Capítulo 9
Narrativa do Jimi Bravo
Eram 8 horas da manhã. Já faziam 15 dias que minha novinha esteve aqui. Não falei mais com ela pelo telefone, mas já sei que ela foi morar na casa que eu dei. O Gino disse que ela não sai de lá. Outro dia ela saiu pra tomar um sorvete na praça, e as marmitas começaram a jogar piada, porque toda semana eu chamo uma delas pra vir aqui. Claro que mando um malote de dois mil pra cada uma que vem. A Marta é a minha preferida, mas já falei pra ela ficar na dela: se jogar piada pra minha novinha, vai dar r**m. Mas meu amigo disse que ela estava no meio das marmitas e falou uma gracinha. Só que minha novinha não entendeu nada ou, se entendeu, ficou calada. Tomou seu sorvete e subiu pra casa.
Escutei o carcereiro batendo nas grades. Levantei e perguntei:
— Qual é? Tá batendo aí essa hora da manhã?
— Banho de sol pra todo mundo, menos pra você.
Eu não entendi nada. Por que ele falou assim comigo? Depois que todos saíram, ele disse:
— Tua liberdade tá aí. A Lili cantou pra você.
Não acreditei quando ouvi isso. Fiquei parado olhando pra ele e ele disse:
— Vambora logo. Me dá o braço aí. Homem da cadeia não leva nada.
Deixei tudo pra trás. Passei pelos meus amigos no pátio e fiz o sinal que nós sabemos o que é: a Lili cantou. Encontrei meu advogado na sala do diretor, assinei todos os papéis e saí pela porta da frente, como eu tinha dito que ia fazer. Meu advogado me deu uma carona até meu apartamento em Botafogo, me deixou na portaria e foi embora.
Entrei no apartamento, que estava limpo. Tenho uma diarista que vem toda quarta-feira, e essa semana pedi pra ela deixar comida pronta e congelada, o que ela fez. Entrei no meu quarto, tomei um banho de banheira e fiquei ali umas duas horas tirando a inhaca da cadeia.
Liguei pro Gino e falei:
— Tô na rua. A Lili cantou. Tô no meu apartamento aqui em Botafogo. Pega minha novinha e traz ela aqui. E não diz pra ninguém que a Lili cantou pra mim. Não deixa a Marta saber, porque se ela souber, vai vir aqui — porque ela sabe desse apartamento.
— Pô, cara, você foi solto? Podia ter me avisado, a gente fazia um baile hoje!
— Claro que não, amigo. Não pode ter baile hoje. O baile é só amanhã, porque vou apresentar minha novinha como minha fiel.
— Tá maluco, rapaz? Como que você vai apresentar a novinha como tua fiel? Primeiro vocês têm que conversar, ficar um tempo aí curtindo, depois você apresenta. O que você vai fazer?
— Só traz a minha novinha. Manda ela trazer roupa, ou manda ela vir do jeito que tiver. Aqui nós sai e compra roupa.
Não demorou muito até meu parceiro chegar com a minha novinha. Quando ele abriu a porta, ela me viu, arregalou os olhos, se assustou e perguntou:
— Você foi solto?
Respondi:
— Sim. Tô solto. A liberdade cantou. Agora é nós dois. Vamos sentar e conversar.
— Aí, Gino, pode voltar pro morro. Não diz nada pra ninguém que eu ganhei liberdade. Não faz baile amanhã também não. Vou viajar com ela. Depois a gente conversa, valeu. Trouxe o negócio que eu te pedi?
— Trouxe sim. Tá aí o malote. E teu carro blindado tá na garagem.
— Valeu mesmo. Vou voltar de moto com o vapor. Falei pra eles que ia visitar uma mina aqui e disse que a mina era sua.
— p***a, você também, cara... só faz merda.
Assim que ele saiu, olhei pra minha garota e perguntei:
— Tá zangada comigo?
Ela olhou séria e disse:
— Não tenho por que estar com raiva de você. Até porque nós não temos nada. Você me mandou embora daquele jeito no dia que fui te visitar. Fiquei muito chateada, sim. Mas agora não, porque eu sei o porquê de você ter feito aquilo. Eu só vim porque o Gino disse que ia me levar num lugar pra comprar roupas novas, porque você ia sair no domingo e eu teria que estar com roupas novas. Foi por isso. Mas quando vi ele entrando aqui, entendi que era mentira.
