Eros Mancini
Suspiro, os olhos fixos no relógio da parede. São 06:00 da manhã. Hora de levantar e começar mais um dia. A responsabilidade de gerenciar uma empresa foi algo que aceitei sem realmente pensar nas consequências. Agora, vejo que talvez tenha sido um erro. Não que eu não me importe com o trabalho, mas tudo parece pequeno comparado ao peso daquilo que realmente importa: Líria.
Sempre achei que ser chefe seria o maior desafio da minha vida. Mas hoje, posso dizer com certeza: o maior desafio de um homem é recuperar o coração de uma mulher que ele destruiu. Eu nunca deixei de amar a Líria. Ela foi minha durante anos, e eu, com meu egoísmo e imprudência, destrui tudo numa noite de bebedeira. Beijei outra mulher. Não foi culpa da bebida, nem da garota; foi minha. E a dor que sinto desde aquele dia é algo que eu carrego como uma prisão.
É irônico como o destino parece brincar com a gente. Ele me trouxe de volta para o mesmo lugar onde ela está, e o pior de tudo: ela está ainda mais linda, e ainda mais distante de mim. A dor nos olhos dela é uma lâmina que corta o meu peito. Mas eu sei. Eu sei que, no fundo, nós dois ainda podemos ter um futuro. E vou lutar por isso, todos os dias. Não vou desistir, nem que tenha que pagar pelos meus erros por uma vida inteira.
Deixo os pensamentos sobre ela de lado por um momento, focando em me arrumar. A reunião depois do almoço vai ser crucial. Preciso me preparar, estar no meu melhor. Cada detalhe conta, e hoje a responsabilidade não é só com a empresa, é comigo mesmo.
...
Caminho apressado pelo saguão da empresa, sentindo o peso dos meus passos. O elevador está quase fechando. "Ei, segura o elevador para mim!", peço rapidamente. A pessoa dentro o segura e entro. É quando meu olhar se cruza com o dela.
Líria.
O impacto é imediato. Seu rosto, sua presença, o cheiro dela. Tudo me atinge como uma bomba, me fazendo parar por um segundo, como se o ar tivesse sumido dos meus pulmões. "Bom dia, pequeno Lírio", digo, sem pensar. O apelido. O velho apelido. Não devia ter dito isso. Percebo o instante em que o sorriso dela morre, e o olhar triste aparece. Ela parece pesar cada palavra que responde: "Bom dia, chefe." Tão fria. Tão distante. Meu coração pesa.
Antes que eu tenha a chance de falar algo mais, o celular dela apita. Ela pega o aparelho, e o semblante dela muda imediatamente. A preocupação toma conta de seus olhos, como se algo estivesse acontecendo. Ela olha ao redor rapidamente. Então, de repente, aponta para a câmera do elevador: "Essa câmera dá para ouvir as vozes ou só captar imagem?" A pergunta dela é quase automática, mas a preocupação no tom é real.
Fico perplexo, tentando entender. "Não sei, está acontecendo alguma coisa, Líria?" pergunto, o peso da preocupação me invadindo. Mas ela nem me responde. Seus olhos estão fixos na tela do celular, e então, sem dizer uma palavra, sai do elevador apressada, sem sequer me olhar novamente.
A vontade de ir atrás dela é forte, mas sei que seria inútil. Ela me afastaria, como sempre faz, e me enxotaria de sua sala com um simples gesto. Com a dor, eu já aprendi a lidar. Fico parado por um momento, me perguntando o que está acontecendo. Mas, por agora, tenho que focar no que é importante. Hoje, as minhas coisas também precisam ser resolvidas.
[...]
Liria Evans
Entro na minha sala atordoada, o coração ainda acelerado. Como seria possível? Alguém estava me seguindo? Claro que já percebi a moto preta algumas vezes, sempre um pouco atrás do meu carro, em dias diferentes. Mas sempre achei que era coincidência, alguém indo para o mesmo lugar, nada mais. Agora, tudo parece diferente.
Pego meu celular e leio a mensagem novamente, a sensação de desconforto aumentando a cada palavra.
"Pequeno Lírio? Parece que alguém tem uma relação a mais com o chefe, e eu não gostei nadinha disso."
Balanço a cabeça lentamente, tentando organizar os pensamentos. Deve ser uma brincadeira de mau gosto, não é? Não consigo imaginar o que alguém ganharia me mandando algo assim. Mas o medo, aquele frio na barriga, não deixa de me incomodar. E se não for uma brincadeira?
— Amiga, você está bem? — Ava entra, me tirando da minha espiral de pensamentos.
— Sim, é só... o efeito de ter encontrado o Eros no elevador — respondo, tentando parecer tranquila, embora a mentira esteja estampada no meu rosto.
— Eu, com um homão daqueles em um espaço tão pequeno, estaria era com calor, não com cara de pânico — Ava brinca, e sua risada me faz sentir um pouco mais leve. Ela não sabe, mas esse tipo de piada me ajuda a esquecer a mensagem por um instante.
Nego com a cabeça e, sem querer, faço uma bolinha de papel e atiro nela. Ela finge indignação.
— Isso me maltrata, logo eu que vim trazer um capuccino pra você — ela diz, me entregando o copo com um sorriso travesso.
— Já disse que você é a melhor amiga do mundo? — digo, sorrindo de volta enquanto tomo um gole.
— É, né. Enfim, vim só te dar bom dia, trazer o café e dizer que tenho uma reunião com outros advogados na hora do almoço. Vamos discutir um possível contrato — explica, e o tom de sua voz mostra que está preocupada, provavelmente com o que aconteceu na reunião.
