Quarto

2014 Palavras
Dia seguinte, algumas horas antes do desastre. Assim que o relógio veio com o seu som costumeiro - irritante - eu não soltei nenhum grunhido de raiva, muito menos tive a vontade de tacar ele na cara da minha vizinha fofoqueira, muito pelo contrário eu apenas acordei com um sorriso enorme no meu rosto. Feliz da vida por mais um dia ter começado. Pulei da cama tão rápido que quem visse aquela cena provavelmente se assustaria, afinal de contas era quase um parto para que eu levantasse da cama, não me orgulho muito disso ainda assim é a mais pura e dolorosa verdade. Fiz a mesma rotina antes de sair e ir trabalhar, arrumei as coisas em casa e tirei um tempo de dez minutos para realizar os meus cuidados pessoais, logo então já estava pronta para mais um dia naquela empresa. Eu esperava mesmo que a carta tivesse sido lida assim como também eu esperava ter logo uma resposta. É, eu sei eu estava tão ansiosa e animada com isso que provavelmente toda essa energia seria o suficiente para dar conta de distribuir rede elétrica para toda a cidade, algo que sinceramente falando?Seria um tanto cômico. Dessa vez optei apenas por um café, não iria comer nenhum dos doces já que tinha trazido de casa. Fazer o que, eu preciso economizar em algum lugar não é? Pensei enquanto andava até a entrada do prédio. Guardo uma parcela do meu salário na poupança todos os meses, sem exceção. Já a outra parte uso para coisas pessoas, como: pagar as contas, comprar comida e tentar sobreviver até o final do mês de uma forma ao menos digna. Cumprimentei algumas pessoas, outras apenas virei a cara. A educação não iria falar por mim caso eu ousasse em trocar palavras com aqueles seres humanos, simplesmente tem gente que sempre acaba puxando o pior da gente, quer queira ou não. Eu não sou uma pessoa que gosta de arrumar confusão, pelo menos não atoa. Juro por todos os meus doces que tento ao máximo ser ou melhor dizendo, parecer uma pessoa calma mesmo que várias coisas me motivem a ser o contrário disso. Demorou um pouco até que chegasse no andar de marketing, naquela hora do dia digamos que o elevador parava mais do que transporte público em ponto. A cada meio segundo as portas se abriam e uma pessoa saia de dentro daquela caixinha metálica. Pelo menos a parte boa dessa demora - tirando a minha dor nos pés - é que acabei tomando café da manhã ali mesmo, em um canto escondida dos outros. Mordiscava o sanduíche de patê de frango e vez ou outra bebia um pouco de café, tomando todo o cuidado do mundo para não acabar consequentemente sujando alguém. Vez ou outra uma pessoa olhava na minha direção e eu tímida sorria sem jeito quando era legal, ou quando não estava com a boca no sanduíche. Entenda eu não estou fazendo isso por falta de opção e sim por fome, afinal de contas faltava muito para chegar ao meu andar e eu não iria esperar de jeito algum, o meu estômago não iria aguentar. Mesmo que tivesse que ouvir outras pessoas comentando ali mesmo dentro do elevador, não me importava nem um pouco com isso afinal de contas não era e nem seria a primeira vez que alguém faz isso comigo. Ao terminar de comer limpei os dedos com um guardanapo que tinha na bolsa, fiz o mesmo com o resto do rosto e assim que as portas do elevador se abriram no andar de marketing não tardei em começar a andar, antes é claro me virei com um sorrisinho no rosto. — Cuidado queridas, podem acabar morrendo com tanto veneno desse jeito. — Falei e assisti com um sorriso largo em meu rosto a expressão de surpresa surgiu no semblante de cada uma. Com toda a certeza aquilo tinha melhorado mil vezes o meu dia. Ri alto atraindo a atenção de algumas pessoas ali, movi a cabeça para os lados e praticamente saí saltitando até a minha mesa ao chegar lá me deparei com Chris me olhando com uma expressão assustada. Aparentemente eu nunca expressava felicidade só isso iria explicar a expressão no rosto do meu querido amigo. Movi a cabeça na direção dele assim que me sentei na cadeira. – Bom dia. – Falei já me preparando para trabalhar. Hoje nada iria me estressar. Nada iria tirar o meu bom humor, nem mesmo as exigências ridículas que Meteo as vezes fazia. Hoje seria um dia maravilhoso e nada atrapalharia isso. Vi o rosto de Chris franzir ao me olhar. – O quê? Fiquei sem entender, soltei consequentemente um riso baixo e confuso; algo rouco. – O quê, o quê? – questionei sem entender. – O quê diabos aconteceu com você? – ele perguntou, seus olhos ainda continuavam fixos em mim, e a sua expressão era como se por acaso não acreditasse nas coisas que via muito menos nas coisas que ouvia. Admito que isso me fez rir por alguns segundos até eu notar que era sério. Constrangida dei de ombros um tanto tímida. – Eu apenas estou feliz. – Disse. – Isso por acaso é algo errado? – Você não está se iludindo está? – perguntou. Ao ouvir tal coisa soltei um suspiro profundo, fechei os olhos por alguns segundos e voltei o olhar na direção do meu amigo. Eu sabia que aquilo era uma preocupação, por isso não me importei nem um pouco em responder aquilo. – Não. – Falei e vi ele soltar o ar que prendia, por alguns segundos tal coisa me fez franzir o cenho, algo que durou muito pouco já que eu não demorei nada para começar a falar novamente, ainda com os olhos fixos em Chris que fingia trabalhar apenas para não atrair olhares curiosos muito menos - consequentemente - atrair problemas para gente. – Eu não estou me iludindo com nada, apenas estou feliz e segundo... – A outra parte eu não disse nada, pois, pedi para