Capítulo 14 - A Cerimônia de Casamento

1109 Palavras
O dia amanheceu envolto em névoa sobre Kobe. As cerejeiras do jardim estavam em plena floração, suas pétalas rosadas cobrindo os caminhos de pedra como um tapete etéreo. A mansão Kuroda parecia saída de um sonho antigo — belo, silencioso, imponente. Mas para Nicole, tudo parecia distante. Era o dia do seu casamento. Helicópteros pousaram nos terrenos da propriedade pouco depois do amanhecer. A chegada da Bratva foi discreta, porém poderosa. Konstantin Volkov desceu primeiro, postura rígida, olhar cortante, o corpo carregando tensão suficiente para incendiar uma guerra. Ao seu lado, Anya segurava sua mão, os olhos marejados, tentando ser forte pela filha. Alexander e Alexei caminhavam logo atrás, sérios demais para garotos de quinze anos. Katya e Irina vieram juntas, seguidas por Igor, atento como uma sombra protetora. Vera cruzou o portão com lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto. Nicole observava tudo da sacada do seu quarto. Quando viu sua família, o coração se apertou de tal forma que precisou apoiar-se na grade para não cair. Eles estavam ali. Por ela. Mesmo sem poder salvá-la. --- O quarto havia sido transformado. Flores brancas, velas aromáticas, biombos delicados, tecidos leves pendendo do teto. Um verdadeiro santuário de pureza dentro da mansão do Akuma. As funcionárias vestidas de quimonos claros moviam-se em silêncio absoluto. Nicole sentou-se diante do espelho. Seu reflexo parecia o de outra pessoa. O vestido tradicional japonês fora confeccionado sob medida: um shiromuku branco puro, símbolo de pureza, submissão e recomeço. Era belo. E sufocante. Anya aproximou-se por trás, tocando seus cabelos com extrema delicadeza. — Você está linda, moya dochka… — murmurou, a voz embargada. Nicole segurou o choro. — Eu queria que fosse diferente, mamãe. Anya fechou os olhos por um instante, respirando fundo. — Eu também. Katya ajudava com os detalhes do penteado, enquanto Irina ajustava as mangas do quimono. Vera beijava repetidamente as mãos da garota. — Você ainda é nossa princesa — sussurrou Vera. — Mesmo no inferno. Alexander e Alexei aguardavam do lado de fora, incapazes de ver a irmã naquele estado sem explodir. Konstantin permanecia imóvel no corredor, os punhos cerrados, respirando com dificuldade. Ele havia conquistado impérios. Mas não conseguira salvar a própria filha. --- Quando o penteado foi finalizado, os cabelos loiros de Nicole estavam presos num elaborado arranjo tradicional, adornado com pequenos detalhes de pérolas. Seu rosto permanecia limpo. Sem maquiagem pesada. Apenas sua beleza natural. Doce. Vulnerável. Perigosa. Chiaki entrou silenciosamente no quarto. As mulheres se afastaram imediatamente. Ele aproximou-se de Nicole, observando-a longamente. — Você parece um espírito da primavera — murmurou. Ela levantou os olhos. — Eu me sinto um sacrifício. Chiaki sustentou seu olhar. — Às vezes, são a mesma coisa. Ofereceu-lhe a mão. — Está na hora. Nicole respirou fundo. E levantou-se. Cada passo até o salão principal parecia arrancar algo de dentro dela. Seu mundo ficava para trás. Sua infância. Seus sonhos. Sua liberdade. --- O salão principal da mansão Kuroda estava irreconhecível. Velas baixas iluminavam o ambiente com uma luz quente e suave. Arranjos de flores brancas e galhos de cerejeira pendiam delicadamente das estruturas de madeira escura. Incensos queimavam lentamente, preenchendo o ar com um aroma sagrado. O silêncio era absoluto. Yusuke permanecia diante do altar tradicional , vestido com um kimono cerimonial n***o bordado em fios prateados. Seus cabelos estavam penteados para baixo. Seu corpo parecia esculpido em pedra. Imóvel. Indecifrável. Mas por dentro, algo pulsava. Algo inquieto. O som suave do shamisen ecoou pelo salão. E então— As portas de madeira se abriram lentamente. O tempo pareceu desacelerar. Nicole surgiu envolta em branco. O shiromuku caía perfeitamente sobre seu corpo, criando a imagem de uma aparição celestial. Seu rosto delicado estava sereno, mas seus olhos cinzentos carregavam um brilho trêmulo, profundamente humano. Ela parecia feita de neve e luz. Frágil. Intocável. E absolutamente fora de lugar naquele inferno. Yusuke sentiu o impacto como um golpe seco no peito. Por um breve instante — apenas um — sua respiração falhou. Seus olhos escureceram. Algo primitivo despertou dentro dele. Não era ternura. Era posse. A consciência brutal de que aquela criatura pertencia agora ao seu mundo. E, pior ainda… Que ela o estava alterando. Nicole caminhava lentamente ao lado de Chiaki. Cada passo ecoava como um tambor dentro de sua cabeça. Quando seus olhos encontraram os de Yusuke, o coração quase lhe saltou pela garganta. Ele parecia ainda mais assustador daquele ângulo. Frio. Belo. Implacável. O Akuma. Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Chiaki a entregou a Yusuke. Os dedos dele tocaram os dela. Gelados. Firmes. Inquebráveis. O choque foi imediato. Nicole estremeceu. Yusuke não. Mas sentiu. --- O sacerdote iniciou os cânticos tradicionais. O som ancestral ecoava pelas paredes, carregado de significado. Yusuke e Nicole ajoelharam-se diante do altar. Seguiram cada movimento ritualístico: A purificação das mãos. A reverência aos deuses. O sakazuki — o ritual do saquê. Três goles. Três promessas silenciosas. Cada gesto selava mais profundamente a união. Nicole sentia o peso da tradição esmagar seus ombros. Era bela. Era solene. Era sufocante. Quando chegou o momento dos votos, o silêncio tornou-se absoluto. Yusuke levantou-se primeiro. Sua voz ecoou firme, profunda, carregada de autoridade. — Eu, Kuroda Yusuke, herdeiro do sangue do Dragão n***o, tomo Nicole Volkov como minha esposa diante dos deuses e dos homens. Prometo protegê-la como minha posse mais valiosa e honrar esta união com sangue, aço e lealdade eterna. Nicole engoliu em seco. Sua voz saiu baixa, trêmula, mas clara. — Eu, Nicole Volkov, aceito este destino e esta união. Prometo honrar o nome Kuroda e caminhar ao lado de Yusuke até o fim dos meus dias. O sacerdote assentiu lentamente. — Então selaremos este casamento com o juramento ancestral. O juramento de sangue. Um silêncio pesado caiu sobre o salão. Uma adaga cerimonial foi trazida numa bandeja de madeira. A lâmina reluzia sob a luz das velas. Yusuke pegou-a sem hesitar. Fez um corte preciso na própria palma. O sangue escorreu lentamente. Vermelho vivo. Depois estendeu a lâmina a Nicole. Ela empalideceu. Suas mãos tremiam. Mas não recuou. Fez o mesmo. O ardor foi imediato. Quando seus sangues se tocaram, o sacerdote envolveu as mãos unidas com um tecido branco. — Pelo sangue, pelo aço e pelo destino — declarou. — Esta união está selada. O coração de Nicole disparava. O mundo girava. Ela era oficialmente a esposa do Akuma da Yakuza. --- Konstantin observava tudo como uma estátua. Mas seus olhos queimavam. Quando Yusuke ergueu o rosto, seus olhares se encontraram. Ali não havia palavras. Apenas uma promessa silenciosa: Se você a quebrar, eu destruo tudo. Yusuke sustentou o olhar. Sem piscar. Sem temer. Ela agora é minha. ---
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