Capítulo 4 – Urso

1234 Palavras
URSO A madrugada tava daquele jeito. Silêncio quebrado só pelo barulho dos grilos, dos latidos dos cachorros e do motor das motos subindo e descendo o morro. Eu já tava pronto pra ir pegar uma p**a de jeito, dar uma relaxada, esquecer um pouco a correria. Mas aí vi ela. Olívia. Passando chorando, o rosto vermelho, andando sem rumo pelas vielas. Já tinha um tempo que eu notava essa menina. Desde a pizzaria. Adorável. Linda. Gostosa pra c*****o. Branquinha, com uns olhos grandes de gata, boca carnuda, nariz empinado e aquele cabelo preto escorrendo até a cintura. s***s duros, empinados, um baita bundão que me fazia imaginar umas merdas pesadas. Nunca fui de namorar, nunca soube chegar numa mulher. Desde que me entendo por gente, sou do tráfico. Com dez anos, já era vapô. Fui subindo, crescendo no corre, pegando experiência. Aqui no morro, mulher nunca faltou. Sempre tinha as putas, as marmitas que queriam status, mas nada que me prendesse. Mas Olívia… Ela era diferente. Eu não sabia como me aproximar, então arrumei meu jeito. Pedia pizza quase todo dia, dava o mesmo valor em gorjeta. Sei lá, achava que ela ia notar, perceber que eu tava ali. Mas sempre que eu fazia isso, ela só me olhava assustada. E agora tava ali, chorando no meio da rua. Sozinha. Soltei a fumaça do baseado devagar, observando cada detalhe dela. Alguma coisa tava errada. — Olívia. Ela congelou. Fugir de mim não era uma opção e ela sabia. Vi ela pensar por um segundo, mas no fim resolveu encarar. Boa escolha. Quando chegou perto, a cara dela tava pior ainda. O olho inchado, o rosto molhado de lágrima. — Coé, por que tu tá chorando? Minha voz saiu firme, mas não era só curiosidade. Tinha preocupação real. Ela desviou o olhar, fungando, tentando esconder o rosto. — Nada. Não se preocupa. Posso ir? Dei mais um trago, soltando a fumaça devagar. Algo me dizia que não era uma parada boba. — Brigou com teu namorado? Ela franziu a testa, confusa. — Que? Dei um meio sorriso. — Quer que eu arrebente ele pra tu? Ela só balançou a cabeça. — Não tenho namorado. Apaguei o baseado na ponta do tênis, sem tirar os olhos dela. — Então quem te fez chorar? Ela respirou fundo. Parecia que tava tomando coragem. E aí soltou de uma vez. — Fui vendida. O quê? Que p***a é essa? — Que? — Isso aí que tu ouviu. Meu pai me vendeu pro Madrugadão. Fiquei quieto. Meu peito apertou na hora. Eu nem sabia que p***a falar. Só sabia que doeu. Doeu de verdade. Olhei pra ela e só queria… sei lá. Queria arrancar essa dor dela. Queria segurar ela ali e falar que tava tudo bem. Que eu ia dar um jeito. Mas eu não podia. Não sabia que acordo Wando tinha feito com o Madrugadão. Não sabia de nada. Mas sabia que Madrugadão era um desgraçado, estuprador e agora Olívia ia ser dele. A boca secou. O peito queimou. Quis chorar. Eu, Urso. Não lembrava a última vez que tive vontade de chorar. E agora eu queria. Fiquei ali, olhando ela, sentindo um nó subindo na garganta, a mão fechada em cima do guidão da moto. Eu não podia encarar ela. Não podia olhar pra essa mina sabendo que ela ia ser de outro. Que ela ia sofrer pra c*****o na mão do filho da p**a. Que eu não podia fazer nada. Então virei as costas. Liguei a moto. — Tenho que ir. E fui. Fugindo. Porque se eu ficasse ali mais um segundo, eu não ia aguentar. Saí dali bufando, com uma raiva que