— Tudo bem, eu vou sozinha hoje. Faço esse sacrifício — digo, tentando soar confiante, mas a verdade é que detesto almoçar sozinha.
Ava sorri e pega o papel que joguei nela, jogando-o no lixo antes de sair da sala.
...
Caminho contrariada para o restaurante, pensando no quanto detesto estar sozinha para o almoço. Já poderia ter pedido algo para entregar no escritório, mas resolvi vir até aqui e encarar isso como a "bela adulta" que me esforço para ser.
Chego na porta do restaurante e, ao olhar para dentro, vejo que está cheio. O rapaz na porta me pergunta:
— Oi, aqui está bem cheio hoje, né? Será que tem alguma mesa disponível?
— Infelizmente não, moça. Mas posso ver se tem alguém sozinho que topa dividir a mesa com você. O que acha?
Sinto um peso no estômago, mas aceito a oferta, sabendo que não queria gastar gasolina para ir até outro restaurante.
Depois de alguns minutos, o rapaz volta com uma proposta.
— Olha, tem um rapaz na mesa da varanda disposto a dividir. Se quiser, te levo até lá.
— Pode ser, — digo, tentando esconder o desconforto crescente.
Ando com ele até a varanda, e quando olho para a pessoa sentada à mesa, não posso evitar a risada. O destino parece estar brincando comigo.
— Esse é o rapaz, qualquer problema é só me chamar, tá? — ele diz, e eu concordo, sem saber se estou mais irritada ou impressionada com a ironia do momento.
Me sento na cadeira de frente para Eros. Não sei se é possível ser mais incômoda essa situação, mas lá estamos. O tempo parecia ter parado, e eu me forçava a sorrir.
— Ainda bem que aceitei dividir a mesa — ele diz, abrindo aquele sorriso que me derrete.
— Ainda bem — respondo, sem jeito. — Você já pediu?
— Já, aqui o cardápio. — Ele me entrega o cardápio e chama o garçom.
Quando o garçom chega, peço um peixe grelhado com batatas rústicas e salada verde.
— Vou ficar envergonhado quando o meu prato chegar — ele brinca.
— Acredite, seja lá o que você pediu, não vai me surpreender — rio, tentando manter o clima leve, mas no fundo, a situação está me deixando tensa.
— Você sempre almoça sozinha? — Eros pergunta, puxando conversa.
— Na verdade, sempre almoço com a Ava, mas ela tinha uma reunião — explico, olhando para ele com atenção.
— A Senhorita Queen é advogada da empresa, né? — ele pergunta, e eu confirmo com a cabeça.
— Não sabia que éramos amigas — ele comenta, e eu sorrio levemente.
— Nos conhecemos na faculdade, tínhamos matéria de Estatística juntas — explico, sentindo uma leveza enquanto falo sobre Ava.
Logo, o garçom traz nossos pratos. Olho para o prato de Eros e não consigo deixar de sorrir de lado.
— Risoto de parmesão, rosbife e batatas fritas, como não imaginei? — brinco.
— É, algumas coisas não mudam, pequeno Lírio — ele sorri de volta, como se nada tivesse acontecido entre nós.
Nego com a cabeça, rindo, e nos concentramos em comer, como se o passado tivesse ficado para trás. Pelo menos por enquanto.
Até que o almoço se desenrola com um sabor inusitado de nostalgia. O risoto está delicioso, e, por um momento, a tensão parece diminuir.
— Vou pedir sobremesa, quer? — ele pergunta.
— Claro — respondo, com um sorriso.
Ele chama o garçom, que aparece rapidamente.
— Quero um banana split pequena e um Sundae de morango — Eros pede, com um sorriso no rosto.
Fico surpresa e, sem querer, meu olhar se fixa no dele.
— Banana split? Essa é a minha sobremesa favorita. Não acredito que você se lembra disso — digo, sorrindo.
— Acredite, quando se trata de você, eu lembro de cada detalhe. Mesmo que nunca tenha me contado, sempre notei que você pedia isso quando saíamos — ele diz, e eu me sinto, de repente, boba e encantada.
Sem querer, abro um sorriso bobo, lembrando de tantos momentos simples.
— Se bem que não é tão difícil saber, né? Era a única sobremesa que eu pedia — digo, rindo.
— É verdade, da mesma forma que só tomava milkshake de morango e amava sorvete de chiclete — ele comenta.
— Não é só você que lembra das coisas, eu também lembro. Lembro que você amava musse de maracujá e que nunca comia a borda da pizza — digo, rindo.
— Ainda não como, e toda vez que a diarista vai no meu apartamento, peço para fazer a musse de maracujá — ele confessa, com um sorriso.
— Realmente, algumas coisas nunca mudam — rio.
Terminamos as sobremesas e saímos juntos do restaurante. Nos despedimos ali mesmo, já que Eros tinha uma reunião fora da empresa.
Caminho com calma, sentindo a familiaridade do momento, mas, quando meu celular apita, uma sensação de nervoso volta. Pego o celular, desbloqueio e abro a mensagem:
"Que bom saber que banana split é sua sobremesa preferida. Assim, não vou errar quando jantarmos juntos."
Olho ao redor, sentindo um arrepio. Nada parece fora do normal.
"Quem é?"
Envio a mensagem, mas logo aparece a notificação: "Não é possível contatar esse destinatário."
Merda. Era só o que faltava me acontecer agora. Suspiro, apresso os passos, e só consigo pensar em chegar à segurança da minha sala na empresa.