4. Por favor, não!

1687 Palavras
Paola Alonzo se afasta de mim. Eu o observo do meu lugar no chão duro. Ele fica diante dos meus irmãos enquanto meu tio dá ordem para que Rodrigo se ajoelhe ao lado de Marcel. Posso ver seus rostos daqui. Vejo como quando Alonzo se agacha diante de Marcel, uma mancha escura surge na parte interna das calças de Marcel. Meu irmão se urina. Meu irmão todo-poderoso e implacável se urina. Eu riria, mas seria uma loucura quando estamos todos prestes a morrer. Alonzo não deixa de notar a mancha nas calças do meu irmão. Do ponto que estou, vejo Rael começando a se mover. Eles vão matá-lo também? Ele é uma criança. — Onde está Ronaldo? — Alonzo pergunta. — Como diabos eu deveria saber? Aquele filho da p**a armou para nós. Foi ele quem orquestrou... — Não foi isso que eu perguntei, foi? Você sabe onde ele está? — p***a, não, você acha que eu assumiria a responsabilidade... — Então você não tem utilidade para mim — diz Alonzo e se endireita. Ele dá um passo para trás e acena com a cabeça. Apenas um aceno de cabeça. E meu tio aponta a arma entre os olhos de Marcel e puxa o gatilho. É tão rápido, sem hesitação, sem tempo para Marcel implorar. Não houve tempo para eu processar, embora soubesse que isso aconteceria. O som reverbera nas paredes. Por que eles não usam um silenciador? Sangue e pedaços do cérebro do meu irmão respingam na parede e no meu rosto. Estremeço, mas não grito. E eu não desvio o olhar. Em vez disso, eu assisto. Observo Marcel enquanto seu corpo se contorce, ainda ajoelhado como se não percebesse que está morto, antes de finalmente cair no chão com um baque surdo. Eu não sinto nada. Nem um pingo de emoção. Somos todos monstros, a família De La Rosa. Quando desvio o olhar do meu irmão morto, encontro Alonzo me observando, com aquela expressão curiosa no rosto novamente. Rodrigo está olhando para Marcel imóvel no chão, sem metade da cabeça. Ele é o próximo. Ele sabe isso. Eu sei isso. Ele começa a choramingar enquanto Alonzo segura seu cabelo e o obriga a olhá-lo nos olhos, enquanto meu tio prepara a próxima tacada. — Onde ele está? — Alonzo pergunta. Mesma questão. Rodrigo desvia o olhar de Marcel. Ele está tremendo. Meus dois irmãos, ambos covardes quando estão em desvantagem de armas e de homens. Eu só queria que durasse mais. Eles merecem sofrer. Ele não sabe disso? Ele não quer isso? — Onde. Está. Ronaldo? Alonzo pergunta novamente. Será a última vez que ele perguntará. Eu sei disso. Rodrigo olha de soslaio para Marcel por um momento antes de voltar seu olhar para Alonzo e depois para meu tio. Ele está tremendo agora. Ele costumava rir de mim quando eu tremia. — Por favor — ele implora. Alonzo o solta com uma expressão de nojo no rosto e recua. Acho que ele não quer sujar seu lindo terno. Só isso é o sinal que meu tio precisa para puxar o gatilho novamente, matando seu outro sobrinho. Seu afilhado, este. Ele nunca foi um bom homem de família, mas não sabia que ele era um assassino. Embora eu não esteja surpresa. Os olhos de Alonzo recaem sobre Rael que está sentado agora, parecendo atordoado, chocado. Sua cabeça provavelmente está girando como a minha, acordado ao testemunhar essa cena. Este m******e do que resta de sua família. — Traga o menino — ordena Alonzo. Dois soldados se movem como se fossem necessários os dois para levantar meu irmão mais novo, alto, mas magro, de quinze anos. — Não! — Estou de quatro, lutando em direção a Rael, o vestido de noiva me atrasando. Eu vejo meu tio levantar a arma e apontar para mim. Então vejo a mão de Alonzo fechar-se sobre seu antebraço e apontar a arma para baixo. Ele teria atirado em mim? Deus. Ele teria atirado em mim também? Eu me jogo entre Rael e os soldados, abro os braços como Cristo. — Não! Um vem me tirar do caminho, mas Alonzo faz barulho. Um simples barulho. O homem para, dá um passo para trás. Eles são como cães, seus soldados. Cães bem treinados. Alonzo se aproxima de mim, meu tio logo atrás. — Ele é um menino! — grito, empurrando Rael de costas na tentativa de protegê-lo. — Os meninos crescem e se tornam homens. — Por favor. Ele tem apenas quinze anos. Ele tinha cinco anos quando isso aconteceu. Cinco. Meu tio engatilha a arma, chamando toda a minha atenção. — Olhe para mim — diz Alonzo. Eu pisco. — Para mim. Olhe para mim . — Ele fica totalmente entre meu tio e eu, então sou forçada a isso. — Quantos anos você tinha? — O que? — Você. Quantos anos você tinha? Estou confusa. Abro a boca e vejo o rosto impaciente do meu tio aparecer além do ombro de Alonzo. — Doze — digo a Alonzo, forçando-me a bloquear a entrada do meu tio. — Um dos meus irmãos tinha doze anos. Os outros onze. — Nós não... Rael e eu... — Balanço a cabeça, entrei em pânico ao ver os corpos de Rodrigo e Marcel. — Não fizemos parte disso. — Hum. Mas você se casaria com aquele bastardo do Ronaldo? — O que? — Demoro um momento para processar. — Você acha que eu tive escolha? — Sua resposta é um grunhido, mas é alguma coisa. — Você notou que a p***a da porta que você quebrou estava trancada? Que eu estava trancada? — O garoto — ele diz calmamente para seu soldado, em oposição ao meu tom frenético. Ele segura meu olhar enquanto fala. — Não! — Estou de pé e lanço-me em direção ao soldado num piscar de olhos, dedos como garras, unhas cravadas na carne. Mas mãos grandes me agarram por trás e me arrancam. Alonzo me vira para encará-lo e dou um bom arranhão em seu rosto antes que ele possa me impedir. Ele murmura uma maldição enquanto torce meus braços atrás das costas, segurando os dois pulsos com uma mão. Com a outra, ele arranca um punhado de cabelo no meio da torção em que a mulher havia acabado de prender cuidadosamente o véu da minha mãe. Ele força minha cabeça para trás, me fazendo olhar para ele. — Por favor. Ele não — eu imploro, as lágrimas finalmente chegando. — Por favor. — Ele me estuda, estreitando os olhos. — Ele é um menino. Só um garoto — tento. — Como eu disse, os meninos crescem e se tornam homens. Ele me solta e gesticula para meu tio com um aceno de cabeça. Meu tio se muda. Rael está de pé, com as costas apoiadas na parede. Caio de joelhos aos pés de Alonzo, abraçando suas pernas enquanto ele está meio virado. — Por favor. Deus. Por favor, não o mate. Por favor! A arma está engatilhada. O eco é ensurdecedor. É surreal o que está acontecendo e tudo que consigo pensar é que todos nós vamos morrer. Ele vai matar todos nós. Mas quando olho para cima, encontro Alonzo olhando para mim com um olhar que não consigo definir. Descrença? Curiosidade? Confusão? Abro a boca para implorar novamente. — Eu farei qualquer coisa. Qualquer coisa que você quiser. Só por favor... — minha voz falha. Meu tio murmura alguma coisa, algum som de aborrecimento enquanto dá um passo à frente. — Pare — diz Alonzo. Olho para Alonzo. Ele coloca a mão na minha cabeça e sinto um raio de esperança. — Alonzo — meu tio começa depois de um momento de silêncio. Posso ouvir irritação em sua voz. — Você precisa matar os dois. Como você disse, os meninos se tornam homens e ela é um risco. Tenha em mente que eles não pouparam sua mãe. Vejo como a mandíbula de Alonzo aperta. Como ele serra a mão nas laterais. Ele vira a cabeça lentamente em direção ao meu tio. — Talvez eu devesse matar você também, então. Só pra ter certeza. — Suas palavras são um sussurro. Um assobio. A ameaça é inconfundível. Alguém ri. É o homem vestido casualmente. O som está tão fora do lugar. Quando olho para ele, ele encontra meus olhos. Por dentro, vejo ódio. Ele me odeia. Provavelmente odeia todos nós. Viro-me para os dois diante de mim e vejo a garganta do meu tio trabalhando enquanto ele engole. Algo me ocorre. Ele tem medo de Alonzo. Mas, p***a, quem não teria? Alonzo volta sua atenção para mim e faz algo estranho. Inesperado. Ele esfrega o inchaço na parte de trás da minha cabeça como se estivesse percebendo. Quando me levanto cambaleando, ele me deixa. Vou até meu irmão e pego sua mão. Meu irmão mais novo está chorando. Meu gentil irmão. Ele nasceu na família errada. Marcel teria zombado dele por causa das lágrimas. Olho para o corpo de Marcel. Vejo como aquela mancha escura na calça dele está maior. Ele se mijou de medo. E ele ficou melhor do que merecia. Quando olho para Alonzo, ele está me observando. — Limpe isso, Jake — ele diz ao meu tio e então se move em direção à saída. — Tire-os da minha ilha. Ilha? Onde diabos estamos? — Não quero os corpos deles na minha terra — finaliza Alonzo. Ele para antes de sair e se vira para olhar para mim mais uma vez. Depois, dirige sua atenção para um soldado. — Coloque a garota sob guarda em outra cela e traga a garota. Meu tio o segue até a porta e agarra seu braço para detê-lo. — Não foi isso que combinamos. Alonzo para, olha para onde meu tio o toca. Olha para o rosto dele. Meu tio baixa o olhar, abaixa a mão e recua. Alonzo dá um passo em direção a ele, seu corpo, todo o seu ser uma ameaça. — Você faz o que eu digo. Meu tio assente. Alonzo lhe dá as costas. — Traga a garota — ele grita para o soldado e vai embora.
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