Pré-visualização gratuita Capitulo 1
Sinopse
Em Itacaré, onde o som das ondas esconde segredos sombrios, a vida de Susana muda para sempre aos 16 anos. Após denunciar o abuso cometido pelo próprio padrasto, ela é expulsa de casa por uma mãe fragilizada, presa em um ciclo de dependência e submissão. Sozinha, vulnerável e sem rumo, Susana passa a sobreviver nas ruas e nos cantos esquecidos da cidade — entre becos, praias e promessas vazias. Até que surge uma oportunidade: um diretor lhe oferece a chance de mudar de vida através do cinema. Mas o que parecia ser um recomeço logo se revela uma armadilha c***l. Enganada, explorada e sem saída, Susana é arrastada para um mundo de prostituição e filmagens pornôs, onde sonhos são vendidos e identidades são destruídas. É nesse cenário brutal que ela deixa de ser Susana… e nasce Suzi. Entre dor, sobrevivência e escolhas difíceis, Suzi precisa decidir: se render ao destino que lhe foi imposto ou lutar para recuperar sua voz, sua dignidade — e quem ela realmente é.
Uma história intensa, provocante e profundamente humana sobre abandono, resistência e a busca por liberdade.
Capitulo 1
A Verdade que Ninguém Quis Ouvir
O cheiro de álcool tomava conta da pequena casa de madeira. As paredes finas não escondiam os gritos que, mais uma vez, ecoavam noite adentro.
— Você tá mentindo, Susana! — gritou Dona Marta, os olhos vermelhos, a voz trêmula entre raiva e negação.
Susana tremia. Não de medo daquela discussão — aquilo já fazia parte da rotina —, mas do peso do que estava prestes a sustentar até o fim.
— Eu não tô mentindo, mãe… — a voz saiu falha, mas firme. — Ele fez isso comigo. Mais de uma vez.
O silêncio caiu por um segundo. Um silêncio pesado, sufocante… quase mais doloroso do que os gritos.
— Cala a boca! — Marta avançou um passo. — Você tá inventando isso pra separar a gente!
— Mãe, pelo amor de Deus! Eu sou sua filha! — os olhos de Susana se encheram de lágrimas. — Você acha que eu ia mentir sobre uma coisa dessas?
Antes que qualquer resposta viesse, a porta se abriu com força. Ele entrou.
Valter.
O cheiro de cigarro e bebida o acompanhava como uma sombra. Seu olhar passou rapidamente por Susana, frio, calculista, como se ela fosse invisível — ou pior, descartável.
— O que tá acontecendo aqui? — perguntou, cruzando os braços.
Marta não hesitou.
— Essa menina tá dizendo que você… — ela engoliu seco — que você abusou dela.
Valter soltou uma risada curta, debochada.
— Eu? — ele balançou a cabeça, fingindo incredulidade. — Essa garota tá ficando louca.
Susana sentiu o chão sumir sob seus pés.
— Você sabe que não é verdade! — ela gritou, a voz agora carregada de desespero. — Você sabe o que fez! E disse que eu era mais gostosa que a noia da min há mãe.
Ele deu um passo à frente, encarando-a com frieza.
— Cuidado com o que você fala, menina.
Mas Susana não recuou.
— Eu não tenho mais medo de você.
O tapa veio rápido.
Não dele.
Da mãe.
O som ecoou seco no pequeno cômodo. O rosto de Susana virou com o impacto, e por um instante tudo ficou em silêncio.
— Chega! — gritou Marta. — Eu não vou admitir você acusando meu marido dentro da minha casa!
Susana levou a mão ao rosto, sentindo o calor da dor e das lágrimas que já não conseguia segurar.
— Então você escolhe ele? — sussurrou.
Marta desviou o olhar por um segundo. Um segundo que disse tudo.
— Eu escolho a verdade — respondeu, mas sua voz já não tinha a mesma firmeza. — E você… você tá mentindo.
Aquilo quebrou algo dentro de Susana. Não era só a dor. Era a certeza.
Ela estava sozinha.
— Arruma suas coisas — disse Marta, fria. — Você não fica mais aqui.
— Mãe…
— Eu mandei arrumar suas coisas!
Sem forças para discutir, Susana pegou uma pequena mochila. Algumas roupas, um par de chinelos, e o pouco que ainda restava de sua infância. Quando voltou para a sala, Marta já não olhava para ela. Valter, encostado na parede, apenas observava — com um leve sorriso no canto da boca. Aquilo foi pior que qualquer palavra.
— Você vai se arrepender… — disse Susana, a voz baixa, quebrada. — Um dia você vai acreditar em mim.
Marta não respondeu. A porta foi aberta. E então, fechada.
