Reconstruindo Pontes

1153 Palavras
Liria Evans Chego mais cedo na empresa, precisava falar com Yan antes de sair para a obra. Assim que o elevador se abre no andar, vejo ele andando pelo corredor, sempre com aquela energia descontraída. — Ei, Yan! — chamo, apressando os passos para alcançá-lo. Ele para e se vira, sorrindo gentil. — Que bom que te encontrei, estava precisando de você. — Bom dia. Precisa de mim, é? — Ele responde de forma sugestiva, o tom brincalhão que sempre usa. Resolvo ignorar. — Sim. Ontem meu notebook deu p*u. Tentei ligar na sua sala, mas Nádia disse que você já tinha ido embora. — Ah, era pra isso que precisava de mim? — Ele parece chateado, mas logo retoma o tom profissional. — O notebook está na sua sala? — Sim, vamos até lá. Seguimos até minha sala. Assim que entramos, Yan aponta para minha mesa. — Vejo que alguém deixou presente pra você. Olho na direção que ele indica e vejo uma pequena caixinha. Meu coração acelera. Caminho até a mesa, pego a caixinha e a abro. São bombons com recheio de licor e cereja, os meus favoritos. Um bilhete delicadamente dobrado acompanha o presente. “Pra adoçar o seu dia, pequeno lírio. Sei que são seus preferidos. E.” Meu estômago dá um nó. Eu sabia de quem era. Não havia outro que conhecesse meus gostos tão bem. — E aí? Quem foi o admirador? — Yan pergunta curioso, me trazendo de volta à sala. Dou de ombros, tentando disfarçar. — Um admirador secreto. — Eu não comeria isso, viu? Vai que tá envenenado. Dou uma gargalhada. — Yan, esses bombons custam uma fortuna. Quem gastaria tanto só para me envenenar? Ele resmunga algo sobre haver malucos para tudo, mas eu ignoro. Pego um bombom, abro o papel delicado e mordo, sentindo o sabor intenso da cereja com o toque alcoólico do licor. — Quer um? Tá delicioso. — Passo. Prefiro não arriscar — ele brinca, mas seu olhar é sério. Ele pega o notebook e avisa que vai verificar. Antes que possa sair, Yan lança outra provocação: — Só estou fazendo meu trabalho, gatinha. — Ele pisca. Antes que eu responda, um ruído atrás dele chama nossa atenção. Um som discreto de alguém limpando a garganta, mas o cheiro inconfundível de perfume me atinge antes mesmo de olhar. — Já estou indo. Tchau, Lí, tchau, chefe — Yan diz rápido, saindo pela porta com um sorriso. Eros entra na sala logo em seguida, com aquele ar que mistura charme e autoridade. — Parece que alguém tem um fã na empresa — comenta, fechando a porta atrás de si. — Bom dia pra você também, Eros. Tudo bem? Ele ignora minha ironia e estende um copo de café. — Cappuccino de baunilha. Acertei? — Sempre. — Pego o copo e dou um pequeno sorriso. — Obrigada. Saí de casa correndo e nem tomei café. — Ainda é cedo. Quer tomar café na padaria aqui perto? — Não precisa. O café já está ótimo. E obrigada pelos bombons. Seus olhos brilham com a menção do presente. Ele se aproxima, ficando perto, tão perto que o calor do seu corpo é quase palpável. O cheiro dele me envolve, e minhas pernas ameaçam fraquejar. É absurdo o poder que ele tem sobre mim. — Só queria ver esse sorriso no seu rosto. — Ele passa os dedos suavemente pela minha bochecha. — Sei que ainda não me perdoou. Talvez nunca perdoe. Mas eu quero fazer o possível para te ter de volta. Minha respiração falha. Tento não vacilar, mas é difícil. — Eros, eu confiava em você. De olhos fechados. Sabia que nunca me deixaria cair… — Solto uma risada amarga. — Mas ironicamente foi você quem me empurrou no buraco. Ele fecha os olhos por um momento, como se minhas palavras fossem uma faca. — Liria, nós tínhamos 17 anos. Eu era imaturo. Achava que era o dono do mundo. — Você era. E foi essa arrogância, junto com a pressão dos seus amigos idiotas, que te deu coragem para fazer o que fez. Ele não tenta se defender. Sabe que tenho razão. — Estou certa, não estou? Pego minha bolsa e me preparo para sair. — Liria… — Sua voz soa como um pedido desesperado. Me viro para encará-lo, os olhos dele cheios de arrependimento. — Eu não te odeio. Não te esqueci. Não deixei de amar você. — Minha voz falha. — Mas você destruiu algo que era mais importante que o amor. — O que foi? — Ele engole em seco. — Se não foi o amor… — A confiança. — Solto o ar pesado que estava prendendo. — Eu não confio mais em você. O impacto das minhas palavras é visível. Ele abre a boca para responder, mas olha o relógio. — Já são 7h40. Melhor irmos. O silêncio entre nós no carro é sufocante. A tensão cresce a cada quilômetro, mas permanecemos calados até chegar ao local da obra. Ele estaciona o carro e solta um longo suspiro. — Me desculpa, Liria. Por ter quebrado sua confiança. — Já passou. — Tento encerrar o assunto. — Mesmo que você nunca me perdoe ou volte pra mim… eu só queria sua confiança de volta. Ser seu amigo. Saber que você pode contar comigo. Suspiro, mordendo o canto da boca. É difícil. Ele parece sincero, mas as memórias ainda doem. — Por favor — ele implora, a voz carregada de emoção. — Tudo bem. — Minha resposta é breve. — Não vou mais te afastar. Seu rosto se ilumina com um sorriso, e, por um instante, é como se o tempo parasse. Os olhos dele vão para minha boca, e os meus fazem o mesmo. Meu coração acelera, mas antes que algo aconteça, dois toques na janela nos tiram do momento. Eros abaixa o vidro, e o segurança nos cumprimenta. — Vi o carro preto com vidros escuros. Tive que checar. — Estávamos só conversando. Já vamos descer. — Explico, pegando minha bolsa. Do lado de fora, seguimos o segurança até o local onde o cliente e o empreiteiro nos aguardavam. — Senhorita Evans e senhor Mancini, um prazer recebê-los. — O cliente, Enzo Fabri, nos cumprimenta com um sorriso exagerado. Depois de apresentações formais e discussões sobre o projeto, tudo finalmente termina. Meus pés doem e a fome está insuportável. Antes de sairmos, Enzo se aproxima novamente. — Senhorita Evans, se não tiver planos, gostaria de almoçar comigo. Antes que eu possa responder, Eros bufa audivelmente ao meu lado. — Obrigada, senhor Fabri, mas já combinei de almoçar com o Eros. O sorriso de Enzo vacila, mas ele mantém a postura. — Entendido. Ainda teremos oportunidades. Enquanto caminhamos de volta ao carro, Eros murmura baixinho: — Nem senso ele tem. Seguro a risada e, pela primeira vez em muito tempo, sinto um raro momento de cumplicidade entre nós.
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