Liria Evans
Sentada à minha mesa, tento focar na tela do notebook à minha frente, mas meu coração insiste em acelerar a cada vez que olho para o celular. As mensagens ainda estão ali, gravadas na tela como um lembrete constante de algo que não consigo entender. Um número desconhecido, palavras cuidadosamente escolhidas, e o que mais me assusta: o uso do apelido pequeno lírio.
Minha cabeça está uma bagunça. Se isso for uma brincadeira, é de extremo mau gosto. Se não for… bem, prefiro não pensar nessa possibilidade.
— É a segunda vez que te pego com essa cara de pânico, devo me preocupar? — Ava pergunta ao entrar na sala com aquele sorriso confiante que só ela tem.
Levanto os olhos para ela, tentando mascarar minha inquietação, mas falho miseravelmente.
— Recebi umas mensagens estranhas, de um número desconhecido — conto, e, antes que ela possa reagir, continuo: — E se eu tento responder, não dá certo.
Ava franze a testa, mas seu tom é descontraído quando pergunta:
— Que tipo de mensagens?
Em silêncio, estendo o celular para ela. Ava pega o aparelho, se joga na cadeira em frente à minha mesa e começa a ler as mensagens. Seu olhar analítico passeia pela tela, mas, em vez de preocupação, ela apenas sorri de lado.
— Amiga, você tem um admirador secreto. Nada demais.
— Você fala como se isso fosse normal! — digo, incrédula, enquanto ela devolve o celular.
— A pessoa só demonstrou ciúmes e deixou claro o interesse em jantar com você. Não te ameaçou de morte nem nada.
Quase engasgo com a tranquilidade dela.
— Só o Eros me chama de pequeno lírio, Ava. Ninguém sabe desse apelido, nem você.
Meu tom é firme, e ela finalmente percebe a gravidade da situação.
— Fora que ele comentou no almoço sobre minha sobremesa favorita. Isso não é coincidência, é perseguição!
— Peraí… você e o chefe bonitão almoçaram juntos? — ela pergunta, arqueando as sobrancelhas com um sorriso zombeteiro.
Reviro os olhos, irritada.
— Ava, foca, por favor. O assunto não é esse.
— Tá, tá bom. Olha, vocês devem ter conversado perto de alguém ou de uma câmera. Vai ver foi só isso. — Ela dá de ombros, sem perder a leveza. — Mas, se isso realmente te preocupar, pede ajuda pro Yan. Ele é do T.I., deve saber rastrear.
A ideia faz sentido, e um peso sai dos meus ombros.
— Boa ideia. Se tem alguém nessa empresa que pode me ajudar, é ele.
— De qualquer forma, se ficar mais sério, procura a polícia, amiga. — Ava se levanta, ajeitando a saia. — Agora vou voltar ao trabalho. E você, foco aí.
— Obrigada. Bom trabalho.
Vejo-a sair da sala com sua confiança invejável. Ava parece imune a qualquer problema. Nada a abala, nada a faz hesitar. Gostaria de ser assim.
Deixo as mensagens de lado por enquanto e tento me concentrar no trabalho. Melhor ocupar minha mente do que deixá-la vagar por caminhos incertos.
Pouco depois, três batidas leves na porta me trazem de volta à realidade.
— Posso entrar? — a voz inconfundível de Eros me chama.
Respiro fundo, tentando manter a compostura.
— Se for sobre trabalho, sim.
Ele entra, sem se abalar pelo meu tom seco, e caminha até minha mesa. Senta-se à minha frente, os olhos fixos em mim, mas não diz nada de imediato. Eu paro de digitar e o encaro, esperando ele falar.
— Acabei de voltar daquela reunião.
— Sei. Era sobre o quê mesmo? — pergunto, mais curiosa do que deveria.
— Nossa empresa foi designada para um projeto de um mini shopping. O cliente exigiu que você fosse a arquiteta responsável.
Sinto o estômago revirar.
— Eu? Por quê?
— Ele já conhece o seu trabalho.
Seu tom é casual, como se isso fosse completamente normal.
