Capítulo 7 - Sem Ser Visto

1302 Palavras
O quarto ainda cheirava às lágrimas de Nicole. Mas, naquela manhã, ela se levantou diferente. Parou diante do espelho, observando o próprio reflexo: os olhos cinzentos ainda inchados, as sardas espalhadas pelo rosto pálido, os cabelos loiros caindo em ondas suaves pelos ombros. Respirou fundo. Se aquilo era inevitável, então ela não permitiria que o medo roubasse seu último mês de liberdade. Vestiu um vestido claro, soltou os cabelos e saiu do quarto com passos decididos. Anya estava na cozinha preparando panquecas. — Bom dia, meu amor. Nicole a abraçou por trás, forte, apertado, como se quisesse memorizar cada sensação. — Vamos passar o dia juntas? Anya percebeu na hora. Não perguntou nada. Apenas sorriu, embora os olhos brilhassem. — Claro que sim. --- Nicole passou a visitar as confeitarias da mãe quase todos os dias. Aprendeu novas receitas. Anotava tudo em um caderno florido. — Assim você não vai esquecer — dizia, tentando soar leve. Katya observava em silêncio. Sabia exatamente o que aquilo significava. Em casa, ela passou a jantar com os irmãos todas as noites. Jogava cartas com os gêmeos. Assistia filmes antigos com o pai, mesmo quando ele fingia estar ocupado demais. E, algumas noites, adormecia abraçada a Anya, como quando era criança. Konstantin observava tudo à distância. Cada riso de Nicole era uma facada silenciosa em seu peito. --- Com Polina, Nicole tentou fingir normalidade. Foram ao shopping, tomaram chocolate quente, riram de bobagens, falaram de faculdade, viagens, sonhos. — Quando tudo isso passar, vamos viajar juntas — Polina dizia animada. Nicole sorria. Mas por dentro, sentia que aquele mundo já não lhe pertencia. Naquela tarde, sentadas num banco coberto de neve, Polina segurou sua mão. — Você está se despedindo, não está? Nicole engoliu em seco. — Eu só… quero lembrar de tudo. Polina a abraçou forte. — Seja quem ele for, ele não vai apagar quem você é. Nicole fechou os olhos. Esperava que fosse verdade. --- Ela passou a acordar mais cedo. Caminhava pelo jardim coberto de neve. Conversava com Vera enquanto ajudava na cozinha. Brincava com Valentin. Acariciava os cabelos dos irmãos enquanto estudavam. Cada gesto era um ritual silencioso de despedida. Cada sorriso, uma tentativa desesperada de permanecer inteira. --- Enquanto Isso, em Kobe… Yusuke observava as cerejeiras balançando ao vento. O quarto ao lado do seu estava pronto. Minimalista. Frio. Impecável. Dois mundos que jamais deveriam se tocar. Ele não sentia culpa. Apenas antecipação. --- O salão estava tomado por luzes douradas, cristais pendendo do teto e músicas suaves que preenchiam o ar com uma felicidade quase palpável. Era a noite da formatura. O encerramento oficial da infância de Nicole Volkov. Ela observava tudo em silêncio, sentada diante do espelho enquanto Anya ajeitava os últimos detalhes do vestido. O tecido azul-claro caía delicadamente sobre seu corpo, marcando suavemente sua cintura e descendo em camadas leves até o chão. Pequenas pedrarias cintilavam como estrelas. — Você está linda, minha princesa — murmurou Anya, com a voz embargada. Nicole sorriu. — Foi você quem me ensinou o que é beleza. Anya a abraçou, demoradamente, como se tentasse gravar aquele momento na alma. Vera bateu à porta. — Está tudo pronto. --- O salão de festas em Moscou parecia um conto de fadas. Flores brancas, arranjos de cerejeiras artificiais, velas espalhadas por todos os cantos. Os convidados vestiam roupas elegantes. Mas nada se comparava à presença silenciosa da família Volkov. Konstantin estava impecável em seu terno n***o. Anya ao seu lado, deslumbrante. Os gêmeos, orgulhosos. Irina, Igor e Valentin. Katya. Vera. E Polina, que quase pulou do lugar ao ver Nicole entrar. — Você está perfeita! Nicole riu, girando levemente o vestido. Por fora, era luz. Por dentro, era despedida. --- Quando seu nome foi chamado, o coração de Nicole acelerou. Ela caminhou até o palco sob aplausos. Respirou fundo antes de falar. — Esta noite