Capítulo 2

3822 Palavras
- Estou dizendo! O homem é um touro! Não me deixou descansar nem sequer por um segundo, enquanto a lua ainda estava no céu! Revirando os olhos, Melissa jogou o porco morto sobre a mesa, enquanto tentava ignorar a tagarelice indecente de sua vizinha Chiara do outro lado da janela, que aparentemente achava o fato de ter dormido com Knight, senhor do vilarejo e das terras ao redor, algo digno de aplausos. Como se qualquer coisa sobre aquele homem, ou sobre qualquer outro mercenário que conseguia poder através do derramamento de sangue, fosse louvável. O vilarejo tinha sorte de que ele havia ficado satisfeito com o castelo do antigo senhor, o arrogante e inútil McJames, cuja cabeça ficara apodrecendo no alto de uma lança durante dias no meio da praça do vilarejo, e os deixara em paz desde que conquistara o território, há três anos. Ou talvez nem tanta sorte assim, já que a população do vilarejo havia sido reduzida drasticamente depois que grande parte das pessoas havia fugido ou decidido procurar trabalho no castelo, onde havia mais oportunidades. Pegando um dos cutelos que guardava sobre a mesa, Melissa começou a afia-lo na barra de metal, correndo os olhos ao redor da rua diante de seu pequeno açougue para tentar encontrar algo em que pudesse se concentrar e talvez silenciar o monólogo incessante de Chiara. Aquela mulher tinha muita sorte que elas haviam crescido praticamente juntas, ou Melissa realmente consideraria espantá-la usando o facão que costumava usar para lidar com os bêbados que às vezes vinham incomodá-la. Era estranho como até mesmo a sensação do cabo desgastado em suas mãos trazia as lembranças de seu pai de volta para sua mente. Ele se fora já há mais de um ano, perdendo uma batalha de dias contra uma febre repentina e escaldante, mas sua presença ainda era tão palpável ao redor de seu pequeno açougue que Melissa muitas vezes se esquecia de que ele não estava mais ali. Várias vezes, ela acordava no meio da noite se perguntando se estava sozinha apenas porque ele ainda não voltara de uma de suas caçadas. Várias vezes, se pegava fazendo comida o suficiente para duas pessoas. E, várias vezes, ao ouvir um barulho estranho ou sentir o olhar lascivo de um homem sobre ela, ainda cedia ao impulso de alcançar o braço dele ali perto... Mas não havia nada. E nunca mais haveria. Era doloroso. Tão doloroso que, nos primeiros dias, ela chorara pela primeira vez em anos. Não apenas pela saudade do pai, mas também pela sensação quase sufocante de estar completamente sozinha. Afinal, não era exatamente fácil ser uma órfã jovem e solteira naquele vilarejo, com apenas 20 anos. E tudo ficara ainda pior quando sua única amiga havia sido escolhida para se tornar esposa de um dos brutamontes do senhor daquelas terras, o que a fizera desaparecer do vilarejo como se jamais tivesse existido, deixando Melissa mais sozinha do que nunca, sem saber se Vanessa estava viva ou morta, e também, obviamente, com mais ódio por Knight e seus homens do que nunca, por eles terem levado para longe a única outra pessoa de quem ela já havia sido próxima, além de seu pai. Ainda assim, com o tempo, ela aprendera que pensar o mínimo possível em tudo aquilo ajudava e tornava mais fácil viver um dia de cada vez. Contudo, talvez o que mais a ajudasse de verdade a lidar com a falta de seu pai era saber que ele não a criara de maneira diferente das outras meninas do vilarejo à toa. Ele a criara para ser forte. Para saber se defender e sobreviver sozinha. Se ela sabia caçar, arrancar a pele de um animal e preparar sua carne, era porque seu pai sempre soubera, depois do dia em que sua mãe falecera quando ela m*l havia aprendido a falar, que era muito provável que ela um dia ficaria completamente sozinha, podendo contar apenas consigo mesma para sobreviver. Assim como acontecia com muitas outras mulheres, assim como Chiara, cujos pais m*l conseguiam alimentar a si mesmos. Por isso, apesar da solidão que lutava todos os dias para ignorar, Melissa se orgulhava de estar garantindo sua própria sobrevivência sendo açougueira, a profissão que seu pai lhe ensinara, e ameaçando pessoas com lâminas, ao invés de depender da piedade e do desejos de homens, pulando de cama em cama, à procura do mais poderoso deles, na vã esperança de que algum decidisse protegê-la, como Chiara fazia. Não que ela pudesse culpá-la. Cada uma das mulheres do vilarejo tinha que encontrar