Liria Evans
— Bom dia, pessoal. Prometo que serei breve. Só quero deixar claro que as coisas vão continuar do jeito que estão. Não vim para causar problemas, sou tranquilo de trabalhar. Só peço que o respeito e o profissionalismo sejam mantidos. — Eros disse, com um sorriso confiante, como se fosse o centro do universo.
Os aplausos que se seguiram eram altos, mas para mim, aplaudir aquele homem era como engolir algo amargo, algo que me machucava. Eros Mancini estava de volta, agora não só na minha vida, mas também no comando de tudo. Que ironia. Como ele sempre fazia, sorria com aquela segurança que, até ontem, eu achava encantadora. Agora, me dava ânsia.
— Bom, por hoje é só, pessoal. Podem voltar ao trabalho. — Sr. Jonas completou com um sorriso, interrompendo os murmúrios e os aplausos.
Senti uma onda de alívio ao ouvir isso. Saí do auditório rapidamente, me misturando à multidão, tentando escapar do ambiente cheio de risadinhas e olhares curiosos. Eu sabia que todos estavam comentando, especulando, mas preferi ignorar. A última coisa que eu queria era ser o centro de mais uma fofoca no escritório.
Cheguei à minha sala e me joguei na cadeira, tentando relaxar os músculos tensos. O ambiente estava abafado, e o peso das horas que passavam pareceu me consumir. Deslizei a mão pelo teclado do meu notebook, ligando-o com a mente ainda ocupada. Hoje, o trabalho seria a minha fuga. A única coisa que eu sabia que conseguia controlar era o que eu fazia na empresa, e o trabalho seria a minha distração, mesmo que por pouco tempo.
...
— Ei, Líria! O que acha de almoçarmos hoje? — Yan perguntou, entrando na minha sala com um sorriso simpático.
Yan era da área de TI, e embora não conversássemos tanto, ele sempre parecia amigável. Mas desde que eu entrei na empresa, evitei qualquer tipo de almoço ou jantar com o sexo oposto. Algo que não estava disposta a lidar, especialmente com o que aconteceu com Eros. Ele ainda era uma sombra, e a ideia de estar sozinha com outro homem era o suficiente para me afastar de qualquer coisa que envolvesse uma refeição.
— Obrigada pelo convite, Yan, mas estou esperando a Ava. Vamos almoçar juntas hoje. — Respondi rapidamente.
— Na verdade, ela já foi. Acho que todos já foram, na verdade. Estamos um pouco atrasados, você sabe como é. — Ele riu.
— Que péssima amiga. — brinquei, tentando descontrair. — Mas, de qualquer forma, obrigada pelo convite. Tenho muito trabalho hoje.
Yan riu, mas parecia que ele queria insistir.
— Líria, vamos. Você sempre recusa meus almoços. Está na cara que não quer sair com a gente, não precisa se esconder atrás disso. — disse ele, se aproximando um pouco mais, quase como se fosse para insistir.
Foi nesse momento que a porta se abriu, e a voz de Eros preencheu o ambiente.
— Chefe, achei que já tivesse saído para o almoço. — Yan disse, tentando dar um tom de brincadeira.
Eros estava ali, com os braços cruzados, observando-nos.
— Vou almoçar por aqui. Tenho muito trabalho e acabei pedindo comida, mas acho que o Yan deve ir antes que o horário dele acabe, não é? — Eros disse, com um sorriso sutil, como se estivesse tentando colocar os dois em uma posição desconfortável.
Yan se despediu rapidamente, e, em um instante, ficamos sozinhos, eu e Eros. O ar estava carregado de uma tensão que eu não conseguia ignorar. Como ele podia ser tão confiante depois de tudo o que aconteceu? Como ele ainda conseguia se comportar como se nada tivesse mudado?
— Então, vamos almoçar? — Eros perguntou, com aquele sorriso charmoso que sempre me fez perder o juízo.
Eu suspirei, tentando conter a irritação.
— Como eu já disse, estou sem fome e tenho muito trabalho. Pode me dar licença? — Falei, apontando para a porta, esperando que ele entendesse meu recado.
Ele deu um passo à frente, aproximando-se perigosamente.
— 10 minutos, Líria. Na minha sala. Não vai atrasar seu trabalho. — Ele insistiu, com uma calma irritante.
Eu fechei os olhos por um instante, tentando controlar as emoções que estavam borbulhando dentro de mim. Eu não queria estar perto dele, nem por um segundo. A mágoa ainda doía, e ele sabia disso. Eu o afastei com um gesto rápido.
— Eros, por favor, não faz isso. Eu estou magoada com você. Só quero que possamos conviver em paz no trabalho, cada um no seu canto. Isso já vai ser difícil o suficiente. — Disse, afastando-o com a palma da minha mão.
Ele me olhou, os olhos fixos nos meus, mas não disse nada. Então, como um raio, ele virou-se e saiu da sala. O som da porta fechando foi um alívio.
Eu respirei profundamente, sentindo a tensão começar a diminuir, mas sabia que era só uma questão de tempo até que ele aparecesse novamente, como o fantasma do meu passado.
Eu liguei para o Subway e pedi um lanche. Não estava com fome, mas não queria enfrentar mais um almoço forçado com Eros, nem com ninguém.
...
Passei o resto do dia atolada em um projeto importante. Felizmente, Eros teve a decência de não aparecer mais. O trabalho me consumiu, e a ideia de passar o dia sem ver aquele homem foi um consolo.
Quando o final do expediente se aproximou, Ava entrou na minha sala.
— Amiga, vai embora não? — ela perguntou, parecendo animada.
— Nossa, estava tão atolada que perdi a hora. — Eu disse, ligando meu notebook rapidamente e começando a juntar as coisas.
— Vim aqui ver se você pode me dar uma carona. Meu carro está no conserto, só pego amanhã à tarde. Vim de Uber, mas... sabe como eu detesto Uber, né?!** — Ava fez uma cara de pidona, e eu ri antes de concordar.
— Vamos aproveitar, já que estamos juntas. Que tal uma pizza? — Perguntei.
— Para mim é excelente. Estava pensando em fazer miojo, mas estou preguiçosa. — Ela respondeu com um sorriso.
— Você tem péssimos hábitos alimentares, Ava. — Eu a repreendi de forma divertida.
— E você é uma senhora chata. Tão magra que, se virar de lado, os pingos de chuva não te pegam. Está precisando de muita pizza. — Ava brincou, e eu não pude deixar de rir.
Saímos do escritório, e no elevador, encontramos Yan.
— Yan, por aqui até agora? — Ava perguntou, surpresa.
— Estava atualizando o software de segurança da empresa. Acabei me enrolando e perdi a hora para ir embora. — Ele explicou.
— Eu só quero comer, tomar um banho e cair na cama. Hoje foi puxado. — Comentei, esfregando os olhos.
— O que vocês acharam do novo chefe? — Ava perguntou, como quem não quer nada.
— Exigente. Ele apareceu na minha sala fazendo mil e umas perguntas. A ideia de atualizar o software foi dele, e nem era dia disso. — Yan resmungou, claramente irritado.
— Ele é presunçoso. — Eu comentei, dando de ombros.
— Eu o achei o cara, viu. Já fechou um supercontrato de uma creche. Estava olhando o contrato hoje. — Ava disse, quase com um brilho nos olhos.
Eu e Yan nos entreolhamos e rimos. Sabíamos que Ava estava falando aquilo porque, como advogada da empresa, a comissão dela seria enorme.
Quando o elevador chegou ao térreo, nos despedimos de Yan e partimos para a pizzaria. A música "God is a Woman" tocava no fundo, e Ava adorava essa música.
A pizza estava deliciosa, e eu não pude resistir. Logo, estava me deixando levar pelas ideias da Ava e nos entregamos ao rodízio de pizza. Eu realmente amo pizza, então não foi difícil me convencer.
— Eu amo rodízio. Minha barriguinha fica cheia e eu fico feliz. — Ava dizia, empolgada.
— Eu também adoro pizza, então estou bem feliz de estar aqui. — Comentei, assim que o garçom colocou um pedaço generoso de pizza de palmito no meu prato.
— Já cruzou com o chefe bonitão hoje? Aquele que te botou um chifre? — Ava perguntou com uma cara sugestiva, levantando uma sobrancelha.
— Aquele presunçoso apareceu na minha sala achando que eu ia almoçar com ele. — Revirei os olhos, lembrando-me do episódio.
— Ah, amiga, qual é? Quando ele te colocou um chifre, vocês eram jovens. Está na hora de deixar essa mágoa para lá. — Ava disse, colocando um pedaço de pizza na boca.
— Ele era meu melhor amigo, Ava. Meu primeiro amor. Quando minha mãe me abandonou, ele foi quem me deu apoio. Confiava nele de olhos fechados. Então, receber aquela foto dele aos beijos com outra... e depois ele admitir a traição. Aquilo acabou comigo. — Falei, a voz quebrando enquanto os olhos ficavam marejados. Fechei-os, tentando controlar as lágrimas.
Ava ficou em silêncio, apertando minha mão com cuidado.
— Amiga, eu não sei nem o que dizer. Não imagino como deve ser passar por algo assim. Mas você ainda gosta dele. Vai se torturar por quê? — Ela disse, me encarando com ternura.
— Porque eu não consigo confiar em homens, Ava. E isso dói. — Respondi, com um suspiro.
A conversa seguiu com mais risadas, e, apesar da dor que ainda sentia, a noite terminou em um tom leve. Nos despedimos na porta da casa de Ava, e eu fui para a minha, ansiosa por um banho quente e uma boa noite de sono.