marca o fim de uma etapa… mas também o começo de outra. Seus olhos percorreram o salão, pousando brevemente na família. — Aprendi que sonhos são frágeis… mas que o amor torna tudo suportável. A voz falhou por um instante. — Espero nunca esquecer quem sou, não importa onde eu esteja. O silêncio foi absoluto. E, então, os aplausos explodiram. Anya chorava. Konstantin manteve o rosto impassível — mas suas mãos estavam cerradas em punhos. --- A música suave ecoou. Konstantin estendeu a mão. — Posso? Nicole assentiu. Eles dançaram lentamente. — Você sempre será minha garotinha — ele murmurou. Ela encostou a testa em seu peito. — Eu sei. E foi ali que Konstantin quase quebrou. --- Horas depois, quando a festa chegava ao fim, Nicole saiu para a sacada. O vento frio tocou seu rosto. Polina surgiu ao seu lado. — Você parece triste. Nicole sorriu suavemente. — Só estou tentando guardar tudo aqui dentro. Levou a mão ao peito. — Cada luz. Cada riso. Cada abraço. Polina a puxou para um abraço forte. — Eu vou sentir sua falta. — Eu também. Elas ficaram assim por longos segundos. O mundo lá dentro continuava. Mas, para Nicole, aquela noite já soava como um adeus. --- Em Kobe Yusuke observava o céu escuro. Seu celular vibrou. Uma única mensagem. O mês terminou. Ele respondeu apenas: Estou indo. --- Moscou estava coberta por um manto de neve quando o jato n***o pousou silenciosamente na pista privada. O vento cortante atravessava o terno sob medida de Yusuke Kuroda sem que ele demonstrasse qualquer reação. Atrás dele, seus homens se moviam com precisão cirúrgica. Nada era dito. Nada precisava ser dito. Ele pisou em solo russo como quem pisa em território inimigo — consciente, atento, preparado para matar. Konstantin Volkov havia enviado uma comitiva de recepção, mas Yusuke dispensou qualquer formalidade. Ele não viera negociar. Viera buscar o que era seu por direito. --- Do alto do prédio discreto onde se instalara temporariamente, Yusuke observava a imensa propriedade dos Volkov através das lentes de longo alcance. Seguranças fortemente armados. Rotas bem definidas. Pontos cegos. Sistemas avançados. Nada passava despercebido. Mas não era a segurança que o interessava. Era ela. A porta de vidro se abriu. Nicole surgiu no jardim. Vestia um casaco claro, botas delicadas e um gorro de lã que cobria parcialmente os cabelos dourados. Ela caminhava devagar, rindo de algo que Polina dizia. O som não chegava até ele. Mas o sorriso chegava. E aquilo o incomodou. Não porque fosse bonito. Mas porque era real. Yusuke ajustou o foco. O rosto delicado. As sardas. Os olhos claros. Tão diferente de tudo que existia em seu mundo. — Então essa é a promessa — murmurou em japonês. A menina que fora criada como uma princesa. Sem dor. Sem sangue. Sem medo. Uma presa perfeita. --- Yusuke passou horas observando. Viu Nicole ajudando a mãe na confeitaria. Rindo com os irmãos. Sentada no jardim lendo. Abraçando o pai. Cada gesto era analisado friamente. Ela não carregava marcas. Não carregava sombras. Não carregava traumas. — Vai quebrar rápido — disse Ren, ao seu lado, em tom neutro. Yusuke não respondeu de imediato. Continuou observando enquanto Nicole corria atrás do primo pequeno pelo jardim, rindo como uma criança. — Não. Ren arqueou a sobrancelha. — Não? — Ela vai resistir. E isso… Um leve, quase imperceptível sorriso tocou seus lábios. — Torna tudo mais interessante. --- Naquela mesma noite, Konstantin Volkov recebeu uma mensagem criptografada em seu celular pessoal. Estou em Moscou. Nenhuma assinatura. Nenhuma ameaça. Nenhuma saudação. Apenas uma sentença. Konstantin fechou os olhos por um instante. O tempo havia acabado. --- Nicole sentiu um arrepio inexplicável percorrer sua espinha. Estava deitada, lendo, quando ergueu os olhos para a janela coberta de neve. Teve a estranha sensação de estar sendo observada. Sacudiu a cabeça. — Bobagem… Voltou à leitura, sem saber… Que o inferno acabara de cruzar o oceano por ela.
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