— Ah, tudo bem. Depois me passa todas as informações e me diz quem será o engenheiro responsável, assim podemos conversar antes da reunião com o cliente.
— Eu sou o engenheiro responsável.
Meu corpo inteiro trava. Conto até cinco, tentando não explodir.
— Só pode ser carma. É isso. Tô pagando pela uva que roubei no mercado semana passada.
Ele gargalha, e o som ecoa pela sala, me deixando ainda mais irritada.
— Isso é sério? — ele pergunta entre risos.
— Eu li sobre carma uma vez. E você, Eros, é o meu. A cruz que tenho que carregar para ser aceita no céu.
Ele ri ainda mais, e meu nervosismo aumenta.
— Para de rir, caramba! Eu tô falando sério! — dou um tapa em seu braço, mas isso só o diverte mais.
— Eu não sou seu carma, pequeno lírio. Sou o seu destino.
A frase me desarma, e ele aproveita para continuar:
— Esse trabalho é importante. Vamos nos suportar e dar o nosso melhor, tudo bem?
Suspiro pesadamente, derrotada.
— Se não tem outra opção… tudo bem. Somos adultos, vamos sobreviver a esse projeto, não é?
Ele me encara, sério, mas há um brilho em seus olhos que me deixa desconfortável.
— Eu já sinto essa sua cabecinha a mil por hora. Não se preocupe, Líria. Eu te conheço o suficiente para respeitar suas mágoas.
Suas palavras me pegam de surpresa, e antes que eu possa responder, ele se levanta, inclina-se levemente e passa a mão no meu rosto com uma delicadeza inesperada.
— Foca suas ideias no projeto. Vai ficar tudo bem. Te mando tudo por e-mail.
— Obrigada — murmuro, ainda atordoada.
Assim que ele sai, corro para o lavabo. Meu rosto está quente, queimando com o pequeno toque dele. Respiro fundo, tentando me acalmar, mas minha mente insiste em voltar para ele. Para nós.
De volta à minha sala, meu notebook emite o som de um novo e-mail. O assunto é o projeto do shopping. Abro a mensagem, que contém várias exigências do cliente. No final, ele menciona que amanhã cedo iremos ao terreno e que a planta precisa estar pronta até sexta-feira.
— Esse cara só pode ser louco… — murmuro para mim mesma.
Hoje é terça-feira, e ele quer um projeto desenhado em três dias? Minha cabeça já dói só de pensar. Como eu e Eros vamos realizar esse milagre?
Quando tento responder ao e-mail, o notebook trava. Aperto as teclas, mas nada funciona. De repente, ele desliga completamente.
— Merda. Hoje é meu dia de sorte — bufo, irritada.
Coloco o carregador, aperto o botão de ligar, e nada. Pego o telefone da mesa e disco o ramal do T.I., mas o telefone toca sem parar, sem resposta.
Decido ligar para a recepção.
Início de ligação 📞
— D’Angeles Engineering, Nádia. Boa tarde.
— Nádia, é a Líria. O Yan está atendendo?
— Na verdade, senhorita Evans, ele passou aqui há alguns minutos. Disse que já estava indo embora.
— Certo. Obrigada.
Fim de ligação 📞
Sem outra opção, decido juntar minhas coisas para ir embora. O notebook estragado fica aqui; amanhã cedo resolvo isso antes de irmos ao terreno. Suspiro, exausta. Esse dia definitivamente não está colaborando.
Enquanto pego minha bolsa e apago as luzes da sala, minha mente vagueia para o que me espera amanhã. Trabalhar tão perto de Eros não será fácil. A presença dele mexe comigo de formas que eu gostaria de ignorar. Ele parece saber exatamente o que dizer para me tirar do eixo, e mesmo quando tenta ser profissional, há algo no olhar dele, na forma como fala, que faz meu coração se comportar como um adolescente apaixonado.
Caminho pelos corredores quase vazios da empresa, o som dos meus passos ecoando no silêncio. A luz do fim da tarde entra pelas janelas, criando sombras que dançam nas paredes. Tento focar no que preciso fazer, nas exigências do projeto, mas meu cérebro insiste em voltar para aquelas mensagens estranhas.