Sétimo

2501 Palavras
Me senti eufórica no momento em que meus pés começaram a andar até o lado de fora, agora rumo ao seu destino anterior; o elevador do prédio. Eu precisava respirar ar puro, caso não fizesse isso, eu não tenho dúvida alguma que a pouca sanidade que me resta iria toda pelos ares em uma fração bem pequena de segundos. Assim que as portas pesadas daquele cubículo abriram, não demorei nada para entrar, deixei que as minhas costas ficassem apoiadas na parede do fundo e por alguns segundos me permiti fechar os olhos. Aquele dia estava sendo uma loucura. E algo em mim me dizia que não era nem o menor dos meus problemas durante as próximas horas. Pelo visto, Meteo iria mover céus e terra para que tudo fosse ainda mais emocionante do que já estavam sendo. Ao abrir os olhos, levei um susto em ver a pessoa que me perturbava - em pensamento - ali parada, sorrindo totalmente despreocupado. Olhando assim, nem ao menos parece que é o satanás na terra. Não fiquei surpresa por ele estar ali, afinal de contas tudo naquele prédio era dele, logo, era como um rato fugir de um gato em sua própria casa. Algo tosco, para não dizer outra coisa. O homem então se aproximou de mim e engoli em seco, colei as minhas mãos no meu corpo como um escudo. Os meus dedos foram até a minha bolsa disfarçadamente, tentando então pegar uma lata pequena de spray de pimenta que trazia comigo. Veja bem, eu preciso de algo para me proteger, certo? Ainda mais se trabalho até tarde da noite e volto para casa na maioria das vezes sozinha. Logo, não estou errada em querer me sentir um pouquinho segura nessas horas que parecem mais como um filme de terror que nunca tem fim. Infelizmente as ruas nunca foram seguras o suficiente para alguém do sexo feminino. O mundo nunca foi totalmente seguro para uma mulher. A necessidade de me proteger crescia dentro de mim dada a enorme sensação de desconforto e preocupação com a minha segurança, mesmo que achasse que ele não seria burro o suficiente para fazer algo em um lugar com câmeras, não conseguia simplesmente calar aquilo. Porém, tudo o que eu imaginava que poderia acontecer, na verdade, não aconteceu, o que me deixou mais confusa do que o início daquela situação. Por alguns segundos pisquei meus olhos, querendo saber que o que eu estava encarando era uma realidade e não apenas um sonho ou algo que a minha mente resolveu projetar bem diante de mim. Meteo não se aproximou o suficiente, deixou um espaço entre nossos corpos. Agradeci mentalmente por isso. Notei que o elevador tinha parado, provavelmente obra do homem ali na minha frente. Ele me olhou e respirou fundo, parecia tentar encontrar as palavras em sua mente e aparentemente nenhuma das combinações que estava tentando era suficiente para aquele momento. Por alguns segundos até tive dó dele, até me lembrar que estava falando de Meteo Ricci e não qualquer outra pessoa. — É difícil encontrar você. — Falou, cortando o silêncio que aos poucos instalou se entre a gente. Dei de ombros, eu não estava com bom humor e a situação por si só não ajudava nem um pouco. Desculpe chefinho, eu vou descontar uma parte da raiva que eu sinto em você. — Talvez eu nem queria ser achada. — Falei dando uma pequena pausa entre as falas. Os meus olhos continuaram fixos na figura masculina, aquele não era nem de longe o melhor lugar para se ter aquela conversa, disso eu tinha certeza e, no fundo, o homem ali também sabia disso. — Você já pensou nessa possibilidade, senhor Ricci? A última parte saiu um pouquinho mais áspera do que eu queria. Eu sabia que eu estava literalmente andando na corda bamba, porém, não me importava com isso. Não agora e não ali. Ouvi um riso baixo vindo dos lábios masculinos. — Eu quero conversar com você. — Falou dando uma pequena pausa entre as falas, respirei fundo e aos poucos fundo arrumando a postura ainda com os dedos prontos para apertar o spray caso fosse preciso. — Não como chefe e funcionaria, e sim como pessoas. Franzi o cenho, apesar de não dizer nada, eu sabia que a minha cara estava dizendo tudo e mais um pouco naquele momento, pois, vi Meteo sorrir de canto; algo atrevido feito para provocar. — Conversar como pessoas? — Eu repeti suas palavras, com um tom de desconfiança, meu cenho franziu um pouquinho e uma das minhas sobrancelhas se ergueu um pouco, o olhar fixo na figura ali parada diante de meus olhos. — E o que exatamente você quer conversar comigo, além de me perturbar no elevador? Meteo inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, parecendo intrigado com minha resposta. Ele cruzou os braços e ponderou por um momento antes de responder. Talvez estivesse sendo tão difícil para ele quanto estava sendo para