OLÍVIA
O sol nem tinha subido direito e eu já tava na rua. A mochila jogada num ombro, o corpo cansado e a mente ainda pior.
A noite passada tinha sido um pesadelo.
Meu próprio pai me vendeu.
Aquilo ecoava na minha cabeça a cada passo que eu dava, como se o chão do morro batesse e repetisse a desgraça que ele fez comigo.
Mas eu não ia me entregar fácil. Nem fudendo.
Ajeitei a blusa no corpo e segui descendo, tentando ignorar o aperto no peito, o nó na garganta, a vontade de sumir do mundo.
Foi quando vi a moto preta parada na viela.
E ele.
Urso.
Encostado na moto, olhar fixo em mim, peito subindo e descendo como se tivesse corrido um morro inteiro.
Na mesma hora, meu sangue ferveu.
Ontem ele fugiu de mim.
Agora aparece aqui com essa cara de quem tem pressa?
Acelerei o passo, fingindo que ele não existia.
Mas óbvio que ele não ia deixar barato.
— A gente precisa trocar uma ideia. — Ele falou rápido, como se tivesse medo de eu sair correndo.
— Não temos nada pra falar. — Fui seca, continuei andando.
Mas ele não se mexeu.
— Para, Olívia.
Não parei.
— Tu me ignorou ontem na madrugada e agora vem exigindo coisa? Sai fora, cara.
Foi aí que ele desceu da moto de uma vez e agarrou meu braço.
Firme. Forte. Mas sem machucar.
A raiva no olhar dele me fez travar.
Urso nunca tinha me tocado assim.
— Se você for minha, ele não pode ter você.
As palavras bateram no meu peito feito tiro.
Fiquei em choque.
Pisquei, tentando absorver.
— Que p***a cê tá falando, tá maluco?
Ele respirou fundo, parecia que tava segurando um monte de coisa dentro dele.
— Se você for minha mulher, o Madrugadão não pode tocar em você.
Minha cabeça girou.
— E agora tu tá achando que pode me comprar também? — minha voz falhou. — Você acha que eu fui vendida porque quis? Tá me tirando, p***a!
Ele fechou a cara, desviou o olhar, o maxilar trincado.
— Eu preciso pensar.
Ri de nervoso. Pensar? Agora ele queria pensar?
— Pensar no quê, Urso? No preço que meu pai colocou em mim?
Os olhos dele escureceram.
— Não me compara com aquele merda.
A voz dele saiu grossa, firme.
— Eu nunca te faria m*l, Olívia.
E o pior? Eu sentia que era verdade.
Urso era tudo que eu evitava. Dono de morro, bandido, traficante.
Mas nunca tinha me desrespeitado. Nunca tinha encostado um dedo em mim.
Ele passou a mão no cabelo, impaciente, e soltou, de uma vez.
— Se você fingir que é minha, ele não pode encostar em você.
Meu coração falhou uma batida.
— Fingir?
— Se mudar pra minha casa, deixar o morro inteiro ver.
Engoli seco.
— E se o Madrugadão não acreditar?
Urso me olhou fundo, os olhos pesados, carregados de uma certeza que me deu arrepios.
— Ele vai acreditar.
E foi aí que eu entendi.
Essa era minha única saída.
Olhei bem pra ele, tentando entender se aquilo era real mesmo.
— Tu tá falando sério, Urso? — minha voz saiu meio tremida, porque, sinceramente, eu ainda não tava acreditando.
Ele cruzou os braços, encarou meus olhos sem piscar.
— Tô. É isso ou tu vai parar na cama do Madrugadão. Escolhe aí, Olívia.
Um arrepio gelado subiu minha espinha.
Porra. Ele tinha razão.
Respirei fundo, olhando pros lados como se fosse achar outra saída na viela apertada. Mas não tinha.
Peguei o celular do bolso e desbloqueei a tela.
— Me dá teu número, eu não posso conversar agora, tenho aula.
Ele tirou o dele da jaqueta, digitou rapidão e me chamou no w******p.
