a andar. Atrás de mim, eu ouvi o carro dele arrancar. E só quando o som do motor sumiu é que eu percebi que eu tava prendendo o ar desde o começo.
Subi a escada da minha casa como se cada degrau fosse um teste de postura. Abri a porta. Entrei. Tranquei.
Tranquei de verdade. Por fora e por dentro.
A casa tava silenciosa, do jeito que só casa de gente sozinha fica. Um silêncio que não briga com você, mas também não te abraça.
Eu larguei a bolsa em qualquer lugar, tirei o chinelo, andei até o quarto.
Passei pela gaveta onde o dossiê tava escondido e nem abri. Porque eu não precisava ler nada pra lembrar do que eu já sei: tem coisa me caçando.
Cheguei no banheiro e encarei o espelho.
A mesma cara.
A mesma Morena.
Batom meio borrado. Olho bonito, mas cansado. A postura de quem aguenta. Eu fiquei olhando pra mim por um tempo... até a primeira lágrima escapar sem pedir licença.
Eu limpei na hora, com raiva.
— Não — eu falei pra mim mesma. — Não começa.
Só que meu corpo não liga pra discurso. O peito apertou, a garganta queimou, e quando eu vi eu tava chorando daquele jeito feio, silencioso, que não faz som, mas faz o mundo todo doer.
Eu apoiei as mãos na pia, cabeça baixa.
Chorei.
Aí eu levantei o rosto e encarei o espelho de novo e eu vi a minha fraqueza ali, e vi também a minha força.
Porque eu posso chorar. Mas eu não posso quebrar.
Eu respirei fundo, puxei o ar como quem puxa coragem do fundo do pulmão, lavei o rosto com água gelada e apertei as bochechas pra voltar cor. Truque velho. Funciona.
Passei a mão no cabelo, ajeitei a postura.
Olhei pra mim e falei bem baixo, como ordem:
— Tu é forte, Morena.
Minha voz saiu falha. Eu repeti.
— Tu é forte.
Eu engoli o choro que sobrou, como eu sempre faço. Porque no Turano, mulher forte não é a que não sente. É a que sente tudo... e mesmo assim levanta.
"Eu posso até chorar sozinha... mas amanhã eu acordo de pé."