Capítulo 2 - A Princesa de Vidro

1262 Palavras
Moscou, Rússia. O aroma de baunilha e chocolate quente preenchia a ampla cozinha da mansão Volkov. A neve caía lentamente do lado de fora, cobrindo os jardins com um manto branco e silencioso, enquanto dentro da casa o calor, as luzes suaves e o som de risadas criavam uma atmosfera acolhedora. Nicole Volkov estava em pé sobre um pequeno banquinho, usando um avental cor-de-rosa salpicado de farinha. O nariz delicado estava levemente sujo de açúcar. Uma mecha do cabelo loiro escapava do coque bagunçado. E seu sorriso… iluminava tudo ao redor. — Mãe, olha isso! — disse animada, mostrando uma bandeja cheia de cupcakes perfeitamente decorados. Anya Volkov aproximou-se, secando as mãos no pano de prato, e sorriu com ternura. — Estão lindos, solnyshko. Perfeitos como você. Nicole corou imediatamente. — Não exagera, mamãe. — Exagerar seria dizer que você não é um milagre — respondeu Anya, beijando sua testa. Nicole riu. Para ela, o mundo era simples. Acordar cedo. Ir para a escola. Ler seus romances favoritos. Fazer doces. Passar tempo com a família. Sonhar com a faculdade. Sonhar com um futuro leve. Ela desconhecia completamente o peso do sobrenome que carregava. --- Na sala de estar, os gêmeos Alexander e Alexei discutiam baixinho sobre estratégias de xadrez, enquanto Valentin, o primo de nove anos, montava um quebra-cabeça no tapete felpudo. — Vocês dois trapaceiam — reclamou Valentin. — Você só não sabe perder — retrucou Alexei, rindo. Alexander ergueu os olhos quando Nicole entrou. — Nic, você fez os biscoitos de mel? — Claro! — respondeu ela animada. — E se vocês não comerem todos antes do jantar, faço chocolate quente. — Eu te amo — disse Alexander dramaticamente. Alexei revirou os olhos. — Interesseiro. --- Mais afastada, Vera, a governanta, observava tudo com carinho silencioso. Ela estava na família Volkov desde antes do nascimento de Nicole. — Essa casa fica vazia quando você não está, menina — comentou. Nicole caminhou até ela e a abraçou forte. — Nunca vou embora, vovó Vera. A mulher sorriu emocionada. Ela sabia que aquela promessa era impossível. --- No escritório, Konstantin Volkov permanecia sentado atrás de sua mesa de mogno, o olhar fixo em um ponto invisível. A ligação ainda ecoava em sua mente. Minha esposa. As palavras de Yusuke queimavam como ácido. Katya, a melhor amiga de Anya, entrou devagar. — Konstantin… — murmurou. — Você está pálido. — Chame Anya — ordenou. Sua voz soou mais dura do que pretendia. Katya assentiu imediatamente. Minutos depois, Anya entrou no escritório. — O que aconteceu? Konstantin fechou os olhos por um instante antes de falar. — Ele ligou. O silêncio caiu entre eles. Anya levou a mão ao peito. — Yusuke Kuroda… Konstantin assentiu. — Ele quer a promessa. Os olhos de Anya se encheram de lágrimas. — Não… nossa menina… — Ele deu três meses. Anya cambaleou para trás, sentando-se na poltrona. — Nicole não sobreviverá naquele mundo. — Eu sei — murmurou Konstantin. — Mas uma guerra contra a Yakuza não deixaria nada de pé. Eles se encararam. Dois adultos poderosos. Totalmente impotentes diante do destino da própria filha. --- Enquanto isso, no jardim coberto de neve, Nicole caminhava ao lado de Polina, sua melhor amiga. Polina gravava um vídeo para suas redes sociais. — E aqui está minha pessoa favorita no planeta! — anunciou animada. — A garota mais doce da Rússia! Nicole escondeu o rosto, envergonhada. — Para com isso. — Diz pra eles o que você vai fazer quando terminar a escola. — Quero estudar confeitaria ou literatura — respondeu sorrindo. — E viajar. — Romântica incurável — riu Polina. Nicole olhou para o céu cinzento. — Quero uma vida simples. Ela não sabia. Não fazia ideia. Que sua vida estava prestes a ser entregue ao demônio mais temido do Oriente. Que sua