mim. Oh! Pobre menininho rico e seus probleminhas. — Sinto que as coisas ficaram estranhas entre nós depois daquele episódio no escritório outro dia. — Disse deixando uma pausa entre as falas apenas para respirar, ele parecia um tanto tímido para dizer o que realmente queria ou eu apenas estava imaginando coisas demais. — Eu queria me desculpar por qualquer coisa que possa ter dito ou feito para te deixar desconfortável, eu não quero que haja essa tensão entre nós e eu quero tenhamos uma boa relação, pelo menos podemos tentar isso? Fiquei um pouco surpresa com a abordagem dele, mas também um pouco cética sobre suas verdadeiras intenções. Isso não era nem de longe o que eu estava esperando ouvir dele. E esse não era o Meteo Ricci que eu conheci durante meus anos trabalhando nessa maldita empresa. Ele estava tentando ser legal? Logo ele? O chefe tirano? — Tudo bem. — Falei um pouco desconfiada daquele comportamento. Então ele se virou e apertou algo logo ao lado do corpo na tela de controle do elevador, franzi o cenho para que assim a minha dúvida fosse enfim respondida, ele tinha acionado o botão para que aquele cubículo de metal andasse. Sorri de canto. — Sabe que pode contar comigo não é? Ri. Ok, alguém pode trazer o Meteo Ricci de verdade? — Ok, ok. — Falei ao mesmo tempo, em que soltava um risinho. — Cadê as câmeras? Podem parar já com essa pegadinha. Vi o rosto masculino franzir em confusão. — O quê está falando? — perguntou. Agora tínhamos só alguns poucos segundos até chegar ao andar principal do prédio. Engoli em seco, Meteo parecia sério demais e se não fosse uma brincadeira? — Isso não é uma brincadeira? — questionei. — Por qual motivo seria? — retrucou assim que ouviu a pergunta. Dei de ombros, meus olhos estavam fixos nele enquanto fazia isso. Eu não sabia a resposta. E eu odiava não saber das coisas. — Você não é uma pessoa solidária ou coisa do tipo. — Falei, vi por alguns segundos o semblante de surpresa se instalar no rosto masculino, pelo visto ninguém tinha falado isso para ele. — Não é aquele tipo de pessoa que é amiga de todo mundo, e com todo o respeito senhor... — Dei uma pequena pausa entre as falas, só faltava mais três andares até que as portas se abrissem e eu estaria livre daquela situação toda. Esperei um pouco antes de falar algo, estava pensando no que dizer e mesmo assim optei pela verdade, por mais que saísse um tanto dolorosa, era melhor do que mentir só para querer agradar. — Você é a última pessoa que eu pediria ajuda ou qualquer coisa parecida. E então ao terminar de falar, as portas do elevador se abriram e eu não esperei para passar. Por alguns segundos um largo sorriso se formou no meu rosto, eu já até mesmo conseguia sentir o vento frio bater nas minhas bochechas, motivando as a ficarem vermelhas durante aquele curto processo. Porém, como a felicidade de pobre dura pouco, a minha durou um milésimo de segundos. Praguejei um palavrão ao olhar Meteo mais uma vez. Na situação atual o homem segurava meu braço, impedindo tanto eu de ir embora assim como o elevador também. Franzi o cenho confusa. O quê ele queria agora? — O quê? — questionei. — Apenas deve se lembrar de não julgar um livro pela capa. — Falou e assim que terminou seu curto discurso me deixou ir embora, voltando para dentro daquele cubículo. Eu não olhei na direção oposta enquanto andava, eu não ousaria fazer isso nem que fosse paga. Mesmo assim, sabia que ele ainda me olhava. A mesma expressão intensa e cautelosa para não passar dos limites. Não entendi muito bem o que ele queria dizer, tampouco procurei uma resposta. Naquele momento em especial, eu só queria verdadeiramente ir embora para casa e ficar na minha cama vendo alguma bobagem na tv antes de dormir, até que o despertador tocasse no dia seguinte. {...} 22:00hrs da noite no mesmo dia. É, eu sei que deveria ter ido para casa e quem sabe relaxar um pouco como eu queria, só que ao invés de fazer o plano inicial acabei optando pela ideia que fazia menos sentido. E talvez se eu explicar você entenda o motivo pelo qual fiz isso ou talvez apenas aponte o dedo e me julgue por estar sendo uma grande desleixada. Enfim, após sair da empresa, o meu corpo todo estava em pura tensão e o olhar de Meteo Ricci ainda estava de certa forma gravado na minha mente como uma espécie de música r**m que era difícil de se livrar daquela imagem e eu odiei essa sensação. Fiquei andando pelo centro da cidade, completamente sem rumo, pensando nas coisas em que aconteceram em menos de vinte quatro horas. Tecnicamente eu meio que dei em cima do meu chefe e isso era o que - talvez - me colocaria no olho da rua, caso contrario ainda tinha a minha pequena explosão no refeitório do andar de