Paola
— Olha quem ressuscitou dos mortos — Marcel começa, dando um passo em direção ao homem como o i****a que ele é.
Os lábios do homem se curvam para cima, e é preciso um gesto minucioso de sua cabeça para que um soldado atinja meu irmão, empurrando-o bruscamente de joelhos.
Os olhos do homem se voltam para mim novamente como se estivesse curioso. Ele sustenta meu olhar por um momento antes de examinar Rodrigo e Rael, que ainda está desmaiado. O que eles fizeram com ele?
— O garoto — ele diz. São as primeiras palavras que ouço de sua boca. Sua voz é profunda e baixa. Calmo, mas sem dúvida, no controle. Tenho a sensação de que ele não desperdiça palavras.
Um soldado avança em direção a Rael, com botas altas e ecoando. Eu me pergunto quão vasta é a escuridão além da nossa pequena cela. Ao longe vejo vislumbres de luz. Janelas como a da nossa cela, eu acho.
— Ele está respirando — Rodrigo diz ao soldado quando o homem se abaixa para verificar se Rael está vivo, eu acho.
O soldado verifica por si mesmo, endireita-se e acena com a cabeça para o responsável. Ele parece diferente fora de sua camuflagem. Mais mortal. Seu cabelo está um pouco molhado. Acho que ele aproveitou para tomar banho.
Ele acena para o soldado, olha para mim mais uma vez antes de se voltar para meu tio.
— Faça isso — ele diz a ele.
Jake, meu tio, acena com a cabeça e estende a mão para trás, onde ele deve ter guardado sua pistola o tempo todo.
— O que está acontecendo? — Eu grito, um novo pânico tomando conta de mim, embora as armas não sejam novidade para mim. Vivo num mundo de violência. É minha herança. Será meu legado. Eu sou a princesa no centro disso. Ou eu era quando meu pai estava vivo. Desde o seu assassinato, tornei-me um peão.
Puxo minhas pernas para trás, me preparando para ficar de pé. Estou descalça, eu percebo. Devo ter perdido meus sapatos no trânsito.
Todos os homens se voltam para mim.
Eu só olho para quem está no comando. Ele parece mais alto do que antes, mas isso é porque ainda estou no chão. Ele dá um passo em minha direção. Eu recuo, minha mão caindo na estrutura de metal enferrujada de uma cama. Eu me levanto para ficar de pé, desejando que a náusea diminua.
Percebo que ainda tenho o véu da minha mãe numa das mãos. Está ensanguentado também.
Provavelmente sangue da mulher que os seus homens mataram na torre.
Ele para quando está a poucos metros de mim. Ele está mais alto agora do que parecia na sala da torre. Perdi os dez centímetros que meus sapatos me deram. Tenho que esticar o pescoço para olhar para ele e meu olhar se move de seus profundos olhos verdes para a cicatriz em sua bochecha, para sua boca, para seu pescoço. Outra cicatriz ali. A borda de uma desaparece sob a gola da camisa.
Este homem passou por uma guerra.
— Ajoelhe-se, Paola — meu tio grita atrás dele. — Mostre um pouco de respeito.
Eu mudo meu olhar daquela cicatriz em seu pescoço de volta para seus olhos. Alguém ri ao comando do meu tio.
O olhar do homem percorre meu rosto e depois desce. Eu o sigo e vejo como o sangue respingou no corpete rasgado do meu vestido também. Não sei por que estou surpresa.
Estendo a mão para cobri-lo e me cubro.
— Você sabe quem eu sou? — ele pergunta no mesmo tom baixo que usou para dizer ao seu soldado para verificar Rael.
Meu olhar volta para o dele. Eu não o conheço. Eu nunca o vi antes na minha vida. Eu o estudo, desvio meu olhar para o outro que está me observando, com as mãos ainda nos bolsos, mas nada. Eu balanço minha cabeça.
— Romano — ele diz.
Romano?
Isso não está certo. Eles estão mortos. Toda a família massacrada.
Engulo em seco, sentindo o sangue sumir do meu rosto. Porque eu sei o que fizemos com ele. Para eles.
Ele sorri com isso como se visse dentro da minha cabeça. Visse o que estou pensando.
— Diga meu nome — ele ordena.
Romano. Esse é o nome da família deles. Meus irmãos os atacaram depois de se voltarem contra meu pai.
— Diga.
Eu engulo, lambo meus lábios.
Ele espera pacientemente. Mas se ele se manteve vivo, teve tempo para aprender a ter paciência. Já se passaram dez anos.
Romano. Eu faço as contas. Ele deve ter quase vinte anos. Olho para o outro. Vejo a semelhança. Ele é mais jovem, no entanto.
— Romano — provo o nome. — Alonzo Romano.
Não sei como ele me ouve. Minha voz é pouco mais que um sussurro, mas ele dá um leve sorriso e uma leve inclinação de cabeça.
— Paola De La Rosa. — Seu olhar desce para o volume dos meus s***s acima do vestido arruinado. — Você cresceu. Pena que você tenha que morrer.
Minha boca fica seca. Fico sem palavras quando ele fecha a mão sobre meu ombro, seu aperto um pouco menos doloroso do que antes, enquanto ele me força a ficar de joelhos.
Ele se inclina e aproxima a boca do meu ouvido.
Sou pega de surpresa pelas cócegas em sua mandíbula.
— Não olhe — ele avisa, e eu sei o que está por vir. Eu sei que terei que olhar.