Do lado de fora, a noite de Itacaré era úmida, silenciosa… indiferente. O som distante do mar contrastava com o vazio que agora habitava dentro dela.
Susana deu alguns passos, sem saber para onde ir.
Sem casa. Sem proteção. Sem mãe.
Naquela noite, não foi só uma garota que foi jogada na rua.
Foi ali que Susana começou a desaparecer.
E, sem saber, Suzi começava a nascer.
Entre Sombras e Sobrevivência
A noite em Itacaré parecia bonita para quem via de longe. As luzes dos bares refletiam no mar, o som das ondas trazia uma falsa sensação de paz… mas, para Susana, tudo era ameaça. Ela caminhava sem rumo, abraçando a própria mochila como se aquilo fosse a única coisa que ainda a mantinha inteira. Os pés descalços já começavam a doer com o chão irregular, e o vento úmido arrepiava sua pele.
O estômago roncava. O medo também.
— Ei, garota…
A voz veio de trás. Susana acelerou o passo.
— Tô falando com você!
Ela não respondeu. Não olhou. Já tinha aprendido, mesmo sem ninguém ensinar, que olhar podia ser convite… e ela não podia se dar esse luxo.
O coração disparou quando ouviu passos mais rápidos.
— Calma, não precisa correr…
Mas ela correu.
Dobrou uma esquina, depois outra, até encontrar um pequeno beco m*l iluminado. Parou ali, ofegante, tentando recuperar o fôlego.
Silêncio.
Por alguns segundos, só existia o som do próprio coração batendo descompassado.
— Você não vai conseguir fugir disso por muito tempo.
A voz ecoou dentro da cabeça dela. Não era real… mas parecia.
Susana escorregou até se sentar no chão, encostando na parede fria. As lágrimas vieram sem pedir permissão.
— Eu só queria que você acreditasse em mim, mãe… — sussurrou.
Mas ninguém respondeu. Ninguém nunca respondia.
O tempo passou devagar. Ou rápido demais — ela já não sabia. A madrugada avançava, e o frio começava a incomodar. Foi quando ela ouviu outra voz.
— Você vai adoecer ficando aí.
Susana levantou o rosto assustada.
Uma mulher estava parada na entrada do beco. Morena, cabelos presos, olhar cansado — mas diferente. Não havia ameaça ali. Havia algo que Susana não via há muito tempo.
Cuidado.
— Eu não tenho nada… — disse Susana rapidamente, defensiva.
A mulher deu um leve sorriso.
— Eu não quero nada seu.
Ela se aproximou devagar, respeitando a distância.
— Qual seu nome?
Susana hesitou.
— …Susana.
A mulher assentiu.
— Eu sou Rita. E você não é daqui de fora… dá pra ver.
Susana abaixou o olhar.
— Fui expulsa.
Rita não pareceu surpresa.
— A rua sempre começa assim.
Aquilo gelou Susana.
— Vem — disse Rita, estendendo a mão. — Pelo menos pra você comer alguma coisa.
Susana olhou para aquela mão como se fosse uma decisão de vida ou morte.
Talvez fosse.
— Por quê? — perguntou.
Rita deu de ombros.
— Porque eu já estive no seu lugar.
O silêncio se estendeu entre as duas.
Então, lentamente… Susana aceitou.
Rita a levou até um canto mais afastado, perto de barracas simples onde outras pessoas dormiam. O cheiro de comida simples — arroz, feijão — invadiu o ar.
Nunca pareceu tão bom. Susana comeu rápido, quase desesperada.
— Devagar — disse Rita. — Ninguém vai tirar de você.
Mas Susana sabia.
Naquele mundo… tudo podia ser tirado.
Depois de comer, o corpo começou a pesar. O cansaço finalmente cobrou seu preço.
— Pode descansar um pouco — disse Rita, apontando um pedaço de papelão improvisado. — Mas fica esperta. Aqui não é seguro.
Susana deitou, abraçando a mochila. Os olhos se fecharam.
Mas o descanso não veio. Imagens, lembranças, vozes…
E o rosto dele.
Ela acordou assustada, com o coração disparado.
Rita ainda estava ali, sentada, observando o movimento ao redor.
— Você não vai dormir direito por um tempo — disse ela, como se lesse pensamentos.
Susana se sentou devagar.
— Eu não sei o que fazer…
Rita a encarou por alguns segundos.
— Aprende rápido. Confia em pouca gente. E nunca… nunca acredita em promessa fácil.
Susana franziu a testa.
— Por quê?
Rita soltou um suspiro longo.
— Porque é assim que elas pegam a gente.
O vento soprou mais forte. E, pela primeira vez desde que saiu de casa… Susana sentiu que o perigo não estava só atrás dela.
Estava em todo lugar.
E aquilo era só o começo.