Capítulo 16 - Beijo e o Abismo

1453 Palavras
Os dias na mansão Kuroda seguiam uma rotina rígida, quase militar. Nicole aprendeu isso rapidamente. Cada horário era cronometrado. Cada refeição tinha um ritual. Cada passo dentro da propriedade seguia regras invisíveis, mas absolutas. Agora, oficialmente esposa de Yusuke, sua posição dentro da casa havia mudado. Os empregados a tratavam com reverência. — Kuroda-sama — diziam, inclinando-se profundamente. Ela ainda se assustava ao ouvir aquele título. Não se sentia uma senhora. Sentia-se uma estrangeira num mundo de sombras. Seu quarto permanecia separado do de Yusuke. Ficava ao lado do dele, separado apenas por um corredor silencioso. Era uma ordem dele. Ninguém questionava. Yusuke também permanecia distante. Durante as refeições, sentava-se à cabeceira, como sempre. Nicole ficava alguns lugares abaixo. Poucas palavras eram trocadas. Às vezes, apenas olhares rápidos. Nada mais. E, ainda assim, sua presença era constante. Ela o sentia mesmo quando não o via. --- Com Chiaki, a convivência era estranhamente tranquila. O avô observava Nicole como quem estuda uma peça rara. — Você traz movimento a esta casa — disse ele certa manhã, enquanto tomavam chá no jardim. — Mesmo em silêncio. Nicole sorriu de leve. — Só tento não atrapalhar. — Você não atrapalha. Você desloca. E isso é perigoso. Ela não soube responder. Com Ren, a relação tornava-se mais natural a cada dia. Ele a acompanhava em caminhadas pelo jardim, explicava costumes j*******s, traduzia símbolos antigos espalhados pela propriedade. — Yusuke não é bom com explicações — comentou certa vez. — Nem com pessoas. — Eu percebi. Ren sorriu de canto. Com Sakura e Hina, Nicole encontrou algo próximo de irmandade. As gêmeas começaram a passar horas em seu quarto, conversando, rindo baixinho, trocando confidências. — Você é diferente — disse Hina, sentada ao seu lado. — Não parece as pessoas daqui. — Eu realmente não sou. — Mas gostamos muito de você. E, pela primeira vez desde que chegara ao Japão, Nicole sentiu algo próximo de pertencimento. --- Yusuke observava tudo à distância. Percebia a forma como as gêmeas se aproximavam. O jeito natural com que Ren passava a protegê-la. O respeito silencioso de Chiaki. E isso o deixava inquieto. Nicole começava a criar raízes. Criar laços. E laços eram fraquezas. Ele a evitava. Saía cedo. Voltava tarde. Quando se encontravam, era apenas o essencial. Mas à noite, quando a mansão silenciava, Yusuke caminhava até a porta do quarto dela. Não batia. Não entrava. Apenas ficava ali por alguns segundos. Ouvindo sua respiração leve através da madeira. Certificando-se de que estava segura. Depois voltava para seu próprio quarto, onde o vazio parecia ainda maior. --- Nicole acordava cedo. Tomava café com as gêmeas. Estudava japonês com um professor particular. Ajudava ocasionalmente na cozinha, sob o olhar atento dos empregados. Às vezes, fazia doces. Bolos. Pães. Pequenos gestos que levavam sua memória de volta para Moscou. À noite, ligava para a família. Conversava com a mãe. Ria com os irmãos. Guardava cada segundo como um tesouro. Mas, ao desligar, o silêncio voltava. E com ele, a consciência de onde estava. De quem era agora. Esposa do homem mais temido do Japão. --- O jantar acontecia no último andar de um arranha-céu em Kobe. Vidros do chão ao teto revelavam a cidade iluminada, viva, vibrante — um contraste c***l com o clima frio e calculado da reunião. Nicole caminhava ao lado de Yusuke, vestindo um vestido longo azul-claro, simples, elegante, discreto. Seus cabelos estavam presos num coque baixo, deixando alguns fios soltos emoldurando seu rosto. Ela se sentia deslocada. Os homens que os cercavam eram perigosos. Seus olhares eram atentos, calculistas, respeitosos demais para serem sinceros. Yusuke mantinha a mão firme em sua cintura, marcando presença, deixando claro a todos: ela era dele. Durante o jantar, Nicole quase não falou. Observava. Escutava. Tentava entender aquele mundo que não lhe pertencia. Yusuke conduzia as negociações com frieza impecável. Sua voz era firme, autoritária, precisa. Cada palavra parecia uma sentença. Mas, vez ou outra, seus olhos buscavam os dela. Rápidos. Intensos. Quase imperceptíveis. Quando o jantar chegou ao fim, despediram-se sob reverências respeitosas. No elevador, o silêncio se instalou entre eles. A cidade subia lentamente diante dos seus olhos. Nicole respirava fundo, tentando acalmar o coração. Quando as portas se abriram no estacionamento privativo, Yusuke segurou seu braço suavemente. — Espere. Ela virou-se. Os olhos dele estavam mais escuros do que o habitual. Sem dizer uma palavra, Yusuke aproximou-se. O beijo veio inesperado. Não foi brutal. Nem delicado demais. Foi intenso. Profundo. Carregado de algo contido por tempo demais. Nicole sentiu o chão desaparecer. Seu corpo reagiu antes da mente. Segurou a lapela do terno dele, correspondendo sem perceber, o coração disparado. Por alguns segundos, o mundo deixou de existir. Quando ele se afastou, seus rostos permaneceram próximos. A respiração misturada. O silêncio pulsando. — Entre no carro — murmurou ele. E virou-se. Nicole obedeceu. Confusa. O trajeto seguiu em silêncio. A cidade foi ficando para trás. As ruas tornaram-se mais vazias. Mais residenciais. Mais luxuosas. Nicole observava pela janela. Até que o carro desacelerou. E parou. Diante de uma casa moderna, imponente, cercada por jardins iluminados. Antes que pudesse perguntar, Nicole viu. Yumi estava à janela do andar superior. Vestia um robe claro. Os cabelos soltos. O olhar fixo no carro. O coração de Nicole afundou. Yusuke abriu a porta. Desceu. Sem olhar para trás. Caminhou até a entrada da casa. Yumi abriu a porta imediatamente. Os dois se encararam por um breve instante. Depois, ele entrou. A porta se fechou. O silêncio dentro do carro tornou-se insuportável. — Leve-a de volta — ordenou Yusuke ao motorista, antes de desaparecer completamente. O carro arrancou. Nicole permaneceu imóvel. O peito apertado. A garganta travada. Ela não chorou. Não ali. Não na frente de ninguém. Mas algo dentro dela se partiu em silêncio. O beijo. O toque. O momento. Tudo parecia agora uma ilusão. Um erro. Uma fraqueza. A mansão Kuroda surgiu à distância. Imensa. Fria. Implacável. Nicole entrou em seu quarto sem dizer uma palavra. Sentou-se na beira da cama. As mãos tremiam. O coração doía. Ela abraçou os próprios joelhos, apoiando o rosto neles. E finalmente permitiu que as lágrimas caíssem. Silenciosas. Solitárias. Como tudo naquela nova vida. --- O interior da casa de Yumi era quente. Luzes baixas. Perfume adocicado no ar. Música suave preenchendo o silêncio. Tudo ali era feito para seduzir. Para envolver. Para confortar. Yumi fechou a porta atrás de Yusuke com cuidado. Por um instante, apenas o observou. Ele permanecia imóvel no centro da sala, o paletó escuro ainda sobre os ombros, o rosto fechado, distante, como se parte dele ainda estivesse em outro lugar. — Você demorou — murmurou ela, aproximando-se lentamente. Yusuke não respondeu. Yumi tocou seu braço, depois seu peito, sentindo os músculos rígidos sob o tecido. — Senti sua falta. Ele finalmente ergueu os olhos. Havia algo diferente neles. Mais sombrio. Mais inquieto. Yumi conhecia aquele olhar. Era quando ele precisava esquecer. Ela passou os braços ao redor do pescoço dele, pressionando o corpo contra o seu. Yusuke a segurou pela cintura, conduzindo-a pelo corredor até o quarto. Não havia delicadeza. Nem brutalidade. Apenas urgência. Como se buscasse silêncio dentro de si. No quarto, as luzes eram ainda mais baixas. Cortinas pesadas abafavam a cidade. O mundo exterior desaparecia. Yumi o conduziu até a cama, seus movimentos treinados, seguros, íntimos. Ela conhecia cada limite dele. Cada gesto. Cada reação. Yusuke fechou os olhos por um instante, apoiando a testa no ombro dela. Mas, mesmo ali, cercado por calor, perfume e contato, algo permanecia ausente. O vazio não cedia. O pensamento indesejado retornava. Olhos cinzentos. Mãos trêmulas. Lábios inseguros. Nicole. O corpo de Yumi era conhecido demais. Seguro demais. Fácil demais. Não exigia nada. Não despertava nada. Quando tudo terminou, o silêncio tomou o quarto. Yumi repousou a cabeça no peito dele, os dedos desenhando linhas lentas sobre sua pele. — Você está diferente — murmurou. — Distante. Yusuke permaneceu imóvel. — Não. — Está. — Ela ergueu o rosto para encará-lo. — Desde que ela chegou. Ele não respondeu. Yumi respirou fundo. — Você nunca me deixou esperando assim antes. O silêncio foi a única resposta. Yusuke levantou-se. Vestiu-se sem pressa. Sem olhar para trás. Yumi sentou-se na cama, os lençóis ainda quentes ao seu redor. — Você vai voltar pra ela. Não era uma pergunta. Ele parou junto à porta. — Ela é minha esposa. As palavras ecoaram como uma sentença. Yumi sentiu algo se partir dentro do peito. — E eu? Yusuke não se virou. — Você sempre foi apenas um hábito. E saiu. Deixando para trás perfume, calor… e uma mulher que acabara de perceber que estava sendo substituída. Não por desejo. Mas por algo muito mais perigoso. Sentimento.
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