capitulo 3

1240 Palavras
O Preço da Ilusão O dia amanheceu diferente. Susana sentiu antes mesmo de entender. O ar parecia mais pesado, o silêncio mais longo, os olhares… mais atentos. Como se algo tivesse mudado — ou talvez, como se algo finalmente fosse revelado. — Se arruma — disse uma mulher da equipe, sem o mesmo sorriso dos dias anteriores. — Hoje é importante. Susana assentiu, tentando ignorar o desconforto. Tomou banho, vestiu a roupa que haviam separado — mais curta, mais justa do que qualquer outra que tinha usado até então. Parou diante do espelho. Algo não encaixava. O Nascimento de Suzi O espelho não mentia, mas também não mostrava toda a verdade. Susana ficou parada por alguns segundos, olhando o próprio reflexo como se estivesse diante de outra pessoa. A maquiagem pesada escondia traços de inocência que ainda insistiam em permanecer. Os olhos estavam mais marcados, mais escuros… mais distantes. As roupas não eram dela. Curtas. Justas. Chamativas. Quase como um uniforme. Ela levou a mão ao rosto, tocando de leve a própria pele, como se quisesse confirmar que ainda estava ali. Mas não estava. — Perfeito — disse a maquiadora, dando um passo para trás. — Agora sim. Agora sim. Para quem? Susana engoliu seco. — Seu nome hoje é Suzi, tá? — completou a mulher, com naturalidade. O nome ficou no ar. Estranho. Frio, mas, ao mesmo tempo… necessário. Susana respirou fundo. — Tá bom… E foi nesse instante que algo mudou. Não foi barulhento. Não foi dramático. Foi silencioso. Aceito. — Hoje é tranquilo — disse Marcelo, andando de um lado para o outro. — Só fotos. “Só fotos.” Parecia simples. Menos assustador. — Você só precisa seguir as orientações. Sorrir, fazer pose… nada demais. Suzi. Ela precisava se acostumar. — Tá — respondeu, com a voz mais firme do que sentia. O cenário era montado com luzes suaves, fundo neutro, tudo aparentemente profissional. Uma câmera posicionada, um fotógrafo ajustando lentes. Tudo parecia… normal. Quase enganoso. — Relaxa — disse o fotógrafo. — Pensa que você é outra pessoa. Ela quase riu. Já era. — Isso… levanta o queixo… olha pra mim… Flash. Flash. Flash. A cada clique, algo dentro dela se afastava um pouco mais. Não era o corpo que incomodava. Era o olhar. A forma como era vista. Como produto. Como imagem. Como algo que não precisava sentir. Mas ela continuou. Porque precisava. Porque não tinha escolha. Porque sobreviver, agora, custava caro. Os dias passaram. As fotos viraram rotina. E, aos poucos, Suzi aprendeu. Aprendeu a sorrir quando mandavam. Aprendeu a não perguntar. Aprendeu a desligar. Era mais fácil assim. Menos doloroso. Mais seguro. — Hoje você vai dar um passo a mais, sua fotos estão cada vez melhor, os clientes estão adorando, porem precisamos de mais corpo, mais sensualidade e pouca roupas — disse Marcelo, uma noite. O coração dela travou por um segundo. — Como assim? Ele a encarou com calma. — Filmagem. A palavra caiu pesada. Mesmo esperando… ainda doía. — Eu não sei se eu consigo. Quer me filmar nua é isso? — Você consegue, e é exatamente isso.