A recepção aconteceu nos jardins internos da mansão Kuroda.
Milhares de lanternas de papel iluminavam o espaço, refletindo no lago artificial e nas cerejeiras em flor. O ambiente era ao mesmo tempo luxuoso e solene, misturando tradição japonesa e grandiosidade russa.
Músicos tocavam melodias suaves, quase etéreas.
O mundo parecia suspenso.
Nicole caminhava ao lado de Yusuke, a mão dele firme em sua cintura, possessiva, protetora, silenciosa. Cada convidado que passava inclinava-se em reverência profunda.
Ela sorria.
Mas seu sorriso era frágil.
Assim que avistou sua família, seu coração se apertou.
Anya abriu os braços.
Nicole correu até ela, esquecendo-se por um instante de tudo ao redor.
— Mamãe…
As duas se abraçaram com força, como se tentassem gravar aquele momento na pele.
— Minha menina — sussurrou Anya. — Você está tão linda…
— Eu só queria ficar mais um pouco com vocês.
— Eu sei.
Konstantin observava a cena à distância.
Quando Nicole se aproximou, ele abriu os braços.
Ela afundou o rosto no peito do pai.
O homem mais temido da Rússia fechou os olhos por um segundo.
— Você sempre será minha pequena — murmurou ele, beijando o topo de sua cabeça.
Nicole sentiu as lágrimas queimarem.
Alexander e Alexei se aproximaram logo depois.
— Ainda podemos dançar? — perguntou Alexei, tentando sorrir.
— Claro.
Eles a conduziram até o centro do salão improvisado.
A música mudou para uma melodia russa suave.
Konstantin tomou a mão da filha.
— Esta dança é minha — declarou.
Nicole assentiu.
Ele a envolveu com cuidado, como se ela ainda fosse uma criança.
Ela repousou a cabeça em seu ombro.
— Eu tenho medo, papai.
Ele a apertou mais.
— Eu sei. Mas você não está sozinha. Nunca estará.
Rodopiaram lentamente sob as luzes das lanternas.
Yusuke observava à distância.
Imóvel.
Mas atento.
Aquela demonstração de afeto era algo que ele jamais tivera.
E, pela primeira vez, compreendeu a dimensão do que havia arrancado dela.
Depois, Nicole dançou com os irmãos.
Riu.
Girou.
Esqueceu-se por alguns minutos de quem era agora.
Anya observava com Katya e Irina, as mãos unidas, os olhos marejados.
— Ela ainda é só uma menina… — murmurou Katya.
— Mas foi entregue ao inferno — respondeu Irina.
Quando a música cessou, Nicole abraçou cada um demoradamente.
Vera chorava abertamente.
— Seja forte, minha flor.
— Vou tentar.
Yusuke aproximou-se.
Estendeu o braço.
— Está na hora.
O peso daquelas palavras foi devastador.
Nicole respirou fundo.
Beijou a testa da mãe.
Abraçou os irmãos mais uma vez.
Encarou o pai.
Konstantin aproximou-se de Yusuke, a voz baixa e letal.
— Se ela derramar uma lágrima por sua causa, eu faço o Japão inteiro sangrar.
Yusuke não piscou.
— Ela agora é minha responsabilidade.
— Ela é minha vida.
O silêncio entre eles era carregado de promessas de guerra.
Nicole segurou o braço de Yusuke.
E se afastou.
Sem olhar para trás.
Porque sabia:
Se olhasse, não conseguiria ir.
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O corredor que levava ao quarto de Yusuke parecia infinito.
Cada passo ecoava no mármore frio, marcando a contagem regressiva de algo que Nicole não sabia se conseguiria suportar.
Yusuke caminhava à frente, postura firme, expressão impenetrável.
Não a tocava.
Não a guiava.
Mas sua presença dominava tudo.
Quando a porta se abriu, Nicole sentiu o ar faltar.
