Moscou, Rússia.
A mansão Volkov nunca estivera tão silenciosa.
Não era um silêncio tranquilo.
Era pesado.
Cheio de coisas não ditas.
Carregado de medo.
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No escritório, Konstantin estava em pé diante da lareira acesa, os punhos cerrados atrás das costas.
Anya permanecia sentada no sofá, segurando uma xícara de chá já frio.
Katya caminhava de um lado para o outro, nervosa.
— Você precisa contar para eles — disse Katya. — Principalmente para os gêmeos.
— Eles ainda são crianças — retrucou Anya, com a voz embargada.
— São Volkov — rebateu Konstantin. — E precisam entender.
Ele apertou o interfone.
— Peça para Alexander e Alexei virem até meu escritório.
Minutos depois, os dois entraram.
Os olhos atentos.
Postura rígida.
Apesar da idade, já carregavam nos ombros o peso do sobrenome.
— Sentem-se.
Os meninos obedeceram.
Konstantin respirou fundo.
— Houve um contato da Yakuza.
O semblante deles se fechou instantaneamente.
— Yusuke Kuroda — continuou. — Ele quer cumprir uma promessa antiga.
Alexander franziu a testa.
— Que promessa?
O silêncio respondeu antes das palavras.
Alexei foi o primeiro a entender.
— Nicole…
Anya levou a mão à boca.
— Não — murmurou Alexei. — Não. Ela não.
— É isso — disse Konstantin. — Um casamento.
O choque foi imediato.
Alexander levantou-se de um salto.
— Isso é loucura! Ela é só uma menina!
— Eles são monstros! — rosnou Alexei.
— Chega — ordenou Konstantin. — Vocês não têm ideia do poder que Kuroda carrega.
— Então vamos à guerra! — gritou Alexander. — Nós temos exército!
— E eles têm o inferno inteiro ao lado — respondeu Konstantin.
Os dois se entreolharam.
Raiva.
Desespero.
Medo.
— Eu não vou deixar — murmurou Alexei. — Eu mato qualquer um que chegue perto dela.
Konstantin se aproximou.
Colocou as mãos sobre os ombros dos filhos.
— Vocês precisam protegê-la. Não assustá-la. Não deixem ela perceber nada.
— Isso é traição — sussurrou Alexander.
— Isso é sobrevivência — respondeu Konstantin.
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Na ala leste da mansão, Irina e Igor estavam sentados à mesa, em silêncio.
Valentin brincava no tapete próximo.
— Ele ligou — disse Konstantin, entrando no cômodo.
Irina empalideceu.
— Não…
— Sim.
Ela levou as mãos ao rosto.
— Nicole não nasceu para esse mundo.
— Nenhuma de nós nasceu — murmurou Irina.
Igor levantou-se.
— Se precisar, vou até o Japão.
Konstantin negou.
— Não é guerra aberta. Ainda.
Irina aproximou-se, segurando o braço do irmão.
— Prometa que fará tudo para protegê-la.
— Eu morreria por ela — respondeu ele.
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Mais tarde, na confeitaria Sweet Anya, Katya fechava a porta com cuidado.
Anya encostou-se ao balcão, exausta.
— Como vamos esconder isso dela?
Katya respirou fundo.
— Não vamos esconder. Vamos preparar.
— Ela é sensível demais.
— Então teremos que ser fortes por ela.
Anya começou a chorar.
Katya a abraçou.
— Ele não pode quebrar nossa menina.
Mas, no fundo, ambas sabiam:
O mundo não pediria permissão.
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Naquela noite, os corredores da mansão estavam tomados por sussurros.
Planos.
Treinamentos intensificados.
Seguranças extras.
Reuniões fechadas.
Mudanças sutis na rotina.
Mas para Nicole…
Nada mudara.
Ela assistia a um filme antigo com Valentin, rindo alto.
Depois, foi ao quarto dos irmãos, desejando boa noite.
— Durmam bem — disse sorrindo.
Alexander engoliu em seco.
— Boa noite, Nic.
Alexei a abraçou forte demais.
— Ei — ela riu. — Vai me esmagar.
— Só não quero soltar — murmurou.
Ela beijou a testa dos dois.
— Vocês são estranhos hoje.
Eles não responderam.
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No quarto, antes de dormir, Nicole escreveu em seu diário:
"Hoje senti a casa diferente. Como se estivesse tudo muito quieto. Mas talvez seja só o inverno."
Ela fechou o caderno.
Apagou a luz.
E adormeceu tranquila.
Sem saber…
Que todos ao seu redor estavam se preparando para entregá-la ao demônio.
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Kobe, Japão.
A propriedade Kuroda despertava antes do sol.
Homens armados já percorriam os corredores externos. Jardineiros silenciosos cuidavam das cerejeiras. Funcionários moviam-se com passos suaves, quase invisíveis, como sombras treinadas.
Nada ali acontecia por acaso.
Muito menos na rotina de Yusuke Kuroda.
Às cinco horas da manhã, ele já estava acordado.
Seu quarto era amplo, minimalista, frio.
Paredes em tons escuros.
Móveis de madeira maciça.
Nenhum objeto pessoal.
Nenhuma fotografia.
Nenhuma lembrança.
A única coisa que quebrava a sobriedade do ambiente eram as tatuagens que cobriam seu corpo nu enquanto ele se levantava da cama.
Dragões subiam por seus braços.
Oni avançavam por suas costelas.
Símbolos ancestrais marcavam sua pele como uma sentença eterna.
Yusuke caminhou até o banheiro.
Duchas geladas.
Sempre.
A água fria castigava sua pele, mantendo seus sentidos afiados, sua mente alerta, suas emoções sob controle.
Sentir era fraqueza.
E fraqueza matava.
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No dojo particular da propriedade, Yusuke treinava por horas.
Punhos contra sacos de pancada.
Chutes precisos.
Golpes letais.
Espadas afiadas cortando o ar.
Cada movimento era executado com perfeição mortal.
Ren observava do canto.
— Você vai acabar destruindo tudo — comentou.
Yusuke não respondeu.
O saco de pancada rompeu sob um golpe brutal.
O silêncio caiu.
— Ainda acha que precisa de mais preparação? — perguntou Ren.
— Sempre — respondeu Yusuke, por fim.
Ele jamais subestimava nada.
Muito menos um casamento forçado.
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Após o treino, reuniu-se com seus conselheiros.
Relatórios eram entregues.
Territórios, alianças, execuções pendentes.
— Eliminem o clã Tanaka — ordenou friamente. — Sem sobreviventes.
— Sim, Kuroda-sama.
Nenhuma emoção.
Nenhuma hesitação.
A morte era apenas parte do fluxo natural das coisas.
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De volta à mansão, Yusuke caminhou lentamente pelo corredor.
Parou diante de uma porta vazia.
Um quarto que não era usado havia anos ao lado do seu.
Seus olhos analisaram o espaço.
Frio.
Impessoal.
— Quero esse quarto reformado — ordenou ao administrador da casa. — Luz natural. Tons claros. Tecidos suaves. Nada agressivo.
O homem engoliu em seco.
— Para…?
— Minha futura esposa.
O choque foi imediato, mas ninguém ousou demonstrar.
— Quero tudo pronto em três semanas.
— Sim, Kuroda-sama.
Ele deu mais um passo.
— Dois quartos?
— Sim.
O administrador piscou, confuso.
— O senhor não dividirá o quarto?
O olhar de Yusuke tornou-se cortante.
— Eu não durmo com ninguém.
O homem curvou-se imediatameunte.
— Como desejar, senhor.
Yusuke seguiu adiante.
Não havia espaço em sua cama.
Não havia espaço em sua mente.
Não havia espaço em seu coração.
A garota russa teria seu próprio território.
Ele teria o dele.
Ela seria sua.
Mas não seria sua i********e.
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No jardim interno, Chiaki observava as cerejeiras.
— Está preparando tudo — comentou.
— Sim.
— Não há hesitação em você?
Yusuke permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Hesitação gera morte.
Chiaki o encarou com atenção.
— Ela não é um inimigo.
— Ela é uma aliança.
— É uma garota — corrigiu.
— Garotas crescem — respondeu Yusuke. — E aprendem.
Chiaki suspirou.
— Cuidado, Yusuke. Até o demônio pode se perder em territórios desconhecidos.
O neto não respondeu.
Mas algo em seu olhar mudou.
Uma sombra.
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À noite, sozinho em seu quarto, Yusuke permaneceu sentado à beira da cama.
A cidade brilhava além do vidro.
Seu celular vibrava.
Mensagens de Yumi.
Ele ignorou todas.
Abriu um arquivo criptografado.
Nicole Volkov.
Fotografias.
Relatórios.
Vídeos.
Informações.
Ele observou cada detalhe com atenção fria.
O sorriso leve.
O olhar doce.
As mãos sempre ocupadas com livros ou utensílios de confeitaria.
Tão… incompatível com seu mundo.
— Frágil — murmurou.
Mas não desviou os olhos.
Por longos minutos.
Pela primeira vez, algo desconhecido percorreu seu peito.
Não era desejo.
Não era ternura.
Era curiosidade.
E isso, para Yusuke Kuroda, era perigoso.