O quarto de Nicole estava em silêncio.
As cortinas fechadas deixavam o ambiente em meia-luz, e o ar parecia pesado demais para respirar. Ela estava sentada na cama, os joelhos recolhidos contra o peito, o olhar perdido em um ponto inexistente da parede.
Um mês.
Um mês desde que sua vida havia sido virada do avesso.
Um mês tentando fingir que aquilo não era real.
Anya permanecia sentada ao seu lado, passando os dedos com delicadeza pelos cabelos da filha, num gesto automático, quase desesperado, como se tentasse protegê-la de algo invisível.
— Minha pequena… — murmurou, com a voz embargada.
Nicole não respondeu. Seus olhos estavam vermelhos, inchados de tanto chorar.
O casamento.
A palavra ainda ecoava na sua mente como uma sentença de morte.
Casar-se com Yusuke Kuroda.
O homem cujo nome fazia organizações inteiras estremecerem.
O homem que fazia até assassinos evitarem contato visual.
O homem que sua mãe descrevera com medo nos olhos.
— Nós tentamos de tudo — disse Anya, finalmente, a voz falhando. — Seu pai moveu contatos, pagou dívidas, ofereceu territórios, dinheiro… mas não existe negociação quando ele decide algo.
Nicole engoliu em seco.
— Ele me comprou… — sussurrou, com a voz quebrada. — Como se eu fosse um objeto.
Anya fechou os olhos, sentindo o coração despedaçar.
— Eu sinto tanto, meu amor.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o celular de Nicole, largado sobre a cama, vibrou.
Uma vez.
Duas.
O som ecoou alto demais naquele silêncio tenso.
Nicole congelou.
Seu coração disparou violentamente no peito.
O visor acendeu.
Número desconhecido.
Mas, no fundo, ela sabia.
Suas mãos começaram a tremer de forma incontrolável.
— Não atende… — sussurrou Anya, instintivamente, puxando a filha para perto.
O celular vibrou novamente.
E então, uma mensagem apareceu:
“Atenda.”
Uma única palavra.
Curta.
Imperativa.
Nicole sentiu o ar faltar.
Com os dedos trêmulos, ela atendeu.
— A-alô?
Do outro lado da linha, o silêncio durou segundos intermináveis.
Então, a voz grave, baixa e cortante atravessou o aparelho.
— Nicole.
O som do próprio nome nos lábios dele fez sua espinha gelar.
— E-eu…
— Você está demorando para aceitar o inevitável — disse ele, sem elevar o tom. Frio. Controlado. Mortal. — Isso me desagrada.
As lágrimas começaram a escorrer sem controle.
— Eu não quero… — sua voz saiu num fio. — Por favor…
Um leve riso soou do outro lado. Baixo. Sem humor algum.
— Querer nunca foi uma opção.
O coração de Nicole batia tão forte que parecia querer romper seu peito.
— Em breve, você deixará de ser filha.
Ele fez uma pausa calculada.
— Passará a ser minha esposa.
A palavra soou como uma condenação.
— Eu vou buscá-la pessoalmente quando chegar a hora.
O silêncio se estendeu novamente.
— Prepare-se.
A ligação foi encerrada.
Nicole deixou o celular cair sobre a cama como se ele queimasse.
O mundo girou.
Sua respiração ficou descompassada, errática, curta demais.
— Mãe… — sua voz saiu fraca. — Eu não consigo… eu não consigo…
De repente, todo o controle que ela vinha mantendo desmoronou.
O choro veio com força, convulsivo, doloroso.
Seu corpo inteiro começou a tremer enquanto ela desabava nos braços da mãe.
— Eu tenho medo… — soluçou. — Muito medo…
Anya a abraçou com força, como se quisesse fundi-la ao próprio corpo.
— Eu estou aqui, meu amor… eu estou aqui…
A porta do quarto se abriu com cuidado.
Polina entrou em silêncio.
Ao ver Nicole naquele estado, seu coração se apertou violentamente.
Ela se aproximou devagar, sentando-se ao lado da amiga e puxando-a para um abraço apertado.
— Você não está sozinha — sussurrou. — Nunca esteve.
Nicole agarrou-se a ela como se fosse sua última âncora.
— Ele me ligou… — murmurou entre soluços. — Eu senti como se estivesse diante dele… como se ele pudesse me ver…
Polina fechou os olhos por um instante, engolindo a própria revolta.
— Respira comigo, tá? — pediu, segurando o rosto dela com carinho. — Olha pra mim. Só pra mim.
Nicole tentou obedecer.
— Um passo de cada vez. A gente vai atravessar isso juntas.
Mas, no fundo, todas sabiam.
Quando Yusuke Kuroda escolhia algo, não existia fuga.
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O escritório de Yusuke Kuroda ficava no último andar do prédio mais alto de Kobe.
Vidros do chão ao teto revelavam a cidade iluminada, viva, pulsante — um mundo inteiro ajoelhado sob seus pés.
Ele permaneceu imóvel diante da janela por alguns segundos após encerrar a ligação.
O celular ainda repousava em sua mão.
Nenhuma emoção em seu rosto.
Nenhum arrependimento.
Nenhuma dúvida.
Apenas silêncio.
Atrás dele, quatro homens permaneciam ajoelhados, as mãos amarradas às costas, o rosto ensanguentado. O tapete persa sob seus joelhos estava manchado de vermelho.
O cheiro metálico de sangue dominava o ambiente.
— Termine — ordenou Yusuke, sem sequer se virar.
Sua voz era baixa, firme, sem qualquer inflexão.
Dois membros da Yakuza avançaram.
Um deles segurou o primeiro homem pelos cabelos, puxando sua cabeça para trás.
O outro passou a lâmina lentamente por sua garganta.
O som foi curto.
Molhado.
Definitivo.
O corpo tombou pesado no chão.
Os outros três começaram a chorar.
— P-por favor… — um deles gaguejou, a voz quebrada. — Nós não sabíamos que era território Kuroda…
Yusuke finalmente se virou.
Seus olhos negros eram vazios.
Desumanos.
— Sabiam — corrigiu, aproximando-se com passos lentos e calculados. — Apenas acreditaram que eu permitiria.
Ele se agachou diante do homem, encarando-o diretamente.
— Esse foi o erro.
Sem pressa, puxou uma arma do coldre e atirou.
O impacto ecoou pelo salão.
O corpo caiu para trás, inerte.
O terceiro tentou se arrastar.
Não conseguiu.
Yusuke disparou novamente.
Restava apenas um.
O mais jovem.
Ele tremia tanto que m*l conseguia se manter de joelhos.
— Por favor… eu tenho família…
Yusuke o observou por longos segundos.
Então, falou:
— Eu também tenho.
O rapaz piscou, confuso.
— E ainda assim, estou aqui.
Yusuke fez um gesto sutil com a mão.
O último disparo soou.
O silêncio voltou a dominar o ambiente.
Os homens da Yakuza abaixaram a cabeça em respeito.
Yusuke caminhou até sua mesa, largou o celular sobre a superfície de madeira escura e sentou-se calmamente na poltrona de couro.
Um de seus subordinados aproximou-se.
— O acordo com os Volkov segue confirmado?
— Sim.
— A garota parece frágil.
Yusuke ergueu o olhar lentamente.
O homem engoliu em seco.
— Isso é irrelevante.
Ele cruzou os dedos diante do rosto.
— Fragilidade é uma característica útil. Quebra-se fácil. Molda-se melhor ainda.
Um breve silêncio se instaurou.
— Quero tudo pronto em trinta dias — continuou. — Vestido, documentos, cerimônia. Nada pode sair do controle.
— Sim, Kuroda-sama.
Quando ficou sozinho, Yusuke reclinou-se na cadeira.
Seus olhos se voltaram novamente para a cidade.
A lembrança da voz trêmula de Nicole cruzou sua mente por um instante.
Não provocou nada.
Nem culpa.
Nem prazer.
Apenas constatação.
Ela aprenderia.
Todas aprendiam.
Nicole não seria diferente.
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A chuva castigava os vidros da mansão Kuroda quando Yusuke entrou no quarto.
O ambiente estava em penumbra, iluminado apenas pela luz suave dos abajures orientais. O cheiro de incenso e madeira queimada preenchia o ar.
Yumi aguardava ajoelhada sobre o tatame, vestindo um quimono n***o de seda, os cabelos longos caindo como uma cascata sobre as costas.
Ela não ergueu os olhos.
Não ousava.
— Olhe para mim — ordenou Yusuke.
A voz era baixa. Controlada. Perigosa.
Yumi obedeceu.
Seus olhos estavam úmidos.
Sempre estavam.
Yusuke aproximou-se lentamente, parando diante dela. Observou cada detalhe: a postura submissa, os ombros tensos, o modo como prendia a respiração sempre que ele estava perto.
— Você chorou — constatou.
Ela hesitou.
— Não.
Os dedos dele seguraram seu queixo com força suficiente para fazê-la arfar.
— Não minta.
Yumi fechou os olhos por um instante.
— Eu fico ouvindo… sobre o casamento.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Ele a soltou, erguendo-se com frieza.
— E?
— Eu só… — sua voz falhou — quis saber se algum dia eu…
Ela não conseguiu terminar.
Yusuke voltou-se lentamente.
Seus olhos eram escuros como a noite sem lua.
— Você não é nada além do que eu permito que seja.
Cada palavra foi dita com precisão cirúrgica.
Yumi sentiu como se algo dentro dela fosse esmagado.
— Eu sei — sussurrou. — Mesmo assim… eu escolhi ficar.
Ele se aproximou outra vez.
Ajoelhou-se diante dela, ficando na mesma altura.
— Não confunda escolha com dependência.
Seus dedos deslizaram pelo rosto dela, não em carinho, mas em posse.
— Você precisa de mim. Eu não preciso de você.
As lágrimas finalmente caíram.
Ainda assim, Yumi não se afastou.
Apenas fechou os olhos.
— Mesmo assim… — murmurou — eu te amo.
Yusuke ficou imóvel.
Por um breve, quase imperceptível segundo, algo atravessou seu olhar.
Algo antigo.
Enterrado.
Morto.
Ele a puxou para perto, envolvendo-a num abraço duro, quase sufocante.
Não era conforto.
Era domínio.
Yumi se agarrou a ele como se fosse sua única âncora.
— Nunca mais diga isso — ordenou em seu ouvido.
Ela assentiu, o rosto escondido contra seu peito.
— Amor é fraqueza.
Yusuke a afastou lentamente, segurando seu rosto entre as mãos.
— E eu não tolero fraquezas perto de mim.
Mesmo assim, manteve-se ali.
Porque, ainda que não fosse capaz de amar, precisava daquele silêncio submisso que só Yumi sabia oferecer.
E Yumi… aceitava ser quebrada quantas vezes fosse necessário, desde que pudesse continuar ao lado dele.