doçura encontraria o inferno. Que seu coração seria testado além de todos os limites. E que, em breve… A princesa de vidro pisaria no reino das sombras. --- Moscou, Rússia. O sol fraco de inverno atravessava as enormes janelas do colégio mais prestigiado de Moscou, refletindo sobre os corredores de mármore e criando uma atmosfera quase etérea. Nicole caminhava pelo corredor com seus livros apertados contra o peito. Vestia um sobretudo claro, cachecol rosado e botas delicadas. Os cabelos loiros caíam em ondas suaves sobre os ombros, e seus olhos cinzentos observavam tudo com curiosidade genuína. Ela sorria com facilidade. E isso a tornava diferente de todos ali. — Nic! — chamou Polina, correndo até ela. — Você viu os resultados da simulação do vestibular? Nicole balançou a cabeça, nervosa. — Ainda não tive coragem. — Você vai arrasar — garantiu a amiga. — Aposto que ficou entre os três melhores. Nicole mordeu o lábio, tímida. — Eu só quero passar. — Você quer conquistar o mundo com doces e livros — riu Polina. E, para Nicole, aquilo era mais do que suficiente. --- Durante a aula de literatura, ela permanecia totalmente concentrada. Anotava cada detalhe. Destacava trechos. Amava histórias de amor, dramas intensos, romances antigos. Talvez porque acreditasse que o amor fosse sempre gentil. Sempre protetor. Sempre seguro. Ela não conhecia o outro lado da palavra. --- Na hora do almoço, sentou-se perto da janela, observando a neve cair. — Você vai passar o aniversário dos gêmeos na casa? — perguntou Polina. — Claro — respondeu Nicole. — Eles querem uma guerra de bolas de neve e uma maratona de filmes. — Família perfeita — suspirou Polina. Nicole sorriu. Para ela, aquilo era normal. Ser amada. Ser protegida. Ser cuidada. --- Mais tarde, já em casa, Nicole entrou diretamente na confeitaria particular que havia sido construída ao lado da mansão. Ali era seu refúgio. Seu santuário. As paredes claras, os utensílios organizados, os aromas doces e as receitas escritas à mão por Anya faziam seu coração aquecer. Colocou música baixa. Prendeu o cabelo. E começou a trabalhar. Preparou massas. Derreteu chocolate. Bateu chantilly. Testou recheios novos. Cada movimento era feito com delicadeza quase reverente. Quando terminava, sentava-se à mesa, anotando ideias para o futuro. Sonhos de Nicole: Ter uma confeitaria pequena, charmosa, com mesas na calçada. Morar perto da universidade. Viajar pela Europa. Escrever um livro um dia. Em nenhum deles existia um marido. Muito menos um demônio japonês. --- À noite, a família reunia-se para o jantar. Konstantin estava mais calado do que o habitual. Nicole percebeu. — Papai, você está bem? Ele ergueu os olhos. Seu olhar era o de um homem que carregava o peso do mundo. Mas para ela, ele forçou um sorriso. — Só trabalho, solnyshko. Ela caminhou até ele e o abraçou por trás. — Você trabalha demais. Konstantin fechou os olhos. Aquele abraço inocente era sua maior fraqueza. --- Depois do jantar, Nicole sentou-se com Anya e Katya na sala. Tricotavam juntas enquanto conversavam. — Quando entrar na faculdade, você vai morar fora? — perguntou Katya. — Talvez — respondeu Nicole. — Mas vou voltar todo fim de semana. — Promete? — insistiu Katya. — Prometo. As duas sorriram, e Anya ficou tentando esconder o medo que crescia silencioso. --- Antes de dormir, Nicole abriu seu livro favorito. Deitou-se na cama, cercada por travesseiros macios. A neve caía silenciosa do lado de fora. O mundo parecia seguro. Imutável. Ela não fazia ideia… Que seu nome já havia sido pronunciado como parte de um acordo. Que sua vida estava sendo negociada entre dois impérios criminosos. Que seu destino havia sido selado muito antes de seu nascimento. E que, em breve, o Akuma da Yakuza pisaria em seu paraíso.
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