— ele interrompeu. — Você já chegou até aqui. Aquilo era verdade. E era justamente o problema. — Você vai filmar eu tirado a roupa é isso? E eu vou fiar sozinha ne? — podemos fazer essa primeira filmagem, dessa maneira, para você ir se acostumando. O ambiente era menor dessa vez. Mais fechado. Mais íntimo. Suzi sentiu o corpo inteiro ficar em alerta. — Respira — disse alguém ao lado dela. — Quanto mais você trava, pior fica. Ela assentiu. Mas o ar não entrava direito. O corpo estava ali. Mas a mente… longe. Muito longe. — Preparada? — perguntou uma voz. Silêncio. Então… — Ação. Suzi fechou os olhos por um segundo. E, naquele instante, tomou uma decisão. Se ela não podia sair… ia sobreviver. Custasse o que custasse. Quando abriu os olhos de novo… não era mais Susana. Era alguém mais fria. Mais distante. Mais protegida. Suzi. Horas depois, sozinha novamente, ela se sentou na cama. O silêncio gritava. Mas dessa vez… não havia lágrimas. Só um vazio estranho. Pesado. Profundo. Ela olhou para as próprias mãos. Firmes. Paradas. — É só não sentir… — sussurrou para si mesma. Repetiu mais uma vez. — É só não sentir… E, aos poucos… começou a acreditar. — Tá linda — disse Marcelo, surgindo atrás dela. Ela forçou um sorriso. — Que tipo de filme é esse? Ele demorou um segundo a mais do que o normal para responder. — Você vai entender. Aquilo não ajudou. O lugar não parecia um estúdio comum. Não havia movimentação de equipe como antes. Nem câmeras sendo preparadas com naturalidade. O ambiente era mais fechado, mais reservado… quase escondido. Susana abraçou os próprios braços. — Marcelo… — chamou, hesitante. — Isso aqui tá estranho. Ele se aproximou, colocando a mão no ombro dela. — Relaxa. É só nervosismo. Mas o toque, que antes parecia seguro… agora causava arrepio. — Eu quero saber o que eu vou fazer — insistiu. Marcelo suspirou, como se estivesse cansado daquela pergunta. — Você vai trabalhar com imagem, como eu disse. — Mas que tipo de imagem? O silêncio dele respondeu antes das palavras. Susana sentiu o coração acelerar. — Marcelo… A porta se abriu. Um homem entrou. Depois outro. Nenhum deles parecia parte de equipe. Eles olharam para ela como quem avalia… como quem já sabe. O ar sumiu. — O que tá acontecendo? — a voz dela saiu mais alta agora. Marcelo mudou. O sorriso desapareceu. — Chegou a hora de você entender como funciona de verdade. O chão pareceu ceder. — Eu não vou fazer nada disso — disse Susana, dando um passo para trás. — Vai sim. A resposta veio seca. Sem espaço para dúvida. — Você aceitou. Comeu, dormiu, usou tudo que a gente te deu. Nada disso é de graça. — Você disse que era oportunidade! — E é — ele retrucou. — Só não do jeito que você imaginou. Susana balançou a cabeça, desesperada. — Não… não… eu não vou fazer isso! Ela tentou passar por ele. Mas a porta já estava bloqueada. — Não dificulta — disse um dos homens, em tom frio. O pânico tomou conta. — Me deixa sair! — ela gritou. Ninguém respondeu. Ninguém ajudou. Naquele momento, tudo fez sentido. As roupas. Os olhares. A “facilidade”. Rita. O aviso. Tarde demais. — Você tem duas opções — disse Marcelo, agora distante, como se falasse de um negócio qualquer. — Ou faz do jeito fácil… ou a gente faz do jeito difícil. As lágrimas começaram a cair sem controle. — Por favor… eu só tenho 16 anos. Mas ali… não existia mais “por favor”. Só escolha. E nenhuma delas era justa. Horas depois, sentada sozinha em um canto do quarto, Susana abraçava as próprias pernas. O corpo tremia. A mente… vazia. Algo dentro dela tinha quebrado. Não era só o medo. Não era só a dor. Era a confiança. Era a esperança. Era quem ela era. Ela olhou para o espelho. Mas não se reconheceu. A menina que saiu de casa… já não estava mais ali. E naquele silêncio pesado, sufocante… Susana entendeu. Se quisesse sobreviver naquele lugar… ela teria que deixar de ser Susana. E foi ali… no fundo do desespero… que um novo nome começou a surgir. Frio. Distante. Protegido. Suzi.
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