capitulo 2

1270 Palavras
Promessas ao Vento Os dias começaram a se misturar em Itacaré. Sol forte pela manhã, calor grudando na pele, e noites longas demais para quem não tinha para onde voltar. Susana já não era mais a menina perdida da primeira noite. A rua, dura como era, ensinava rápido. Agora ela tinha um canto. Não era uma casa. Nem perto disso. Era um espaço improvisado entre uma barraca abandonada e uma parede descascada, onde o vento batia menos e a chuva não chegava direto. Ali, com pedaços de papelão e uma lona velha que Rita conseguiu, Susana começou a “morar”. Se é que aquilo podia ser chamado de morar. Ela acordava cedo, antes do movimento crescer. Lavava o rosto em uma torneira pública, prendia os cabelos cacheados com um elástico gasto e respirava fundo, como se aquilo ajudasse a começar o dia com alguma força. Susana era o tipo de garota que chamava atenção, mesmo tentando se esconder. A pele morena, marcada pelo sol da Bahia, carregava um brilho natural. Os cabelos cacheados, volumosos, às vezes indomáveis, emolduravam um rosto bonito — ainda jovem, mas já endurecido pelas circunstâncias. O corpo, cheio de curvas, denunciava a transição entre menina e mulher… uma fase interrompida cedo demais. Mas o que mais chamava atenção não era a aparência. Eram os olhos. Olhos de quem já tinha visto coisas que não deveriam caber em alguém de 16 anos. — Você precisa tomar cuidado — disse Rita certa manhã, enquanto dividiam um pedaço de pão. — Eu sei — respondeu Susana, sem encará-la. — Não sabe não… — Rita insistiu. — Gente bonita na rua chama atenção. E nem toda atenção é coisa boa. Susana ficou em silêncio. Ela já tinha percebido. Olhares demorados. Comentários baixos. Propostas disfarçadas. A rua observava. E escolhia. Mesmo assim, ela tentava manter alguma rotina. Ajudava em pequenos serviços, carregava caixas em feiras, limpava mesas em troca de comida. Qualquer coisa que a mantivesse ocupada… e longe de problemas ou pelo menos, era o que ela achava. Foi numa tarde quente, quando o movimento na praia estava mais cheio, que ele apareceu. — Ei… A voz era calma. Diferente das outras. Susana virou o rosto, desconfiada. Um homem bem vestido para os padrões dali. Óculos escuros, sorriso fácil, postura confiante demais para alguém que claramente não pertencia àquele cenário. — Você já pensou em trabalhar com imagem? Susana franziu a testa. — Como assim? Ele sorriu, tirando os óculos lentamente. — Você tem presença. Já percebeu isso? Ela não respondeu. — Meu nome é Marcelo — disse ele, estendendo a mão. — Eu trabalho com produção. Filmes, campanhas… essas coisas. Susana não apertou a mão. Rita estava certa. Promessa fácil. — Não tenho interesse — respondeu, seca. Marcelo não pareceu ofendido. — Nem pra ouvir? — inclinou levemente a cabeça. — Pode ser a sua chance de sair daqui. Aquilo bateu diferente. Sair dali. A ideia ficou suspensa no ar, perigosa… tentadora. — Eu não tenho dinheiro — disse Susana, cruzando os braços. Ele riu de leve. — E quem falou em dinheiro? Eu tô oferecendo oportunidade. Silêncio. O som do mar ao fundo parecia mais alto de repente. — Você não nasceu pra isso aqui — continuou ele, olhando ao redor. — Dá pra ver de longe. Susana engoliu seco. Por um segundo… ela quis acreditar. — Pensa com carinho — disse Marcelo, entregando um papel com um número. — Quando estiver pronta, me procura. Ele se afastou com a mesma tranquilidade com que chegou. Susana ficou parada, olhando o papel na mão. Pequeno. Simples, mas pesado como uma decisão. — O que ele queria? — perguntou Rita, surgindo ao lado dela. Susana demorou para responder. — Disse que pode mudar minha vida… A Escolha O papel já estava amassado de tanto ser aberto e fechado. Sentada no seu canto improvisado em Itacaré, Susana olhava para o número como se ele fosse uma porta daquelas que a gente sabe que, depois de atravessar, não dá mais para voltar. — Joga isso fora — disse Rita, firme. Susana suspirou, sem desviar o olhar. — E se for verdade? Rita cruzou os braços. — E se não for? O silêncio pesou entre as duas. — Você acha mesmo que alguém aparece do nada oferecendo “oportunidade” pra menina da rua? — continuou Rita. — Isso não existe, Susana. — Mas… e se existir? — a voz dela saiu mais baixa, quase um pedido. Rita se aproximou, agachando na frente dela. — Olha pra mim. — Susana obedeceu. — Você é bonita. Muito. E nesse mundo, isso não é elogio… é perigo. Susana sentiu um aperto no peito. — Gente assim enxerga isso de longe. E sabe usar. — Eu não posso ficar aqui pra sempre — respondeu, agora com mais firmeza. — Eu não nasci pra isso. Rita soltou um suspiro longo. — Eu também achava isso. As palavras ficaram no ar, carregadas de algo que ela não explicou. — Só toma cuidado — disse por fim. — Porque às vezes a saída parece bonita… mas é só outra prisão. Naquela noite, Susana quase não dormiu. Virava de um lado para o outro, o papel na mão, a cabeça cheia. Ficar significava continuar sobrevivendo. Ir… podia significar viver ou desaparecer de vez. Na manhã seguinte, antes mesmo de o sol esquentar o chão, ela tomou a decisão. Ligou. Tudo aconteceu rápido. Marcelo apareceu no mesmo dia, como se já estivesse esperando. — Eu sabia que você ia me procurar — disse ele, sorrindo. Dessa vez, Susana apertou a mão dele. E, naquele gesto simples… algo mudou. A primeira semana parecia um sonho. Um quarto limpo. Cama de verdade. Banho quente. Roupas novas. Susana m*l se reconhecia no espelho. Os cabelos agora estavam cuidados, definidos. A pele, limpa da poeira constante da rua, voltava a brilhar. O corpo, antes escondido por roupas gastas, agora era valorizado por tecidos que pareciam feitos sob medida. — Tá vendo? — disse Marcelo, encostado na porta. — Eu não menti. Ela sorriu de leve. Pela primeira vez em muito tempo… sorriu de verdade. — Não mesmo… A comida vinha na hora certa. As pessoas eram educadas. Chamavam ela de “menina”, “linda”, “promissora”. Era estranho. Bom demais. — Você tem potencial — dizia uma das mulheres da equipe, ajustando seu cabelo. — Só precisa aprender a se soltar mais. Susana concordava com a cabeça, mesmo sem entender direito. Mas não questionava. Não queria estragar aquilo. Não queria voltar. À noite, deitada em uma cama macia, ela pensava em Rita. Pensava no aviso. Pensava no olhar desconfiado. Mas logo afastava. — Talvez ela só esteja acostumada com o pior… — sussurrou para si mesma. E dormia. Como não dormia há dias. Como não dormia há meses. Como se, finalmente… estivesse segura. No sétimo dia, Marcelo apareceu diferente. Mais sério. — Amanhã vamos começar de verdade — disse ele. Susana se sentou na cama, curiosa. — Começar o quê? Ele sorriu. Mas dessa vez… o sorriso não chegou aos olhos. — Seu trabalho. Um silêncio estranho tomou conta do quarto. — Vai ser tranquilo — completou ele. — Você só precisa confiar em mim. Susana assentiu. Mas algo, bem no fundo… incomodou. Quase imperceptível. Mas estava lá. Como um aviso. Que ela ainda não sabia… se devia ouvir. Rita soltou um riso sem humor. — Eles sempre dizem isso. O vento soprou mais forte, levantando areia. Susana apertou o papel entre os dedos. Talvez fosse uma chance ou talvez… fosse o começo de algo muito pior.
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