Negócios e Destinos
Em Itacaré, tudo começava a ficar pequeno demais.
Marcelo observava Suzi com atenção. Havia algo nela que prendia — não só o olhar, mas o interesse. Ele não era um monstro no sentido óbvio. Não gritava, não batia, não a tratava como lixo.
Pelo contrário.
— Você tá indo bem — dizia, às vezes, com um tom quase orgulhoso. — Melhor do que muita gente por aí.
E, de certa forma, aquilo confundia Suzi. Porque, mesmo dentro de tudo aquilo… havia momentos em que ela se sentia vista. Não como antes. Não como Susana. Mas como algo que tinha valor. Ainda que fosse um valor distorcido.
Marcelo cuidava dela do jeito dele. Mantinha alimentação, roupas, um lugar para dormir. Evitava que outros passassem dos limites sem controle. Mas aquilo não era cuidado. Era investimento. E ele sabia disso.
Só que também sabia de outra coisa. Itacaré já não bastava. Os vídeos circulavam, sim. As fotos tinham público. Mas era tudo pequeno, restrito, quase amador. Dinheiro vinha… mas não o suficiente. Não para o que ele queria. Marcelo era ambicioso.
Só ainda não tinha aprendido a ser grande.
— A gente pode mais — murmurava para si mesmo, olhando números, comentários, mensagens.
E foi aí que surgiu a oportunidade.
O encontro aconteceu em um bar mais reservado, longe do movimento turístico. Um lugar discreto, escolhido de propósito.
— Então você é o Marcelo — disse o homem, estendendo a mão.
— E você deve ser o Eduardo Brandão.
Diferente de Marcelo, Eduardo não precisava provar nada.
Bem vestido. Seguro. Olhar atento.
Calculista.
— Ouvi falar do seu trabalho — disse ele, sentando-se. — Ainda pequeno… mas interessante.
Marcelo sorriu de lado.
— Tô expandindo.
Eduardo deu um leve riso.
— Ainda não.
O silêncio que veio depois foi curto… mas suficiente para marcar território.
— Eu trabalho com alcance — continuou Eduardo. — Plataforma, distribuição, público grande. Não local.
Marcelo se inclinou levemente para frente.
— E o que você quer em troca?
Eduardo não respondeu de imediato.
Apenas puxou o celular. Abriu uma imagem. E girou a tela.
Suzi.
Marcelo ficou em silêncio.
— Ela — disse Eduardo. — Isso aqui… não é comum.
Ele ampliou a imagem, analisando com frieza.
— Tem algo nela. Mistura de força com fragilidade. Isso vende. Muito.
Marcelo cruzou os braços.
— Ela é minha.
Eduardo levantou o olhar, agora mais direto.
— Não. Ela é uma oportunidade.
As palavras vieram secas. Precisas.
— Você tá desperdiçando isso aqui — continuou ele. — Público pequeno. Produção limitada. Você tá brincando de negócio.
Marcelo sentiu o golpe. Mas não recuou.
— E você não tá?
Eduardo sorriu.
— Eu transformo isso em dinheiro de verdade.
Silêncio.
— São Paulo — disse ele, por fim. — É lá que o jogo acontece.
O nome ficou no ar.
Pesado. Distante. Grande.
— Lá… ela vira outra coisa — completou Eduardo. — Outro nível. Outro valor. Podemos ir mais longe e levar ate para outro pais, tem o quanto podemos ganhar?
Marcelo pensou.
Dinheiro. Alcance. Reconhecimento.
Tudo o que ele queria.
Tudo o que Itacaré não podia oferecer.
— E qual é o plano? — perguntou.
Eduardo encostou na cadeira, tranquilo.
— A gente leva ela. Estrutura maior. Produção profissional. Distribuição de verdade. Fora os clientes que podemos arrumar para ela
— E ela? — Marcelo questionou, ainda tentando manter algum controle.
Eduardo deu de ombros.
— Ela vai fazer o que já faz. Mais um pouco. Todos vão ganhar.
Mas ambos sabiam.
Não seria só isso.
Dias depois, Marcelo observava Suzi dormir.
O rosto mais leve, sem maquiagem, sem personagem.
Por um segundo… ela parecia apenas Susana.
Mas aquilo já não importava.
— A gente vai pra São Paulo — disse ele, quando ela acordou.
Suzi piscou, confusa.
— São Paulo?
— É a nossa chance de crescer.
“Nosso.”
A palavra soou estranha.
— E o que muda?
Marcelo hesitou por um breve instante.
— Tudo melhora.
Mas não explicou como. Não explicou o quanto. Não explicou o preço.
Suzi ficou em silêncio.
Algo dentro dela se contraiu.
Uma sensação antiga.
Aviso. Perigo.
Mas ela já tinha aprendido.
Perguntar não mudava as coisas.
— Tá bom — respondeu, por fim.
E foi nesse momento…
Sem perceber…
Que ela deu mais um passo.
Não para fora.