uma forma de sobreviver, afinal. E Melissa já encontrara a dela. - Você está me escutando? – Chiara rosnou, fazendo-a desviar o olhar da pequena movimentação que estava acontecendo ali perto, mas com a qual ela não se preocupou: algum bode devia ter se soltado ou coisa assim – Francamente Melissa, é por isso que você vai ficar amargurada e sozinha para sempre. Como sempre acontecia quando sua vizinha tentava atingi-la com comentários como aquele, ela apenas riu sob sua respiração, até mesmo roncando um pouco no processo. A solidão podia ser dolorosa naquele momento, mas Melissa não era cega. Ela vira outras mulheres do vilarejo se casarem com homens apenas por necessidade de proteção e seu estômago se revirava de repulsa e revolta apenas ao pensar no tipo de coisa a que elas eram submetidas. Algumas vezes, ela até mesmo havia se oferecido para ajudá-las, brandindo seu facão em mãos, mas a grande maioria delas sempre recusava. E Melissa sabia que não era apenas para poupá-la de uma briga que poderia acabar m*l para ela. Mas sim porque nenhuma daquelas mulheres teria para onde ir com seus muitos filhos, caso perdesse o único teto que tinham sob suas cabeças, ao afrontar o marido. Por isso, e também por saber que seu minúsculo açougue jamais seria capaz de acomodar e alimentar todas elas, Melissa seguia apenas lhes oferecendo algum pedaço de carne quando podia e se mantendo sozinha, solitária, amargura ou qualquer outro nome que Chiara quisesse dar. Não havia porque sofrer por algo tão trivial quanto companhia, quando ela sabia que sua vida, mesmo sozinha, ainda era muito mais privilegiada do que a de muitas outras moças do vilarejo. Por isso, com um sorriso doce na direção de sua vizinha, Melissa apenas ergueu o cutelo com elegância, cortando a barriga do porco diante de si de um lado ao outro com um único golpe preciso, fazendo o sangue viscoso espirar por todos os lados, inclusive nas paredes de madeira envelhecida, em seu vestido puído... E no rosto de Chiara. - Sua vagabunda maldita! – Chiara guinchou, puxando o tecido sedoso de seu novo vestido, provavelmente presente de um de seus amantes, para limpar a bochecha – Juro que quando Knight me escolher como esposa, vou vender você para o bordel mais próximo! - Depois de um mês sem nem sequer deixar que você entre no castelo novamente? – o sorriso zombeteiro de Melissa se ampliou, enquanto o rosto de Chiara se tornava pálido diante da fofoca que todos no vilarejo sabiam – Acho que é mais provável que ele me escolha como esposa, a essa altura... - Vocês todos vão ver só! – ela rangeu os dentes, não apenas furiosa, mas também ofendida – Knight pode ser um grande guerreiro e tudo mais o que dizem dele, mas ainda é apenas um homem! E os homens tem a mente fraca. – Chiara apontou, fazendo Melissa dar de ombros, já que não era algo que ela podia negar, pelo menos não sobre a grande maioria – Ele pode estar se fingindo de forte por agora, mas, eu tenho certeza de que assim que ele começar a dormir com as vagabundas desse vilarejo e comparar a performance delas com a minha, vai voltar correndo para mim. – alinhando o decote do vestido com um movimento altivo, sua vizinha ergueu o nariz quase até o céu – Acredite, já vi acontecer antes. - Bom para você. – Melissa deu de ombros distraidamente, m*l se dando conta da expressão novamente ultrajada de Chiara, enquanto limpava as mãos sujas de sangue em seu velho avental – Agora, você vai querer as vísceras de porco que a sua mãe pediu ou não? Estão fresquinhas... - Ah, que nojo... – sua vizinha deu um passo para trás quando ela virou o porco de lado, expondo seu interior – Sabe, é por isso que o velho Petegrey desistiu de se casar com você. - Ele desistiu porque ameacei cortar as bolas dele e vende-las junto com as dos bodes, se ele continuasse vindo aqui me incomodar. – agora foi a vez de Melissa de fazer um som enjoado – Ele pode ter inventado aquela mentira i****a de que meu pai queria que ele se casasse comigo, mas eu sei que não é verdade. Papai me disse centena de vezes que eu sabia me defender bem o suficiente sozinha para não precisar me casar, caso eu não quisesse. – pressionando os lábios juntos, enquanto as memórias da confiança e da consideração de seu pai por ela e por suas habilidades faziam seus olhos arderem, Melissa rapidamente desviou aquela conversa para um assunto que sabia que chamaria a atenção de Chiara – E, bem, eu não perdi nada. Não quando há tantos outros bons partidos nas redondezas... Como o nosso adorável e poderoso senhor, por exemplo... – batendo os cílios com fingida sensualidade, ela jogou o longo cabelo castanho e ondulado para trás dramaticamente, fazendo a expressão de sua vizinha azedar imediatamente – Me pergunto se ele já conheceu os encantos de uma mulher que sabe usar uma faca... - Como se você tivesse alguma chance. – não parecendo achar nenhuma graça em sua piada, Chaira bufou, cruzando os braços sobre o peito antes de abrir um sorriso maléfico – Sabe, você deveria voltar se arrastando para aquele pobre velho decrépito. Afinal, qual outro homem iria querer uma mulher briguenta, m*l-educada e que se orgulha de agir como um homem, além de alguém completamente desesperado e um pouco cego como o Petegrey? Ou, quem sabe, talvez por isso o seu pai tenha criado você como um moleque. – Chiara deu de ombros, fingindo observar as próprias unhas enquanto lançava olhares nem um pouco discretos sobre os cílios para a expressão severa no rosto de Melissa – Ele deve ter percebido que você não iria muito longe como mulher e decidiu que você teria mais chances se aprendesse desde cedo a agir como um animal selvagem, sempre suja e carregando algum pedaço de carne nas mãos. - Bem, pelo menos eu teria alguma coisa para jogar para os cachorros do Knight, caso ele os soltasse em cima de mim também. – Melissa rebateu, com um corte tão preciso quanto o de seu cutelo, não podendo se impedir de ficar satisfeita ao ver o rosto de Chiara empalidecer de horror novamente, ao perceber que ela também sabia de sua mais recente tentativa de se aproximar do senhor do vilarejo – Quer que eu empreste algum pedaço de osso para você, da próxima vez que for visitá-lo? - Ora, sua grande... – Chiara estava claramente pronta para ofendê-la novamente, quando Melissa agilmente pegou o cutelo novamente e desceu a lâmina sobre o pescoço do porco, enviando um novo jato escarlate diretamente no vestido de sua vizinha, fazendo-a afastar-se vários passos da janela, com uma expressão de puro horror – Sua v***a desgraçada! Vai me pagar por isso! Faz ideia de quanto isso custou? - Ora, tenho certeza de que, quando descobrir sobre isso na sua próxima visita a ele, Knight vai fazer questão de comprar um vestido novo para sua futura esposa... - Melissa ainda estava rindo, com o cutelo sujo de sangue na mão, quando desviou os olhos para a rua... E encontrou um par de olhos verdes e límpidos olhando-a com selvageria. Knight. Mesmo tendo-o visto apenas de longe por um punhado de vezes que podia contar nos dedos de uma mão, ela não tinha quaisquer dúvidas de que era ele. E agora aquela montanha em formato de homem estava caminhando pesadamente em direção ao seu açougue, com a expressão distorcida, como se estivesse pronto para matar alguém. Enquanto até mesmo Chiara, que geralmente aproveitava qualquer oportunidade para se lançar nos braços do senhor do vilarejo da maneira que fosse, saía correndo para longe como se a própria morte estivesse em seu encalço, Melissa trincou os dentes, tentando controlar o medo que gelava seu peito, enquanto corria para trancar a janela e a porta do açougue, mesmo sabendo que aquilo não manteria um guerreiro como Knight contido por muito tempo... E de fato não conteve, já que, quando ela m*l havia acabado de puxar o facão para tentar fugir pela saída que havia mais aos fundos, a porta de madeira literalmente explodiu atrás dela, não resistindo a sequer um único chute daquele homem. Aterrorizada, Melissa colou suas costas na parede mais próxima e ergueu o facão instintivamente, com as mãos trêmulas, enquanto observava aquele homem enorme e mortal entrar em sua casa, ainda com aquela expressão explosiva e assassina no rosto. Ela não sabia porque, aparentemente, ele a havia escolhido ao acaso para sofrer aquele tipo de ira, mas, naquele momento, não importava. Assim como não importava o fato de que Knight era conhecido por ser um dos guerreiros mais mortais ainda vivos. Não importava que a lógica dissesse que ela sem dúvida não tinha a menor chance contra ele. Tudo o que ela sabia era que iria matar ou morrer para se defender. Ela havia acabado de erguer o braço para tentar descer o facão no braço dele, quando Knight se moveu como uma pantera, colocando-se em frente a ela enquanto segurava ambos seus pulsos com apenas uma das enormes mãos, torcendo-os de maneira que uma dor aguda a