Capítulo 8 - O Primeiro Olhar

1073 Palavras
O restaurante inteiro fora fechado. Nenhum funcionário comum. Apenas empregados treinados, escolhidos a dedo, silenciosos como sombras. O ambiente exalava luxo: mármore n***o, detalhes em ouro, lanternas orientais misturadas à sobriedade russa, criando um contraste elegante e intimidador. Do lado de fora, homens armados vigiavam cada centímetro do perímetro. Nada era deixado ao acaso. Yusuke Kuroda entrou primeiro. Impecável em seu terno n***o sob medida, os cabelos escuros presos de maneira impecável, o olhar frio, cortante. Ren caminhava meio passo atrás. Segundos depois, Konstantin Volkov surgiu, acompanhado de Igor. Dois mundos colidindo em silêncio. Por longos instantes, ninguém falou. Apenas se observaram. Predadores reconhecem predadores. — Kuroda Yusuke-sama — disse Konstantin por fim, em japonês arrastado, levemente carregado pelo sotaque russo. Yusuke inclinou minimamente a cabeça. — Volkov Konstantin. Sentaram-se. O silêncio era tão denso que parecia ter peso. --- O jantar começou com pratos refinados, harmonizados com vinhos raríssimos. Mas ninguém ali estava interessado em comida. — Você veio buscá-la pessoalmente — comentou Konstantin, girando lentamente a taça entre os dedos. — Promessas antigas exigem respeito — respondeu Yusuke, sem alterar o tom. Igor observava atentamente cada gesto do japonês. — Ela é jovem — disse. — E inocente. Ren lançou um olhar rápido para Yusuke. Mas Yusuke permaneceu impassível. — Não me interesso por inocência — declarou. — Interesso-me por alianças eternas. Konstantin soltou um riso curto, sem humor. — Não minta. Você poderia ter escolhido qualquer mulher no Japão. — E escolhi a filha do homem que deve a própria vida ao meu pai. Silêncio. A lembrança do juramento de sangue pairou entre eles como um espectro. --- — Se eu recusasse — murmurou Konstantin — quantas cidades vocês queimariam até eu aceitá-lo? Yusuke ergueu lentamente os olhos. — Todas as que fossem necessárias. Ren não se moveu. Igor cerrou o maxilar. — Mas não será preciso — continuou Yusuke. — Porque você é um homem de honra. Konstantin respirou fundo. — Sou um pai. — E eu sou um herdeiro — rebateu Yusuke. — Nossos deveres não permitem fraquezas. A palavra cortou fundo. Konstantin apertou a taça com força suficiente para quase quebrá-la. --- — A cerimônia ocorrerá no Japão — disse Yusuke. — Dentro de trinta dias. — Trinta? — Igor reagiu. — Tempo suficiente para despedidas. Não para arrependimentos. Ren observava em silêncio. Konstantin assentiu lentamente. — Quero garantias. Yusuke inclinou-se levemente para frente. — Nicole Volkov será tratada como minha esposa legítima. Terá segurança absoluta, luxo, respeito público e posição intocável. — E em particular? — perguntou Konstantin. Por um segundo. Apenas um segundo. O silêncio pareceu se expandir. — Em particular — respondeu Yusuke, com frieza mortal — ela pertencerá a mim. O ar se tornou pesado. Konstantin fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, havia neles algo quebrado. — Amanhã — disse. — Amanhã você vai ver ela. Yusuke apenas assentiu. --- A mansão Volkov estava em silêncio. Um silêncio pesado. Diferente. Konstantin observava a neve cair pela janela quando Vera se aproximou com passos contidos. — Ele chegou. O coração de Konstantin apertou. — Traga minha filha. --- Nicole estava no quarto, sentada diante da penteadeira, tentando se concentrar em um livro. Mas não conseguia. Havia uma inquietação estranha em seu peito desde cedo. A batida suave na porta fez seu coração disparar. — Senhorita Nicole… seu pai pede que a senhora vá até a sala. Ela engoliu em seco. — Agora? — Sim. Algo no tom de Vera fez o estômago de Nicole se revirar. Levantou-se lentamente. --- Yusuke Kuroda estava em pé, próximo à lareira acesa. Imóvel. Imponente. O terno n***o perfeitamente ajustado destacava sua postura reta, rígida. As tatuagens surgiam discretamente pelo pescoço e pelas mãos, serpenteando como sombras vivas sobre a pele clara. Ren permanecia alguns passos atrás, atento. Quando Nicole entrou na sala, o mundo pareceu parar. O cheiro suave de baunilha e flores que ela carregava contrastava brutalmente com a aura de morte que emanava dele. Ela sentiu. Antes mesmo de olhar. Quando seus olhos encontraram os de Yusuke, um arrepio percorreu sua espinha inteira. Era como encarar o abismo. Ele a observou em absoluto silêncio. Cada detalhe. Cada gesto nervoso. Cada batida acelerada de seu coração, que ele parecia enxergar. — Essa… é Nicole — disse Konstantin, a voz baixa, contida. Nicole piscou. — Pai…? Yusuke deu um passo à frente. O simples movimento fez o ar ficar mais denso. — Kuroda Yusuke — apresentou-se. — Seu futuro marido. O mundo de Nicole rachou. O chão pareceu sumir sob seus pés. Ela sentiu o sangue gelar. — N-não… — sussurrou. Os olhos buscaram desesperadamente os do pai. Konstantin não conseguiu sustentá-los por muito tempo. --- Nicole respirava rápido demais. O coração parecia querer rasgar seu peito. Yusuke aproximou-se lentamente. Parou diante dela. Muito perto. Ela teve que erguer o rosto para encará-lo. Era absurdamente bonito. E absolutamente aterrador. — Olhe para mim — ordenou, em tom baixo. Nicole tentou. Mas seus olhos se encheram de lágrimas. — Eu não sou o monstro que imagina — disse ele friamente. — Ainda. Ela estremeceu. — Eu não quero isso… — sussurrou. Yusuke inclinou levemente a cabeça. — Não é uma escolha. Ele ergueu a mão. Por um instante, Nicole pensou que seria tocada. Mas seus dedos apenas se fecharam em uma mecha de seu cabelo, analisando a textura delicada. — Tão frágil… — murmurou. — Vai quebrar fácil. As lágrimas caíram. Ren desviou o olhar. Konstantin fechou os punhos. --- Yusuke soltou o cabelo dela lentamente. — Você ficará na Rússia por mais alguns dias — anunciou. — Tempo suficiente para se despedir da sua ilusão de liberdade. Nicole o encarava, em choque. — Depois disso, você será minha. Virou-se para Konstantin. — Prepare-a. Sem mais uma palavra, caminhou em direção à saída. Ren o seguiu. A porta se fechou. O silêncio explodiu. --- Nicole desabou nos braços do pai. — Eu tenho medo… — soluçou. — Muito medo… Konstantin a apertou contra o peito, os olhos ardendo. — Eu sei, minha princesa… eu sei… Mas não havia como salvá-la. --- Yusuke estava diante da janela, observando Moscou iluminada. Ren quebrou o silêncio: — Ela não parece pronta. — Não preciso que esteja pronta — respondeu Yusuke. — Preciso que seja minha. Ren respirou fundo. — Ela é diferente. Yusuke fechou os olhos por um instante. — Justamente por isso… ela vai me pertencer por completo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR