Eu fico puto com duas coisas: quando mexem no meu território e quando a Morena faz aquela cara de "tá tudo bem" com o olho dizendo "tá tudo uma merda".
O problema é que, com o território, eu resolvo do meu jeito. Com ela eu não resolvo. Eu só sinto. E sentir me deixa vulnerável, coisa que eu odeio mais do que polícia.
Eu desci o morro com o rádio ainda quente na mão e a boca seca, mas não era sede. Era aquela sensação que eu conheço desde moleque: pressentimento.
Só de pensar o nome dela dentro de outra boca que não seja a minha, eu já sinto vontade de arrancar língua.
Eu sei. É feio. É possessivo. É doente. Mas eu não nasci num lugar que ensina amor bonito. Eu aprendi amor na guerra.
E a Morena é meu ponto fraco vestido de mulher.
Ela não é só "gata".
Ela é o tipo de gata que entra num lugar e muda o ar. Não é porque rebola, não. É porque ela anda como se o chão fosse dela. Como se o mundo tivesse que pedir licença pra existir perto.
Cabelo sempre impecável, mesmo quando o caos tá comendo solto. Olhar afiado, boca rápida, deboche que humilha qualquer um - inclusive eu. E o pior: eu gosto.
Morena me irrita porque ela não tem medo de mim. Não tem medo do meu nome, da minha fama, de nada. Ela não abaixa a cabeça. Ela levanta mais ainda, só pra ver se eu tenho coragem de encarar.
E eu tenho. Só que com ela é diferente.
Porque quando ela tá na minha frente, eu não sei se eu quero mandar... ou se eu quero pedir.
E isso me enfurece.
Eu virei a esquina com o carro e vi o movimento do Turano de cima: gente indo e vindo, menino correndo, rádio chiando, vida acontecendo. Normal.
Mas eu não tava normal.
A Morena tem um jeito de me deixar louco que não é nem o corpo, apesar do corpo dela ser um problema por si só.
É o conjunto: ela é bonita e perigosa no mesmo pacote. Aquele tipo de mulher que você olha e já sabe: se eu mexer errado, eu me ferro.
E eu mexo mesmo assim.
Eu encostei o carro num ponto mais alto e desci. Um dos vapores veio na minha direção correndo, falando demais, nervoso.
— Fúria, a gente fechou as entradas. Tem um pessoal lá embaixo dizendo que viu carro parado...
Ele engoliu seco.
— Tão perguntando dela pelo nome, Fúria. Não é "a mulher do chefe", não. É Morena mesmo. E eu ouvi "delegado"...
Eu senti meu maxilar travar.
Delegado.
Essa palavra não devia encostar nela. Morena é do morro. Morena é do Turano. Morena é minha... do jeito que ela deixar, porque eu já tentei forçar e só consegui perder.
Eu respirei fundo, segurando a fúria onde ela sempre tenta nascer.
— Ninguém fala o nome dela em voz alta — eu disse. — Quem ouvir, me avisa. Quem espalhar, eu vou saber.
O vapor assentiu rápido e saiu. Eu fiquei ali, parado, olhando pro morro como se o morro fosse um corpo que eu preciso proteger.
Só que a verdade é outra: eu tava pensando nela.
Pensando nela como eu sempre penso, mesmo quando não quero.
Morena anda com uma Glock rosa choque enfiada na cintura como se fosse acessório. Como se fosse batom. Como se fosse brincadeira. E ninguém ri, porque aquilo nela não é brincadeira, é assinatura.
A arma não é só arma. É um recado pro mundo e eu odeio o quanto eu admiro isso.
Tem homem que se sente diminuído por uma mulher assim. Eu não. Eu me sinto... atraído. Eu me sinto desafiado. Eu me sinto puxado pra perto de um incêndio só pra provar que eu aguento o calor.
Eu lembro da primeira vez que vi aquela Glock.
Ela tava de short, camiseta, cabelo preso, e a arma rosa na cintura, chamando atenção de propósito. Eu olhei e pensei "isso é exibicionismo".
Ela olhou de volta e disse, com aquele sorriso debochado:
— Tá olhando por quê, Atila? Quer uma rosa pra combinar contigo?
E ali eu entendi: ela não ia ser "minha mulher" do jeito que as seria. Ela ia ser ela. E eu ia ter que aprender a lidar ou perder.
Hoje... eu tô perdendo e ganhando ao mesmo tempo.
Porque eu tenho ela perto, eu tenho o cheiro dela no meu carro, eu tenho o nome dela no meu rádio... mas eu não tenho acesso ao que ela guarda por dentro.
E isso me dá raiva.
Não porque eu quero dominar. Mas porque eu quero proteger e não sei de quê. Eu voltei pro carro e fiquei um tempo com a mão no volante, sem ligar o motor. Só pensando.
Eu respirei e liguei o carro, devagar.
Puxei o rádio.
— Fecha tudo e mantém olho embaixo. Sem alarde.
— Fechou, Fúria.
Eu dirigi com calma, mas por dentro eu tava rápido. Planejando. Conectando. Quem pergunta da Morena pelo nome não tá fazendo isso à toa.