marketing, com toda a certeza aquilo não iria passar despercebido pelos olhos do RH, mesmo com eles falando para ficar afastada eu tinha certeza absoluta que acabaria no olho da rua uma hora ou outra. Ri, baixo. É com toda a certeza, eu era louca. Andei mais um pouco, meus braços estavam colados ao corpo junto do casaco pesado que vestia, queria ao menos tentar me afastar um pouco do frio. Até que então me deparei com uma pequena praça, a beleza serena daquele lugar contrastava com a agitação que eu sentia por dentro, decidi sentar em um dos bancos e tentar acalmar os meus pensamentos. Quem sabe eu teria sucesso, pelo menos um pouco. O lugar em questão era tão lindo que me perguntei mentalmente se por acaso não estava em um filme ou algo assim, em cima de uma construção que lembrava muito um círculo, as árvores se juntavam naquele meio e alguns bancos eram agraciados com flores, envolta deles dando um pouco de cor para o lugar. Sorri, ver aquilo me fez me senti um pouco melhor. Um pouco apenas. Me sentei em um dos bancos, e enquanto observava as pessoas passando deixei a minha mente divagar e refleti. Aconteceram tantas coisas que eu não sei ao certo como responder, e nem como iria agir daqui em diante. Por exemplo, a minha explosão no refeitório horas mais cedo talvez tenha sido apenas um grande acúmulo de coisas e infelizmente apenas decidi tacar para fora na pior hora possível. Querendo ou não, a traição de Chris havia mexido comigo. Seria uma tola se fugisse disso. Só iria lidar da melhor forma possível ou pelo menos tentar; evitando o problema até sentir vontade de saber a verdade. Agora eu só precisava respirar um ar, precisava de um momento só para mim, longe de tudo e de todos e toda aquela pressão do escritório e sem seus adendos. E então enquanto caminhava para casa decidi ser um pouquinho impulsiva, mudei o rumo dos meus pés para caminhar pela cidade até chegar naquele lugar que vez ou outra arrancava um sorriso meu. Queria tentar entender o que poderia ter acontecido e o motivo pelo qual o meu melhor amigo fez isso comigo. De todas as pessoas foi logo dele que levei uma facada e doeu. O céu começou a escurecer lentamente, anunciando a chegada da noite, as luzes da cidade se acenderam, criando um cenário acolhedor e mágico. Eu respirei fundo, sentindo o ar fresco da noite acalmar meu espírito inquieto. Então, decidi que era hora de voltar para casa. Levantei-me do banco e comecei a caminhar lentamente pelas ruas, aproveitando o ar noturno e a quietude das ruas vazias. Apesar do pequeno deslize que mencionei antes, eu sabia que era importante aprender com meus erros e seguir em frente. Pelo menos eu poderia tentar. Por causa do horário a movimentação era pouca, ainda assim via se uma pessoa ou outra circulando por aquele bairro. Crianças junto dos pais brincavam de correr, casais apaixonados andavam tão juntos que por alguns segundos - uma fração bem pequena de segundos - senti inveja por não ter aquilo, até que um suspiro saísse da minha boca. O que eu estava precisando é de uma xícara bem grande de chocolate quente e um bom banho para quem sabe ter uma noite longa de sono. Amanhã seria um outro dia que eu esperava ser um pouco melhor que seu antecessor, pois, com toda a certeza eu não iria aguentar de forma alguma mais descobertas avassaladoras como as que tive hoje. Segui rumo ao meu pequeno apartamento, ficava um pouco afastado do centro comercial ainda assim via se um pouco de dignidade no lugar em que morava, coisas como: hospital, restaurantes e alguns mercados pequenos. Ao ver o meu prédio dei um sorriso grande de alívio, tinha sido um dia muito cheio. Não demorei nada para adentrar o lugar, peguei as chaves no meu bolso e arrastei a porta pesada fazendo um barulho desagradável ao mesmo tempo em que fazia isso, se eu estivesse em uma sala isso teria sido constrangedor. Fechei e movi meu corpo para dentro indo até as escadas e subindo até o terceiro andar, não pegava o elevador, aquele era um dos poucos momentos em que eu praticava um pouco de exercício. Passei as chaves pela porta, soltando um palavrão curto enquanto retirava as roupas. Depois eu iria arrumar, eu juro. Abri o chuveiro e deixei que a água quente saísse para tocar o meu corpo, soltei um gemido baixinho com isso. Era muito bom, eu adorava me sentir limpa. Após alguns minutos sai daquele espaço enrolada em um pijama bem quentinho, agora segurava uma xícara mediana de chocolate quente enquanto via um pouco de seriado. Aquele era o meu momento de paz, aqueles poucos minutos em que me desligava do mundo e tirava um tempinho só para mim. Era algo sagrado que eu não abria mão.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR