Capítulo 5 - Desabar com a Notícia

1489 Palavras
Moscou, Rússia — Um mês depois. A neve começava a derreter lentamente, anunciando o fim do inverno. Dentro da mansão Volkov, tudo parecia igual. As mesmas rotinas. Os mesmos sorrisos. Os mesmos aromas doces vindos da confeitaria. Mas por trás das paredes luxuosas, o clima era de guerra. Durante um mês inteiro, Konstantin e Anya buscaram alternativas. Tentaram alianças. Ameaças veladas. Acordos paralelos. Nada funcionou. Yusuke Kuroda não cedia. E o prazo estava acabando. --- Naquela noite, o jantar foi silencioso demais. Nicole percebeu. O pai quase não tocou na comida. A mãe mantinha os olhos baixos. Os irmãos gêmeos m*l conseguiam encará-la. Katya não apareceu. Irina falou que estava com dor de cabeça. Algo estava errado. Muito errado. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou Nicole, em voz suave. O som do talher de Konstantin tocando o prato ecoou alto demais quando ele pousou. Ele respirou fundo. — Depois do jantar, venha ao meu escritório. O coração de Nicole apertou. — É sério? — Sim. --- O escritório parecia maior do que o normal. Mais frio. As chamas da lareira estalavam suavemente. Anya estava sentada no sofá. Os olhos vermelhos. Katya permanecia ao lado dela, segurando sua mão. Alexander e Alexei estavam em pé, rígidos, como soldados. Nicole entrou devagar. — Papai? Konstantin indicou a poltrona à sua frente. — Sente-se, solnyshko. Ela obedeceu, o peito apertado. O silêncio se estendeu por segundos intermináveis. — Existe uma promessa antiga — começou ele, a voz grave, contida. — Um juramento de sangue. Nicole franziu levemente a testa. — Promessa? — Entre mim… e o líder da Yakuza no Japão. O mundo pareceu inclinar. — Japão? Anya soluçou baixo. — Quando você nasceu — continuou Konstantin —, foi acordado que nossos filhos se casariam. O ar desapareceu dos pulmões de Nicole. — O quê? — Eu tentei impedir — sussurrou Anya. — Juro que tentei. Nicole levantou-se lentamente. — Isso… isso é alguma brincadeira? Ninguém respondeu. Seu coração começou a disparar. — Vocês estão dizendo… que eu vou me casar? — Sim — murmurou Konstantin. — Com um… estranho? O silêncio respondeu. As pernas de Nicole enfraqueceram. Katya levantou-se num impulso e a segurou antes que ela caísse. — Não… — sussurrou Nicole. — Não… isso não pode ser verdade. Ela se afastou. — Eu tenho planos. Faculdade. Sonhos. Eu… — Eu sei — interrompeu Anya, chorando. — Eu sei, meu amor… — Vocês não podem fazer isso comigo! — a voz de Nicole quebrou. Alexander deu um passo à frente. — Se depender de nós, isso não vai acontecer. — Vai sim — disse Konstantin, a voz dura. — Porque se não acontecer, uma guerra vai cair sobre todos nós. Nicole o encarou, em choque. — Então… vocês vão me entregar? A palavra caiu como uma lâmina. Anya se levantou num sobressalto. — Nunca! Você não é uma coisa! — É exatamente assim que eu me sinto! — gritou Nicole, as lágrimas finalmente transbordando. Ela levou a mão ao peito, tentando respirar. — Quem é ele? O silêncio se espalhou novamente. Katya respondeu em voz baixa: — Yusuke Kuroda. Nicole não conhecia aquele nome. Mas sentiu um calafrio. — Ele é conhecido como… Akuma da Yakuza. — Demônio — traduziu Alexei, a voz trêmula de raiva. Nicole sentiu o chão desaparecer. — Eu vou me casar com… um demônio? Ninguém conseguiu responder. --- Horas depois, Nicole estava em seu quarto. Sentada na cama. Abraçando os próprios joelhos. O mundo que conhecia havia sido arrancado em segundos. Seus sonhos. Seus planos. Sua liberdade. Tudo substituído por um nome que ela jamais ouvira. Yusuke Kuroda. Ela caminhou lentamente até a janela. A neve derretia do lado de fora. A primavera se aproximava. Mas, dentro dela, era inverno eterno. Lágrimas escorriam silenciosas. — Eu não quero — sussurrou. Mas o destino não perguntou. --- Moscou, Rússia. O quarto de Nicole estava mergulhado em penumbra. As cortinas permaneciam fechadas. As luzes apagadas. O silêncio era cortado apenas pelo som baixo do choro contido. Nicole estava sentada no chão, encostada na lateral da cama, os braços envolvendo as próprias pernas. Anya permanecia ao seu lado, segurando suas mãos com força, como se pudesse mantê-la naquele mundo apenas com o toque. — Eu não consigo respirar, mamãe… — sussurrou Nicole. — Parece que tudo está errado… tudo… Anya beijou seus cabelos, lutando contra as próprias lágrimas. — Eu queria poder te tirar disso… queria trocar de lugar com você… — Eu não quero ir… — murmurou Nicole, a voz fraca. — Eu não conheço esse homem. Não sei como ele é. Não sei o que ele vai fazer comigo… Anya apertou-a contra o peito. — Você não está sozinha. Nunca esteve. Nós vamos estar com você até o último segundo. Nicole fechou os olhos, tentando se agarrar àquela promessa. Foi então que o celular, esquecido sobre a mesinha de cabeceira, vibrou. O som ecoou alto demais dentro do quarto silencioso. Nicole estremeceu. Olhou para o aparelho. Número desconhecido. Mas algo dentro dela… algo instintivo… soube. Seu coração começou a bater rápido demais. — Mamãe… — sussurrou. Anya ergueu o olhar. O telefone vibrou novamente. E mais uma vez. Insistente. Implacável. Como um chamado inevitável. Anya pegou o celular, lendo o aviso criptografado que surgira na tela. Seu rosto empalideceu. — É ele… O ar pareceu desaparecer dos pulmões de Nicole. — Não… agora não… Mas o telefone continuava vibrando. Anya engoliu em seco. — Você precisa atender. — Eu não consigo… — Nicole — Anya segurou seu rosto com as duas mãos —, fugir agora só vai torná-lo mais impaciente. E isso é perigoso. As mãos de Nicole tremiam. O coração martelava nos ouvidos. Ela assentiu lentamente. Anya colocou o celular em suas mãos. O nome apareceu na tela. Japão O demônio. Nicole respirou fundo, apertou o botão verde com dedos trêmulos e levou o telefone ao ouvido. — Alô…? Por alguns segundos, apenas o silêncio. Então, uma voz masculina, profunda, fria e perfeitamente controlada atravessou a ligação. — Nicole Volkov. Seu nome, pronunciado daquele jeito, fez sua espinha gelar. — E-eu… — Não precisa falar — interrompeu ele, sem elevar o tom. — Apenas escute. O coração dela parecia querer rasgar o peito. — Sei que recebeu a notícia hoje. Nicole fechou os olhos. — Eu não quero — murmurou, quase inaudível. Do outro lado da linha, o silêncio durou apenas um segundo. — Querer não é relevante. As palavras foram ditas sem crueldade. Sem ironia. Apenas como um fato absoluto. Nicole sentiu as lágrimas escorrerem novamente. — O senhor não pode… fazer isso comigo… — Posso — respondeu ele, com calma assustadora. — E farei. Anya levou a mão à boca, tentando conter um soluço. — Você virá para o Japão dentro de dois meses — continuou Yusuke. — Sua família terá tempo para organizar tudo. — Eu não vou viver lá… — sussurrou Nicole. Houve uma breve pausa. — Vai — disse ele. — Porque eu não permito que o que é meu se quebre. A palavra meu fez o estômago dela revirar. — Eu não sou sua — chorou. — Ainda não — respondeu. — Mas será. Nicole sentiu um calafrio profundo. — Você não me conhece… — Conheço o suficiente. Ele sabia o que ela gostava. Sabia de seus hábitos. Sabia de seus sonhos. Isso era o mais assustador. — Eu quero continuar estudando… quero ir para a faculdade… — sua voz tremia. — Eu não quero ser uma prisioneira. — Não será — respondeu. — Terá tudo. Menos liberdade. A franqueza brutal a fez estremecer. — Por favor… — Não implore — disse ele, com frieza. — Isso não mudará nada. O silêncio caiu novamente. O som da respiração de ambos era a única coisa que atravessava a ligação. — Quando chegar aqui em Kobe — continuou Yusuke —, seu quarto estará preparado. Ao lado do meu. O coração de Nicole disparou ainda mais. — Ao lado…? — Eu não durmo com ninguém — explicou. — Gosto de silêncio. Você terá o seu espaço. Ela não sabia se aquilo era um alívio… ou um terror diferente. — Mas entenda uma coisa, Nicole Volkov — sua voz tornou-se ainda mais baixa. — Dentro da minha casa, ninguém te tocará. Ninguém te ferirá. Ninguém te desrespeitará. Ela engoliu em seco. — Exceto você — sussurrou. Houve uma pausa quase imperceptível. — Isso — respondeu. A ligação foi encerrada. --- Nicole permaneceu imóvel. O celular escorregou de seus dedos, caindo no tapete. Seu corpo começou a tremer de forma incontrolável. Anya a puxou para seus braços imediatamente. — Ele é frio… — murmurou Nicole, em choque. — Ele fala como se eu já fosse dele… — Você é nossa — sussurrou Anya, apertando-a com força. — Sempre será nossa. Mas, no fundo, ambas sabiam. O Akuma da Yakuza acabara de cruzar a porta da vida de Nicole. E tudo mudaria.
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