— Por que você fez isso comigo? Por que você me ignorou e levou outras mulheres pra ficar com você na cadeia?
Me senti um nada, quando soube o que você fez comigo. Ela continuou:
— Eu quero entender até agora o motivo. Se for pra você ficar comigo e outras mulheres, me dispensa. Deixa eu ir embora. Eu não quero ficar com você. Obrigada, eu já fiz o que você queria, paguei a dívida do meu irmão. Mesmo assim, meu irmão hoje tá morto e eu paguei uma dívida à toa.
Falei pra ela:
— Você tem que aceitar o que eu falar pra você. Eu sou seu homem. Me obedece. Tá pensando que eu sou o quê? Eu sou moleque? Não sou! Sou o dono do morro. E se eu disse que você é minha, você é minha e acabou. Não interessa com quem eu fiquei, mas eu vou sempre voltar pra você.
Ela me olhou com os olhos marejados. As lágrimas desceram e ela disse:
— Por que você tá fazendo isso comigo?
Respondi:
— Porque você é minha e tem que me obedecer. É só isso.
Ela continuou me olhando, olhou pra porta e percebi o que ela ia fazer. Fui até lá, virei a chave, peguei na mão dela e falei:
— Se estiver pensando em fugir, esquece.
Ela veio pra cima de mim, me dando tapas no peito. Segurei as mãos dela e ela começou a gritar. Tomei uma atitude forte com ela. Não gosto de mulher querendo me mandar. Mulher, pra mim, é um pente-rala. Ela ainda tá dando muita sorte de eu estar cuidando dela direito. Dei um tapão e joguei ela longe. Ela caiu no chão, aquele monte de cabelo no rosto. Quando tirou o cabelo, a boca estava sangrando. Ela começou a chorar ali mesmo, no chão, e disse:
— Quando você der por falta, eu já vou estar longe. Não vou ficar com você me humilhando, não.
Me levantei, fui na cozinha, tirei a comida do congelador, botei no micro-ondas pra mim e pra ela. Comecei a comer e perguntei:
— Vai comer?
— Não. Eu não quero comida. Eu quero ir embora.
Olhei pra ela, continuei comendo e disse:
— Você vai ficar aqui comigo hoje. Se amanhã você quiser ir embora, tudo bem. Eu abro a porta e você pode ir. Tá certo?
Ela firmou a cabeça, sentou na mesa, pegou seu prato, se serviu e comeu. Tomou um copo de suco e saiu da sala.
— Aonde você vai? — perguntei.
— Procurar um banheiro, pra eu tomar banho e escovar os dentes. Se tiver uma escova de dente pra mim, claro.
Expliquei:
— É no quarto com a porta escura. Lá você vai encontrar roupas e escova de dente.
Ela foi.
Esperei ela entrar no banheiro e liguei pra Marta, porque amanhã seria dia de visita, e sei que ela iria.
— Oi, Martinha. Sou eu.
— É você, Jimi?
— Sim, sou eu.
— Você tá me ligando a essa hora por quê? Estranhei, você não liga de dia.
— Não, minha gostosa. A Lili cantou.
— Caraca, que legal! Onde você tá? Eu vou te buscar!
— Não precisa vir me buscar. Tô no meu apartamento em Botafogo, mas tô com a minha novinha. Já vou te avisando pra você não vir aqui amanhã. Estarei no morro, certo? A gente conversa. Só tô te avisando pra você não ir amanhã no presídio. Valeu. Tchau.
Assim que desliguei, ela saiu do banheiro com aquele cabelão molhado, enrolada na toalha.
Falei:
— Espera um instante que eu vou sair e já volto. Se quiser descansar, pode descansar. Vou rapidinho com meu parceiro comprar um negócio e já volto.
Saí e deixei ela lá. Fui comprar duas pistolas que já tinha encomendado. Já estavam pagas. Enquanto isso, ela descansava, porque hoje eu vou pegar ela de jeito. Vou deixar ela até sem andar direito.