O quarto era amplo, minimalista, quase austero. Tons escuros. Madeira n***a. Tecidos pesados. Nenhuma suavidade. Nenhum traço de delicadeza.
Era o quarto de um homem feito para dominar.
Não para acolher.
A porta se fechou atrás deles com um clique baixo.
O som pareceu definitivo.
Nicole permaneceu imóvel, as mãos unidas à frente do corpo, os ombros tensos, o coração martelando tão forte que chegava a doer.
Yusuke virou-se lentamente para ela.
Seus olhos percorreram sua figura vestida de branco.
Por um instante, algo quase imperceptível atravessou seu olhar.
Algo bruto.
Primordial.
Ele deu alguns passos em sua direção.
Nicole recuou instintivamente.
A coluna tocou a parede fria.
— Não — disse ele, firme. — Não fuja.
Ela respirou fundo, tentando se controlar.
— Eu… eu não sei o que fazer.
Ele a encarou.
— Não faça nada.
O silêncio entre eles era sufocante.
Yusuke ergueu a mão devagar, tocando-lhe o rosto com a ponta dos dedos.
O contato foi mínimo.
Mas Nicole estremeceu inteira.
— Olhe para mim.
Ela obedeceu.
Seus olhos estavam marejados, mas firmes.
— Você tem medo?
— Muito.
Ele assentiu.
— É compreensível.
A proximidade entre eles era absurda.
A respiração dele roçava a dela.
O mundo parecia suspenso.
Yusuke inclinou-se lentamente.
Nicole prendeu o ar.
Quando os lábios dele tocaram os seus, foi de forma cuidadosa, quase experimental. Um beijo breve, contido, profundo em intenção, não em ação.
O coração de Nicole disparou.
Seus dedos se fecharam no tecido do quimono dele.
Quando se afastaram, ela respirava com dificuldade.
— Eu… — sussurrou. — Eu nunca beijei ninguém antes.
Os olhos de Yusuke se estreitaram levemente.
Algo escuro cruzou sua expressão.
— Nunca?
Ela negou com a cabeça.
O silêncio se prolongou.
Yusuke afastou-se alguns passos.
— Então isso foi suficiente por hoje.
Nicole piscou, confusa.
— Você… não vai…
— Não. — A voz dele era firme. — Eu não vou tocar na sua virgindade.
O alívio foi tão intenso que as pernas dela quase cederam.
Mas junto veio algo inesperado.
Uma pontada de tristeza.
Um pensamento t**o, involuntário:
Tem algo errado comigo?
Yusuke percebeu a mudança em seu olhar.
— Não confunda contenção com rejeição — disse, frio. — Eu apenas não misturo posse com brutalidade.
Ela engoliu em seco.
Ele apontou para a cama.
— Durma.
Nicole hesitou.
— Aqui?
— Sim.
Ela caminhou lentamente até a enorme cama de lençóis escuros. Sentou-se na beirada, tirou o sapato com dedos trêmulos e deitou-se com cuidado, permanecendo encolhida, ocupando o menor espaço possível.
Yusuke ficou em pé por alguns segundos, observando-a.
Depois sentou-se na poltrona ao lado da cama.
Ali permaneceu.
Imóvel.
Vigiando.
Guardando.
Nicole fechou os olhos.
O cansaço emocional venceu o medo.
E, pela primeira vez desde que chegara ao Japão, adormeceu sem chorar.
Yusuke continuou observando-a.
O rosto tranquilo.
Os traços suaves.
Tão fora de lugar naquele mundo quanto uma flor no meio das ruínas.
E, contra toda lógica, contra toda razão, contra tudo que ele era…
Algo dentro do Akuma se moveu.
Silenciosamente.
Perigosamente.
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Nicole acordou devagar.
Por alguns segundos, não soube onde estava.
O cheiro amadeirado, os lençóis escuros, o silêncio pesado.
Então lembrou.
O quarto de Yusuke.
Seu marido.
O coração acelerou imediatamente.
Virou o rosto para o lado.
A cama estava vazia.
O lençol frio.
Um alívio estranho e uma pontada de frustração misturaram-se dentro dela.
Levantou-se devagar, se ajeitando. O som da água correndo vinha do banheiro.
Ele estava no banho.
Sem perceber, caminhou alguns passos, parando próxima à divisória entre o quarto e o banheiro, o coração disparado.
A porta de correr se abriu.
Yusuke surgiu envolto apenas em uma toalha baixa na cintura.
A água ainda escorria por seu corpo, delineando cada músculo, cada linha das tatuagens que cobriam seu peito, braços e costas.
Dragões.
Símbolos antigos.
Marcas de poder e violência.
Nicole prendeu a respiração.
Era impossível não olhar.
O corpo dele era tão intimidador quanto belo.
Perigoso.
Hipnotizante.
Os olhos de Yusuke encontraram os dela.
Ele percebeu.
Sempre percebia.
Caminhou lentamente em sua direção.
Nicole sentiu o corpo inteiro enrijecer.
— Não me olhe assim — murmurou ele.
— Assim como?
— Como se estivesse curiosa demais.
O rosto dela esquentou.
Antes que pudesse responder, Yusuke segurou seu queixo com dois dedos, erguendo seu rosto.
Os olhos dele estavam mais escuros do que nunca.
— Você não sabe o efeito que tem — disse, baixo.
Então a beijou.
Não foi delicado como na noite anterior.
Foi intenso.
Profundo.
Dominante.
Nicole levou alguns segundos para reagir, mas quando reagiu, agarrou-se ao tecido da toalha, o coração batendo descompassado.
O mundo desapareceu.
Havia apenas o gosto dele, o calor, a pressão, o caos interno.
Yusuke a conduziu até a cama, sem quebrar o beijo, fazendo-a sentar-se.
Ele se inclinou sobre ela, apoiando o peso nos braços, mantendo distância suficiente para não esmagá-la, mas perto o bastante para deixá-la sem ar.
Quando se afastou, os dois respiravam rápido.
O silêncio entre eles era elétrico.
Yusuke a observou por longos segundos.
Depois se afastou abruptamente.
— Saia do meu quarto.
Nicole piscou, confusa.
— O quê?
— Vá se arrumar. Desça para o café. Sua família está esperando.
O tom era frio outra vez.
Como se nada tivesse acontecido.
Nicole sentiu o peito apertar, mas assentiu.
— Sim… senhor.
Virou-se rapidamente, sentindo o rosto queimar.
Ao atravessar o corredor, tocou os próprios lábios, ainda trêmulos.
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Depois do banho, vestiu um vestido claro e simples. Prendeu os cabelos num coque frouxo e respirou fundo antes de descer.
O salão do café estava mais silencioso do que o habitual.
Sua família estava reunida.
Anya foi a primeira a se levantar.
Nicole correu até ela, abraçando-a com força.
— Mamãe…
— Minha menina…
As duas permaneceram assim por longos segundos.
Konstantin observava em silêncio.
Quando Nicole se aproximou, ele a envolveu com cuidado, como se ela fosse feita de vidro.
— Você está bem? — perguntou baixo.
Ela hesitou.
Depois assentiu.
— Estou tentando.
Alexander e Alexei a abraçaram ao mesmo tempo.
— Não esqueça da gente — murmurou Alexei.
— Nunca.
Katya, Irina, Igor, Vera… todos se despediram lentamente, como se quisessem congelar aquele momento.
Quando chegou a hora de partir, Nicole sentiu o mundo pesar novamente.
Atravessou o salão com o coração apertado.
Yusuke estava à porta, esperando.
Imóvel.
Observando.
Quando ela passou por ele, sentiu sua presença como um campo magnético.
Ele não disse nada.
Mas seus olhos a seguiram.
E Nicole soube:
Nada mais seria simples.