Mas ainda mais fundo.
Na mesma noite, Marcelo recebeu uma mensagem de Eduardo:
“Prepara ela. Aqui a gente não brinca.”
Marcelo leu.
Respirou fundo.
E respondeu:
“Pode deixar.”
Do outro lado da tela, Eduardo sorriu.
Para ele, não havia dúvida.
Assim que Suzi chegasse em São Paulo…
Ela deixaria de ser promessa.
E se tornaria produto.
E, para Suzi… aquilo não seria um recomeço.
Seria o começo do inferno.
A Cidade que Engole
A viagem foi silenciosa.
Dentro do ônibus, enquanto deixavam Itacaré para trás, Suzi encostou a cabeça na janela e observou a estrada desaparecer no escuro. Cada quilômetro parecia apagar um pedaço do que restava de Susana. Ela não chorou. Já não fazia mais isso.
Marcelo dormia em alguns momentos, tranquilo, como se tudo aquilo fosse apenas mais um passo natural. Para ele, era crescimento.
Para ela…
Era um salto no desconhecido.
Quando chegaram em São Paulo, o mundo pareceu grande demais.
Barulho. Pressa. Gente por todos os lados. Carros que não paravam.
Prédios que pareciam não ter fim.
Suzi desceu do ônibus segurando a mochila com força, os olhos atentos a tudo. Aquela cidade não parecia apenas maior. Parecia indiferente.
— Anda — disse Marcelo, já caminhando à frente. — Aqui ninguém espera ninguém.
Ela o seguiu. Sem questionar.
O lugar para onde foram não tinha nada a ver com Itacaré.
Nada de mar. Nada de vento leve.
Era um prédio alto, antigo por fora, mas reformado por dentro. Tudo muito limpo. Muito organizado.
Muito… controlado.
Na recepção, uma mulher os recebeu com um sorriso calculado.
— Então essa é a Suzi…
O jeito que falou o nome fez a pele dela arrepiar.
Como se já soubesse. Como se já fosse dona.
— Eduardo tá esperando — disse a mulher.
A sala era ampla. Fria. Moderna.
E lá estava ele. Eduardo Brandão. Impecável. Observando.
Ele não levantou de imediato. Apenas analisou Suzi dos pés à cabeça, como quem avalia um investimento.
Sem pressa. Sem pudor.
— Melhor do que nas fotos — disse, por fim.
Suzi sentiu o corpo travar.
Marcelo sorriu, tentando parecer à vontade.
— Eu falei.
Eduardo se levantou, caminhando lentamente até ela.
— Bem-vinda a São Paulo, Suzi.
A forma como ele disse o nome…
não era apresentação. Era posse.
Ela não respondeu.
— Aqui é diferente — continuou ele. — Aqui a gente trabalha sério.
Suzi engoliu seco.
— Eu já trabalho…
Ele a interrompeu com um leve gesto.
— Não. — fez uma pausa. — Você acha que trabalha.
O silêncio caiu pesado.
— Lá fora era ensaio — completou. — Aqui… é o jogo de verdade.
Nos dias seguintes, tudo aconteceu rápido demais.
Regras. Horários. Produção. Agenda.
Nada era perguntado. Tudo era informado. As roupas mudaram.
Os ambientes mudaram. As pessoas… também.
Ninguém ali sorria de verdade. Ninguém ali explicava.
E ninguém ali perguntava se ela estava bem.
Na terceira noite, Suzi percebeu.
Não foi um grito. Não foi uma ameaça direta.
Foi algo pior.
Foi a ausência de escolha.
— Você não pode sair sozinha — disse a mulher da recepção, agora sem simpatia alguma. — Segurança do prédio.
— Eu só queria tomar um ar…
— Não pode.
Simples assim. Sem discussão.
Mais tarde, tentou falar com Marcelo.
— A gente não combinou isso…
Ele evitou o olhar.
— É só no começo… pra você se adaptar.
— Isso não tá certo.
Marcelo respirou fundo, impaciente.
— Você queria crescer, não queria?
Ela ficou em silêncio.
— Então aceita — completou ele.
Aquilo doeu mais do que qualquer outra coisa.
Porque agora… ele também fazia parte.
Naquela noite, sozinha no quarto, Suzi foi até o espelho.
A maquiagem impecável. O cabelo perfeito.
O corpo moldado para agradar.
Tudo no lugar. Menos ela.
— É só não sentir, são apenas fotos… — sussurrou novamente.
Mas dessa vez… não funcionou.
Ela encostou a testa no espelho.
Respirou fundo.
E finalmente entendeu. Não era mais sobre escolha.
Não era mais sobre saída. Não era mais sobre esperança.
Ela não estava mais entrando naquele mundo.
Ela já estava presa nele.
E, pela primeira vez desde que saiu de casa…
o medo voltou.
Mais forte. Mais real. Mais definitivo.
Porque em São Paulo…
Ninguém precisava te prender.
A cidade fazia isso sozinha.