eu não sabia nem explicar. Ódio de mim mesmo. Por que c*****o eu nunca fiz nada? Sete anos como dono dessa p***a desse morro. Desde os dez no crime. Já encarei polícia, já troquei tiro, já vi n**o morrer do meu lado. Mas quando foi sobre ela, eu me fiz de cego. Nunca tentei nada. Ficava nessa de pedir pizza e dar gorjeta alta, achando que isso ia fazer ela me notar. Mas ela só olhava pra mim com aquele mesmo olhar de sempre, cheio de medo. E agora? Agora já era. Agora ela ia ser do Madrugadão. Só de pensar nisso o estômago embrulhou. Esse cara é um lixo. Um monstro. Todo mundo sabe. As mulher dele? Tudo tratada na porrada. Já teve uma que tentou fugir e ele deu fim. Outro dia, a amante dele apareceu no baile com um roxo na cara que todo mundo fingiu que não viu. E agora era Olívia que tava indo pra lá. Minha Olívia. Apertei o guidão da moto com tanta força que os dedos doeram. O maxilar travado, o peito apertado. Pior que eu não podia fazer p***a nenhuma. Não sabia que acordo aquele merda do Wando tinha feito. O que que ele trocou? Proteção? Pó? Dinheiro? Não sabia. Só sabia que, se eu tivesse sido homem o bastante, ela podia ter sido minha antes. Eu podia ter chamado ela pra trocar uma ideia, pra sair, podia ter dado um jeito de mostrar que eu não era só o dono dessa p***a toda, que eu não era mais um traficante qualquer. Mas não. Agora quem ia ter ela era um desgraçado. Dei um soco no tanque da moto, a mão ardendo na hora. Caralho. Isso não podia tá acontecendo. Cheguei no meu destino. O bar tava lotado, cheio de risada, funk no talo e cheiro de cerveja misturado com perfume barato. Mas minha cabeça tava longe. Muito longe. Quando vi o Alemão, ele tava como sempre, sentado no canto, cerveja na mão, duas mulheres no colo e mais duas disputando atenção. Desci da moto, andei até ele e puxei uma cadeira. Sentei, larguei meu capacete na mesa. Ele olhou pra mim e riu. — Coé, chefe? Que tá pegando? Peguei uma garrafa de cerveja, mas nem tomei. Só girei ela na mão, o maxilar travado. — Mulher, cara. Ele franziu a testa. — Mulher? Tá falando da Olívia? Alemão me conhecia bem demais. Sempre notou que meu olhar parava nela mais tempo do que devia. Mas agora não adiantava mais. Soltei o ar com força. — O pai dela vendeu ela pro Madrugadão. Perdi, cara. Alemão largou a cerveja e bateu no meu ombro, forte. — Se ela fosse tua, ele não ia poder tomar. Na hora que ele falou isso, minha mente pipocou. Travei. Fiquei olhando pra garrafa de cerveja, mas nem enxergava mais nada. Os pensamentos tavam indo a milhão. Se ela fosse minha… Se eu tivesse um jeito de impedir… Porra. Levantei de uma vez, derrubando a cadeira. — Ih, c*****o! — Alemão riu. — Pensou em alguma coisa, né? Não respondi. Saí. Nem olhei pra trás. Montei na moto e fui direto pra minha casa. Quando cheguei, tranquei a porta, larguei a chave na mesa e joguei o capacete no sofá. Caminhei de um lado pro outro, o coração batendo forte. Tinha um jeito. Eu ia falar com Olívia. Ia propor um trato. Ela fingia que era minha. Se mudava pra minha casa, entrava na minha vida, deixava o morro inteiro acreditar que era minha mulher. E eu livrava a cara dela. Madrugadão não ia poder tocar nela. Porque dono de morro não pega mulher de outro dono. Simples assim. Eu ia proteger ela. Nem que fosse na marra.
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