dominou, fazendo-a xingar e largar instantaneamente o cabo do facão, que caiu no chão com um som metálico, apenas para ser chutado pela bota de Knight para o outro lado da sala. Engolindo em seco, Melissa tentou manter o pânico preso em sua garganta, enquanto ele a puxava para si com um movimento duro, deixando seus rostos perigosamente próximos, permitindo que ela observasse cada traço afiado e cada cicatriz que havia em sua pele morena coberta pela barba espessa. Sua respiração quente e frenética batia em sua bochecha praticamente como uma bofetada e, quando ele se inclinou sobre ela quase ao ponto de fazer seus narizes se tocarem, Melissa pensou que aquele seria seu fim. Porém, inexplicavelmente, ele pareceu usar aquela posição desconcertante apenas para correr aqueles olhos verdes e injetados por sua face várias vezes, como estivesse tentando memorizá-la. Até que um rugido colérico escapou de entre seus lábios, que até então haviam estado firmemente pressionados juntos. - Aquela velha maldita...! Foi a última coisa que ele rosnou, antes de joga-la repentinamente por sobre seu ombro, fazendo-a gritar quando se viu com o rosto virado para as cotas dele, enquanto o maldito começava a andar para fora de sua casa, movendo-se no meio da multidão curiosa, mas que ainda assim se mantinha a uma distância segura de seu perigoso senhor. Contudo, aquele movimento também lavou por completo o medo gélido que antes a tinha tomado, dando lugar a uma fúria explosiva que ela não lembrava de já ter sentido em toda a sua vida, mesmo quando ouvia comentários maldosos como os de Chiara ou quando algum dos bêbados da cidade vinha incomodá-la. Porque nenhum deles nunca tinha sido capaz de forçá-la a fazer algo que não queria. Muito menos tirara seus pés do chão, como aquele homem estava fazendo, literalmente. - Me largue, seu maldito! – Melissa gritou a plenos pulmões, distribuindo tapas e socos pelas costas dele, que mais pareciam ser feitas de pedra, a julgar pela maneira como ele sequer vacilou. Contudo, ao avistar a bainha da espada que estava presa em seu cinto, Melissa nem sequer hesitou antes de se aproveitar dos movimentos do andar dele para se lançar na direção da tira de couro, quase alcançando a lâmina que poderia cravar nas costas dele e então aproveitar para fugir... Foi quando o próprio Knight retirou a espada do cinto... E desceu um tapa forte contra seu traseiro, enquanto reclamava, com a voz áspera, quase como se ela fosse uma criança desobediente. - Pare de tentar pegar uma arma, mulher! – ele rosnou, enquanto parava em frente a alguém que Melissa não conseguia ver quem era, enquanto aparentemente retirava mais coisas da parte da frente do cinto, mesmo que elas fossem inalcançáveis para ela, entregando-as ao que pareceu ser outro homem – Segure, antes que ela mate um de nós dois! Fique de prontidão nas minhas costas! Knight moveu-se para frente, permitindo que o homem que o acompanhava finalmente surgisse diante dos olhos de Melissa. - Oh... – Stone, o mesmo grande homem ruivo e assustador que um dia havia tomado sua melhor amiga como esposa e desde então nunca mais a trouxera de volta para o vilarejo, a cumprimentou – Olá, Melissa. - Como você a conhece?! – Knight explodiu de repente, absolutamente colérico, movendo-se para encarar Stone com tanta violência que Melissa literalmente saltou sobre seu ombro, como uma boneca de pano – É melhor não ter encostado um único dedo nela ou eu vou...! - Ela é apenas amiga da minha esposa. – ela viu Stone, um homem absolutamente intimidador e coberto de cicatrizes, erguer as mãos e dar um passo para trás, claramente querendo evitar a ira de Knight – Acho que a vi duas vezes, no máximo. – o mercenário jurou, firmemente. - Acho bom que isso seja verdade...! – Knight grunhiu em tom de aviso, envolvendo seu braço musculoso em torno das pernas dela para segurá-la com ainda mais firmeza, enquanto murmurava, soando sufocado, quase como se estivesse se afogando – Melissa... – ela jurou tê-lo ouvido engolir em seco, antes de se virar em direção à multidão que até então havia estado silenciosamente aproveitando o espetáculo, fazendo todos recuarem sonoramente, amedrontados diante de seu olhar – Ouçam: essa mulher agora pertence a mim! E qualquer um que quiser reivindicá-la ou prejudicá-la da maneira que for, sofrerá com a minha ira! Eu fui claro? Pasma e revoltada enquanto ouvia os murmúrios chocados e assustados das pessoas de seu vilarejo, agora foi Melissa quem de repente exclamou, com a raiva deixando sua mente em branco e sua visão completamente pintada de vermelho. - Quem você acha que é, seu bastardo? – ela rugiu, debatendo-se com violência, enquanto tentava se remexer o suficiente para conseguir atingir a cabeça dele com um chute ou um soco – Eu não pertenço a você! Nem a ninguém! Me coloque no chão agora mesmo! - Quieta, mulher! – ele exigiu daquela maneira repreensiva novamente, antes de descer mais três tapas em seu traseiro, o que apenas a deixou ainda mais furiosa e a fez se debater com mais selvageria, especialmente quando ele pressionou o rosto contra o local onde havia batido, quase como se ela fosse um travesseiro – Ou o caminho até o castelo será mais longo do que o necessário! – ainda com o rosto descansando contra seu traseiro, ele se virou para o marido de Vanessa, ordenando firmemente – Stone! Arrume uma corda! Vou precisar amarrar minha cintura à dela, ou tenho a impressão de que ela vai dar um jeito de pular do cavalo. - Pode apostar que vou, desgraçado! – levemente satisfeita, Melissa sentiu um de seus chutes atingir, ainda que não tão firmemente quanto ela gostaria, uma parte do rosto dele que ela julgou ser a orelha – Você não vai me amarrar a cavalo nenhum! E muito menos me levar para o seu castelo! Porém, mesmo depois de muita luta e gritos de escárnio, Melissa de repente se viu com as costas coladas ao peito dele, em cima de um cavalo, com uma corda firmemente amarrada em torno dos dois, cujo nó era acessível apenas para Knight. Raivosa e se recusando a se dar por vencida, ela seguiu lutando contra o aperto de um dos braços dele ao redor dos dela e do outro nó que unia seus tornozelos, impossibilitando-a de acertar um golpe nele ou no cavalo, para enviar os dois para o chão. - Você não se dá por vencida facilmente, não é? – os pelos da parte de trás de seu pescoço se ergueram quando ele de repente sussurrou aquela frase na altura de seu ouvido, parecendo ter lido sua mente, com seu hálito quente fazendo cócegas no pescoço dela. Parando por um minuto para erguer o rosto na direção do dele, Melissa percebeu que sua expressão, antes agudamente selvagem, agora havia se suavizado, mas apenas um pouco, dando lugar a um toque de curiosidade e hesitação que beirava quase ao temor, como se ele estivesse cuidadosamente avaliando qual seria o próximo ataque de um lobo ou coisa assim. Algo que, obviamente, apenas a deixou ainda mais revoltada. - Não, mas aconselho você a se dar por vencido o mais rápido possível! Porque, se acha que existem cordas o suficiente no mundo para me impedir de transformar a sua cara arrogante em carne moída, então eu vou ensinar uma lição a você, seu cretino...! – aproveitando-se do momento de aparente distração dele enquanto impassivelmente escutava sua declaração raivosa, Melissa tentou dar-lhe uma cabeçada, mas, como sempre, Knight se desviou facilmente do golpe, fazendo-a estremecer ao bater dolorosamente a parte de trás de sua cabeça contra o osso do ombro dele. - Pare com isso! – aquele tom irritado e incomodado dele, que fazia parecer que ela era uma criança levada, estava seriamente lhe dando nos nervos - Você vai se machucar! - Calado! – Melissa rugiu, lamentando profundamente que a posição em que ele os havia colocado não lhe permitisse dar uma mordida nele – Por que está fazendo isso, afinal? – ela lamentou, ficando até mesmo um pouco surpresa ao ver a mandíbula de Knight se apertar não com irritação, mas sim com um incômodo estranho que, se ela não soubesse melhor quem era o homem para quem estava olhando, Melissa até mesmo descreveria como... Pavor. - Eu não sei. – o sussurro quase inaudível dele se misturou com o suave estalar do vento ao redor deles e, antes mesmo que tivesse a chance de tentar entender o que havia escutado, Melissa foi surpreendida pelo solavanco do trotar do cavalo em que os dois estavam, enquanto Stone os seguia de perto, com os olhos treinados parecendo bastante interessados na interação entre ambos, especialmente porque, a cada segundo em que eles se afastavam ainda mais do vilarejo em direção ao castelo de Knight, Melissa intensificava suas tentativas de se desvencilhar dele. Afinal, se havia uma única coisa verossímil que Knight havia lhe dito, era que ela faria o caminho até o castelo ser o mais longo possível para ele.
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