O nome? Só um “U” e um emoji de urso do lado.
— Depois da escola a gente se fala. — Ele disse, sério pra c*****o.
— Tá.
Eu virei as costas, pronta pra sair dali antes que minhas pernas desistissem de mim.
Mas antes de eu dar o primeiro passo, ele soltou.
— Não fala nada pra ninguém.
Olhei por cima do ombro.
— Não sou otária.
E segui andando, coração martelando no peito, a cabeça a mil.
Eu ia mesmo fazer isso?
Fingir ser mulher do Urso?
Me mudar pra casa dele?
Era isso ou ser jogada nos braços de um monstro.
Porra.
O mundo girava e, mais uma vez, eu tava presa no mesmo lugar.
O tempo na escola passou voando, mas não porque eu tava prestando atenção na aula. Minha cabeça tava longe, girando mais rápido que ventilador no 3.
Assim que pisei fora do portão, puxei o celular e mandei mensagem.
"Saí da aula."
A resposta veio em segundos.
"Espera aí na praça. Já tô indo."
Fechei os olhos e respirei fundo. Mó frio na barriga.
Segui pro lugar combinado e, antes mesmo de sentar num dos bancos de cimento, escutei o ronco da moto.
Urso parou bem na minha frente e me encarou.
— Sobe, Olívia. — A voz séria, sem espaço pra discussão.
Engoli seco e fiz o que ele mandou.
Passei uma perna por cima da moto e colei meu corpo no dele pra não cair. O cheiro dele bateu forte — baseado com perfume cítrico, combinava muito com ele.
Ele engatou a marcha e acelerou, me levando pra longe da minha realidade.
Mas quando percebi onde ele tava parando, meu estômago deu um nó.
Um motel.
Um motel, c*****o.
Minhas mãos suaram, minha respiração travou.
Ele desceu e me olhou de canto.
— Relaxa. A gente só vai conversar. Precisava de um lugar tranquilo, neutro e longe do morro.
Dei um passo pra trás, hesitante.
— E precisava ser aqui?
Ele bufou, impaciente.
— Cê queria discutir tua vida lá na boca, rodeada de curioso? Ou em casa, com tua mãe e tuas irmãs ouvindo tudo? Aqui ninguém incomoda. Vamo logo, p***a.
Engoli em seco e segui ele pra dentro.
O quarto era uma mistura de luxo barato e cafonice. Luz vermelha fraca, espelho no teto, uma cama king size no centro. Do lado, um frigobar com garrafas pequenas de uísque e energético.
E no canto, um pole dance cromado brilhando no meio da iluminação neon.
Urso nem deu bola pra nada disso. Sentou na beira da cama, abriu as pernas e apoiou os cotovelos nos joelhos.
Fiquei parada, sem saber onde enfiar as mãos.
— Senta aí, p***a.
Obedeci, me sentando na pontinha da cama, tensa pra c*****o.
Ele me olhou firme.
— A gente precisa fazer uma aliança secreta.
Franzi a testa.
— Que p***a é essa?
— Tu tem que convencer tua mãe, teu pai e tuas irmãs que a gente já tava junto faz tempo. E tu tem que ir morar comigo o quanto antes.
Minha boca ficou seca.
— Morar contigo?
Ele assentiu.
— Se tu for minha, ninguém pode te tomar.
Tremi dos pés à cabeça.
— E o que tu ganha com isso?
Ele se encostou pra trás, os olhos escuros fixos nos meus.
— Te tirar das mãos daquele desgraçado.
Fiquei em silêncio, digerindo aquilo.
— E... a gente ia dividir a mesma cama?
Ele riu de leve, mas não parecia divertido.
— Não, Olívia. Não estou te comprando. Não vou te encostar um dedo, relaxa. Mas o morro inteiro tem que acreditar que tu é minha.
Minha cabeça girava.
Isso era loucura.
Mas ser jogada nos braços do Madrugadão era pior.
Eu tinha escolha?