Capítulo 8
Narrativa do Jimi
Pô, mais de quinze dias sem ver minha novinha, só pegando vadias diferentes. Sei que ela não sabe de nada; se souber, do jeito que ela é, não vai querer vir me ver. Mas vou fazer um teste. Vou dizer para o meu parceiro trazer ela sábado agora.
Cara, ligo para ela e ela não me atende. Fico bolado com isso. Quando atende, fala comigo numa ignorância, não me dá muita confiança. Mas vou fazer o quê? Tô aqui dentro, tô preso, não posso fazer muita graça. Vou acionar o Gino para trazer minha garota e pronto.
Ele ligou para mim e contou uma parada que eu não gostei: o padrasto dela tá dando em cima dela, ou melhor, tentando pegar ela à força. Esse cara vai morrer cedo. Não quero ninguém botando a mão do que é meu.
Daqui a pouco ela chega. Quero ver como ela está, se tá do mesmo jeito que saiu daqui. Na última vez não deu para eu sentir ela direito porque foi sua primeira vez. Vi que ela ficou com medo de mim, mas agora não tenho mais pena, não tenho mais dó. Agora vou bater forte, vou socar fundo para ela sentir que quem tá aqui é o homem dela.
Sou um pouco bruto, mas ela vai ter que se acostumar comigo. Já falei que ela é minha e ninguém toca.
Escutei o primeiro sinal, já saí e fui para minha salinha esperar minha novinha. A porta abriu, ela entrou com a bolsa enorme nas costas e botou em cima da mesinha perto da cama. Não olhou para mim direito, ficou de cabeça baixa o tempo inteiro.
Levantei o queixo dela e vi o rosto machucado. Mesmo com a maquiagem, deu para ver que ela estava com a boca machucada do lado, meia roxa. Os olhos também estavam meio roxos; por causa da maquiagem não dava para ver muito, mas subiu um ódio em mim.
Olhei para os braços dela e estavam roxos. Puxei para ver as costas: estavam todas arranhadas de cinto, parecia que ela apanhou de cinto. Aquilo me subiu um fervilhão no estômago. Dei um soco na parede e perguntei:
— Quem fez isso?
Ela se encostou na parede de susto, olhou para mim assustada e não respondeu. Dei outro grito:
— Quem fez isso?!
Ela se assustou e respondeu no impulso:
— Foi o meu padrasto! Ele tentou abusar de mim e eu não deixei. Ele me bateu, bateu muito... ele me mordeu...
— Ele te mordeu? Como assim ele te mordeu?
— Ele rasgou minha roupa e mordeu as minhas pernas.
Ela puxou a legging para baixo. Eu vi: as pernas dela estavam todas mordidas.
Me subiu um ódio. Comecei a socar a parede até a raiva passar. Quando parei, minha mão estava toda esfolada.
Falei para ela, puto:
—Po, melina, te dei uma casa mobiliada, com tudo dentro, e você preferiu ficar na casa do seu padrasto para passar por isso sem eu poder te defender? Você não era pra ter feito isso! Você deveria ter aceitado! Seu irmão já não tá mais lá, sua mãe também não! O que você tá fazendo naquela casa? Você quer ser estuprada por ele? Aviso logo: eu não quero mais saber de você. Vou te deixar à vontade. Se quiser ir embora agora, pode ir.
Falei isso com muito ódio, muita raiva e magoado. Eu não estava esperando o que aconteceu a seguir: ela me abraçou e começou a chorar. As pernas dela estavam todas roxas. Ele bateu muito nela.
Fiquei muito triste, e ela chorava, molhando minha roupa de lágrimas.
— Me escuta, por favor — falei. — Vai para a casa que eu te dei. O Gino já te deu a chave. Nem precisa pegar sua roupa, vai direto pra casa que eu te dei. Lá tem roupa, tem tudo novo pra você. Você não precisa estar sendo humilhada. Você tá toda roxa, toda arranhada. Você é minha mulher. Você pensa que não, você diz que não, mas você é minha fiel e ninguém mais vai tocar em você. Ele vai morrer picado. Falei pro Gino que quero que matem ele picado. Quer saber? Vou fazer melhor. Falei pro Gino deixar ele vivo. Quem vai pegar ele sou eu. A Lili tá pra cantar; logo estou fora daqui.
Ela continuou abraçada comigo, chorando, e foi se acalmando aos poucos. Botei ela sentada na cama e fui colocar comida para eu comer. Estava com muita fome; não tenho comido direito por preocupação. Tô andando muito preocupado, sinto que tem pessoas dentro do presídio querendo me matar. Minha soltura tem que sair logo.
Sentei e comi. A comida estava muito boa. Ela olhou e eu ofereci, mas ela disse que não queria, que não estava com fome.
— Como assim, mulher? Tu não tá comendo? Só tá comendo no colégio? Você não precisa disso, Melina.
Ela sentou, botou comida e comeu. Fiquei olhando para ela. É tão linda comendo. Os lábios dela são lindos. A minha mulher é linda. Amo. Posso dizer isso agora. Sinto muita falta dela. Mas sou um homem que não sabe viver com uma mulher só. Tenho que tirar esse m*l da minha vida, porque se ela descobrir, não vai mais me querer. Espero que as marmitas fiquem caladas.
Acabamos de comer. Ela guardou a comida. Tinha um potinho com dois pudins. Ela abriu um e deu o pudim na minha boca. Não gostei daquilo, mas comi. Não estou acostumado com carinho de mulher, não acredito muito nelas. Mas, por incrível que pareça, eu comi o pudim da mão da minha novinha.
Ela botou o pote dentro da bolsa, me abraçou mais uma vez e me beijou. Me assustei, porque ela é muito arredia, não gosta de contato comigo. Ela só disse:
— Obrigada por se preocupar comigo. Hoje mesmo eu vou sair daquela casa.
Olhei para ela sério:
— Você nem vai naquela casa. Vai passar direto. Meu amigo vai te levar direto pra sua casa. Por favor, dá esse recado pra ele.
Escrevi num papel, entreguei para ela. Ela me abraçou e me beijou. Já passava de meio-dia.
— Você só me chamou aqui para isso? Para mandar eu ir pra sua casa? — ela perguntou.
Eu olhei e disse:
— Sim.
Senti que ela queria falar algo, mas não falou. Abracei, beijei e me despedi.
— Vai pra casa. Assim que a lili cantar, estarei junto contigo.
Ela ia saindo na porta, mas voltou:
— Por que você não me quer? O que tá acontecendo?
Não respondi. Só falei:
— Me obedece e vai pra casa. Você entendeu? Você é minha esposa. Não tem que dar satisfação a ninguém. Entra pra casa. Só saia se for pra comprar alguma coisa ou pede pro vapor da segurança. Vou deixar dois seguranças na sua porta, que é pra ninguém debochar de você. Certo? Ainda tá estudando ou já chegou as férias?
Ela respondeu:
— Já estou de férias. Terminei meus estudos. Agora quero fazer o curso que eu tanto queria.
Tornei a dizer:
— Quando eu voltar, vamos resolver isso. Mas, por enquanto, fica dentro de casa. Isso eu não tô pedindo: tô te dando uma ordem.
Ganhei ela no beijo. Ela me respondeu, me abraçou e me beijou de novo, gemendo nos meus lábios. Fiquei duro na hora, mas não quis f********o com ela ali. Senti que ficou frustrada, mas é um teste para ver se ela é uma pessoa honesta. Parece que sim.