que ele se abaixasse por um segundo desta forma então ficaríamos escondidos entre os cubículos e ninguém iria olhar. Naquele andar assim como em toda a empresa tinha fofoqueiros demais e eu sinceramente falando não queria ninguém cuidando da minha vida mais do que já cuidavam. Mesmo desconfiado Chris fez o que eu pedi de bom grado. Sorri ao encontrar os olhos do meu amigo. Com toda a certeza ele pensava que eu era maluca, melhor dizendo tinha a plena certeza de que eu era maluca. – Eu sou grandinha. – Falei ouvi um suspiro vir do outro lado. – Eu consigo suportar a dor de um fora se for esse o caso, Chris. Ele não disse nada apenas afirmou com um sorriso no rosto. – Eu confio em você, eu só não confio em outras pessoas. – Falou o homem. Eu soltei um riso baixinho. Era de certa forma a maneira dele de dizer que estava cuidando de mim e eu achava aquilo fofo. Aproximei os meus dedos dos seus, fazendo um leve carinho enquanto o olhava. – Você não precisa se preocupar co... Antes que eu dissesse aquela coisa doce e fofa para o meu melhor amigo a megera do escritório resolvia aparecer. Olhou cada um de nós com desdém, seus braços estavam cruzados um pouco acima dos s***s. Os lábios fizeram um sorriso desdenhoso em seu rosto o que me fez odiar ainda mais aquele ser humano. – Se vocês querem ficar assim ao menos tenham a decência de ir para um hotel ou algo parecido. – Falou provocando ainda mais o volume em seus s***s. Eu quis rir, gargalhar, já que não era a primeira e nem seria a última vez que ela insistia em dar em cima de Chris. Na mente daquela mulher Chris só precisava encontrar a mulher certa e tudo seria resolvido e claro, que ficasse bem longe de mim e tudo seria melhor, já que eu - na mente daquela mulher - era uma péssima influencia. Assim como eu o ruivo a olhava, só que a diferença de um para outro era que ele estava assustado. Ambos aos poucos foram se recuperando, voltando ao normal em poucos segundos. Eu ia abrir a boca, pronta para retrucar Penélope, porém o dono dos cabelos cor de fogo acabou sendo mais rápido do que eu e além disso, colocava uma de suas mãos em meus braços dizendo silenciosamente que cuidaria disso a partir de agora. Engoli em seco. Droga! Eu odiava ficar de fora de uma boa briga. Fiz um som baixo com a língua, tocando o céu da boca algo que atraiu automaticamente a atenção da moça, lembrando a do motivo pelo qual estava ali. – Ah! – Falou a mulher desviando sua atenção até mim. – Nosso chefe pediu para ver você, Amy. Ao ouvir aquilo senti automaticamente um calafrio na espinha. Todas as vezes que ouvi algo assim nunca significava boa coisa. – Ele disse o motivo? – perguntei, mesmo sabendo que a resposta seria negativa. Ao ouvir a pergunta a mulher logo ali na minha frente moveu a cabeça em negativa, os fios de cabelo se mexeram junto deixando a com um ar bagunçado, se fosse outra situação era provável que nesse momento eu estivesse rindo igualzinha a uma hiena ou algo parecido, porém, desta vez eu parecia mais assustada do que uma criança em uma casa assombrada. Por mais que vez ou outra eu atendesse aos pedidos de Meteo, digo, os pedidos ridículos do meu tão querido - odiado - chefe, eram raras as vezes em que ele me chamava afinal de contas sua agenda era muito lotada e perturbar a minha vida ou tornar a minha vida um inferno não era assim tão urgente se comparado com as outras coisas. Talvez só talvez ser um canalha - galinha - exigisse muito esforço. Movi a cabeça em negativa, afastando os piores e os melhores pensamentos da minha cabeça ficar imaginando o que poderia ou não ser não iria ajudar em uma situação como aquela. Penélope me olhava como se eu fosse louca, algo que era normal já que para aquela mulher todo mundo daquele prédio era inferior a ela. Quanto a Chris me observava com a mesma cautela de sempre, tentava me estudar, adivinhar sem a necessidade de palavras ditas em voz alta o que eu sentia naquele momento. Quando meus olhos caíram no rosto amigo expressei o melhor dos meus sorrisos, algo largo e simples que pegava de uma ponta para outra no meu rosto. Nossos dedos se tocaram em um gesto de carinho, Penélope enlouqueceu com aquilo já pronta para me mandar pro inferno ou qualquer lugar dez mil vezes pior. – Eu estou bem. – Menti. A questão é que durante anos da minha vida eu sempre menti quando me faziam essa maldita pergunta, quando a minha avó morreu eu menti, quando o meu pai foi embora por causa de outra mulher eu também menti e quando tive o meu coração quebrado pela primeira vez eu também menti. Muitas vezes acabei sendo consequentemente chamada de coração de gelo por sempre expressar uma coisa alegre em uma situação que não tinha nada de alegria. Eu não liguei para os comentários, pois, trancada no meu quarto com a luz apagada e uma playlist triste, eu mais do que ninguém sabia a verdade. Não gostava de conversar sobre coisas difíceis, não levava jeito para isso e por causa desses pensamentos sempre mentia, era cansativo eu assumo ainda assim me livrava de conversas que eu não queria nem em sonhos ter. Olhei para Penélope, estava pronta para pular no meu pescoço e transformar - se fosse preciso - o escritório em um ring de luta, porém Chris a segurava com um dos braços impedindo de fazer uma grande besteira. Ri, algo baixo e rouco que só mexeu ainda mais com os nervos daquela mulher. Não disse mais nada, apenas me levantei da cadeira e passei a me mover até a sala do CEO que esperava pacientemente por mim.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR