Capítulo 4 - Quem Não Hesita

1558 Palavras
Moscou, Rússia. O sino do colégio ecoou pelos corredores amplos, anunciando o início do intervalo. Nicole saiu da sala apressada, segurando os livros junto ao peito, os cabelos loiros presos em uma trança frouxa. Seus olhos cinzentos brilhavam com a expectativa típica de quem ainda acreditava que o mundo era um lugar bom. Polina já a esperava perto das janelas enormes, celular na mão, gravando stories. — Pessoal, encontrei a futura escritora e confeiteira mais talentosa da Rússia! — anunciou animada. Nicole escondeu o rosto, rindo. — Para com isso, Poli. — Jamais. Agora, diga: qual o plano de vida da senhorita Volkov? Nicole respirou fundo, como se estivesse prestes a revelar um grande segredo. — Faculdade de Letras ou Gastronomia… ainda não decidi. — Você vai acabar fazendo os dois — garantiu Polina. — Multitalentosa. As duas caminharam até o jardim interno da escola, onde a neve acumulada tornava tudo branco e silencioso. Sentaram-se em um banco próximo às estufas aquecidas. — Às vezes penso em morar sozinha — confessou Nicole. — Um apartamento pequeno, perto da universidade. Com uma varanda cheia de plantas. — E uma cozinha enorme — completou Polina. — E uma livraria perto — acrescentou Nicole, rindo. — Você tem cara de quem vai se apaixonar em uma livraria. Nicole corou. — Não penso muito nisso. — Mentira. — Tá, penso — admitiu. — Mas queria algo simples. Gentil. Alguém que me faça rir. — Tipo um príncipe? — provocou Polina. — Não. Um garoto normal. Polina arqueou a sobrancelha. — Você não nasceu para normalidade, Nic. Nicole não respondeu. Porque, para ela, normalidade era tudo o que desejava. --- Na aula seguinte, enquanto os colegas discutiam planos para a formatura, Nicole rabiscava corações no caderno, distraída. — Eu quero um vestido azul — disse uma das meninas. — Eu, vermelho — comentou outra. — Nicole? — chamaram. Ela piscou. — Hum? — Você já pensou no seu vestido? Nicole sorriu, envergonhada. — Acho que algo simples. — Você sempre tão… você — riram. --- Na saída, Polina praticamente pulava de animação. — Vamos viajar depois da formatura! — Pra onde? — perguntou Nicole. — Paris! Ou Itália! Ou Japão! Nicole arregalou os olhos. — Japão? — Sim! Cerejeiras, doces estranhos, tradições lindas… Nicole imaginou por um instante. As lanternas. Os templos. As flores rosadas. Sorriu. — Deve ser mágico. Mal sabia ela… --- Em casa, no final da tarde, Nicole sentou-se à escrivaninha e começou a escrever em seu diário. "Quero uma vida tranquila. Quero estudar, viajar, amar. Quero que o mundo seja gentil comigo." Ela fechou o caderno. Olhou pela janela. A neve caía suave. Nada indicava perigo. Nada anunciava a tragédia. Porque o destino, quando vem, raramente avisa. --- Kobe, Japão. O entardecer tingia o céu de tons alaranjados e lilases quando Yusuke atravessou o jardim de cerejeiras da propriedade Kuroda. As pétalas rosadas caíam lentamente ao seu redor, contrastando de forma quase c***l com sua presença sombria. No lago, duas figuras femininas estavam ajoelhadas sobre a plataforma de madeira, alimentando os peixes. Sakura e Hina. As gêmeas riam baixo, usando quimonos claros, os cabelos longos presos em laços delicados. Por um breve instante, a cena parecia retirada de um sonho. Até que sentiram a presença dele. As risadas cessaram. Os corpos ficaram tensos. Sakura foi a primeira a se virar. Seus olhos encontraram os de Yusuke. O sorriso morreu em seus lábios. — O-onii-sama… — murmurou, fazendo uma reverência imediata. Hina imitou o gesto, os dedos tremendo levemente. — Boa tarde. Yusuke observou as duas por alguns segundos. Tão parecidas. Tão frágeis. Tão distantes dele. — Estão bem? — perguntou. Sua voz era baixa, controlada. Mas ainda assim… assustadora. — S-sim — respondeu Sakura rapidamente. Hina apenas assentiu. O silêncio se estendeu. Constrangedor. Pesado. — Não precisam ter medo — disse ele, sem emoção. As duas engoliram em seco. Porque o medo não vinha de escolha. Vinha do instinto. — Nós sabemos — murmurou Hina. Mas seus olhos diziam o contrário. Yusuke desviou o olhar. — Voltem para dentro. Está esfriando. — Sim, onii-sama. As duas passaram por ele rapidamente, quase correndo. Quando desapareceram dentro da mansão, Yusuke permaneceu parado por um momento. Seu reflexo na água parecia o de um estranho. Talvez ele realmente fosse. --- Mais tarde naquela noite, o som suave da chuva começou a cair sobre Kobe. No quarto amplo e escuro de Yusuke, uma única lâmpada permanecia acesa. Ele estava sentado na poltrona próxima à janela, camisa aberta, gravata jogada sobre a mesa, um copo de uísque intocado ao lado. A porta abriu-se silenciosamente. Yumi entrou. Vestia um vestido de seda n***a que moldava perfeitamente seu corpo. Caminhava como uma sombra elegante. Sedutora. Submissa. — Você mandou me chamar — disse em tom suave. Yusuke não se virou. — Sim. Ela aproximou-se lentamente, ajoelhando-se diante dele. Seus dedos delicados tocaram os joelhos dele. — Senti sua falta. Ele segurou seu queixo com firmeza, obrigando-a a erguer o rosto. Os olhos de Yumi brilhavam com devoção. — Você não sente falta de nada, eu te dou tudo— respondeu ele friamente. Ela engoliu em seco. Mas sorriu. — Eu sei. Mesmo assim, fico feliz em estar aqui. Yusuke a puxou para si, beijando-a com brutalidade controlada. Não havia carinho. Não havia ternura. Apenas posse. Necessidade física. Yumi correspondeu imediatamente, como sempre. Ela aceitava tudo. Porque o amava. Porque acreditava que, um dia, poderia ser suficiente. Mais tarde, deitada ao lado dele — vestida, afastada, em silêncio — Yumi observava o teto. — Você vai se casar, não vai? — perguntou, quase num sussurro. Yusuke permaneceu imóvel. — Sim. O coração dela apertou. — Com uma russa. — Sim. O silêncio entre eles tornou-se esmagador. — Eu faria qualquer coisa por você — murmurou Yumi. Ele virou o rosto lentamente em sua direção. — Eu sei. Mas não disse mais nada. Porque, para Yusuke Kuroda, sentimentos eram apenas fraquezas humanas. E ele não era mais humano. --- Kobe, Japão. O galpão abandonado no porto estava mergulhado na escuridão, iluminado apenas por lâmpadas industriais penduradas por fios enferrujados. O cheiro de ferrugem, sal, sangue e medo impregnava o ar. No centro do espaço, ajoelhados sobre o concreto frio, estavam quatro homens. Traidores. Membros de um clã menor que haviam tentado vender informações da Yakuza para um grupo chinês rival. Um erro imperdoável. Eles tremiam. Não de dor. Mas de pavor. Porque sabiam… Yusuke Kuroda viria pessoalmente. E quando o Akuma aparecia, ninguém saía inteiro. O som de passos ecoou pelo galpão. Lento. Controlado. Preciso. Os homens ergueram o rosto ao mesmo tempo. Yusuke surgiu da escuridão vestindo um terno n***o impecável, casaco longo, luvas de couro. Seu olhar era vazio. Seu semblante, impenetrável. Atrás dele, Ren e mais seis homens armados. — Quem foi o mentor? — perguntou Yusuke, com voz baixa. Silêncio. Ele caminhou até o primeiro homem. Ajoelhou-se diante dele, ficando à mesma altura. — Vou repetir uma única vez. O homem começou a chorar. — Eu… eu não sei… Yusuke inclinou levemente a cabeça. E, num movimento rápido, sacou a faca. O corte foi limpo. Preciso. Silencioso. O corpo tombou antes mesmo que os outros entendessem o que havia acontecido. O sangue se espalhou pelo chão. Os outros três começaram a implorar. — Por favor! — Não foi ideia nossa! — Misericórdia! Yusuke levantou-se com calma. — Misericórdia não existe no meu mundo. Ele caminhou lentamente até o segundo. — Existe apenas consequência. Desta vez, ele não matou de imediato. O grito ecoou pelo galpão. Ren permaneceu imóvel. Ele já havia visto aquilo muitas vezes. E, mesmo assim, nunca se acostumava. Yusuke observava cada reação. Cada espasmo. Cada súplica. Não com prazer. Mas com atenção clínica. Como alguém analisando um objeto quebrado. Quando terminou, os dois últimos estavam em choque absoluto. — Vocês dois — disse friamente — vão levar uma mensagem. Eles o encararam, desesperados. — Digam aos clãs que não existem alianças sem lealdade. Ele fez um gesto sutil. Os homens de Ren avançaram. Os gritos ecoaram. Mas Yusuke já havia se virado, caminhando em direção à saída. Para ele, aquilo não era violência. Era manutenção da ordem. --- No carro, enquanto retornavam à propriedade, Ren finalmente falou: — Um deles parecia realmente não saber. Yusuke manteve o olhar fixo na estrada. — A ignorância não inocenta. — Às vezes me pergunto se você ainda sente alguma coisa — murmurou Ren. O silêncio se estendeu por alguns segundos. — Eu sinto — respondeu Yusuke. Ren ergueu o olhar, surpreso. — O quê? — Controle. E nada além disso. --- Ao chegar à mansão, Yusuke lavou as mãos com cuidado excessivo. O sangue escorreu pelo ralo. Mas o cheiro ainda permanecia. Ele observou seu reflexo no espelho. Olhos vazios. Expressão serena. Nenhuma culpa. Nenhum arrependimento. Apenas clareza. Foi então que seu celular vibrou. Uma notificação do sistema de inteligência. Relatório sobre Nicole Volkov atualizado. Yusuke abriu automaticamente. A primeira imagem surgiu na tela. Nicole sorrindo, coberta de farinha, segurando uma bandeja de doces. Por um instante… A brutalidade do galpão pareceu pertencer a outro mundo. Ele encarou aquela imagem por longos segundos. Algo estranho percorreu seu peito. Desconfortável. Inexplicável. Yusuke bloqueou a tela abruptamente. — Fraqueza — murmurou. Porque o demônio não podia sentir. E ele jamais permitiria que uma garota mudasse isso.
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