Alonzo
O maldito Jake De La Rosa é um pedaço de merda mesquinho e oportunista.
A garota está discutindo alguma coisa, mas não paro para ouvir. Ela está segura, por enquanto. O garoto também.
— Você está ficando mole, irmão? — Dario me pergunta.
Não me importo em dar uma resposta. Ele me conhece bem para saber que isso não é verdade.
Tiro meu terno e o jogo de lado quando entro na parte principal da casa. Só vim aqui algumas vezes desde que voltei dos mortos. Não podia correr o risco de ser visto. Não antes de eu interromper aquele casamento.
Lençóis empoeirados ainda estão espalhados pela maior parte dos móveis e paro para olhar as peças que foram descobertas. As pinturas da minha família e dos meus antepassados. Os antepassados são mais fáceis de olhar. Eu não os conhecia. Eles não significam nada para mim. Mas mudo para o da minha mãe. Meu pai encomendou-a quando ficaram noivos. Ou pelo menos foi o que me disseram.
Eu olho para seus olhos verdes Eu os herdei, mas é aí que termina a semelhança física. Seu cabelo loiro foi herdado apenas por um dos meus irmãos e minha irmã.
Eles estão todos mortos agora, exceto Dario.
O sangue dos irmãos De La Rosa forma crostas na minha pele enquanto olho para a pintura, desfazendo a gravata, desejando lembrar.
Tenha em mente que eles não pouparam sua mãe.
E é aí que reside o problema. Eu não me lembro. Não me lembro de p***a nenhuma. Minha própria mãe é uma estranha para mim.
— Está feito? — Carlos pergunta. Ele está conversando com Dario. Dario é o razoável. Sou um maldito desastre ambulante.
— A garota e o garoto ainda estão vivos — murmura Dario, obviamente irritado com o fato.
Eu forço a raiva que sinto por não me lembrar, para dentro de minhas entranhas, para um lugar onde eu possa controlá-la. Passo pela pintura, pela sala de estar em direção à sala de jantar. Paro entre os pilares que sustentam o teto.
— Você está bem? — Carlos pergunta quando eu não falo.
Carlos Montenegro, um advogado com propensão a descobrir detalhes que a maioria deseja manter ocultos, era amigo de meus pais e um homem em quem meu pai confiava.
Concordo com a cabeça e observo as grandes janelas, algumas ainda sem vidro que deixam entrar o sol.
— Marcel e Rodrigo De La Rosa estão mortos — digo.
Ele me estuda. Tenho certeza de que ele quer saber por que não estão todos mortos.
— Bom — ele diz.
— Você deveria ter matado todos eles. Acabado com isso — diz Dario.
Viro-me para meu irmão mais novo. Apenas um ano entre nós. Cada vez que olho para ele, penso em como estou grato por ele não estar morto. Que ele não estava aqui quando tudo aconteceu.
— Vou acabar do meu jeito. No meu tempo. Isso depende de mim. Não de você.
Dario bufa.
— Vou pegar algo para comer. — Ele desaparece na cozinha.
Carlos aponta para os homens que trabalham nas janelas.
— Este projeto será concluído hoje, segundo me disseram. Tem certeza que quer estar aqui?
— É onde eu pertenço.
A casa está na minha família há gerações. As janelas maiores são um acréscimo que meu pai fez a pedido de minha mãe. Caso contrário, seria muito escuro para ela. Mesmo aqui, no sul da Itália, na sua própria ilha, ela precisava de mais luz solar.
Meu tio me contou isso. Disse que ela sempre odiou o escuro. Ficava deprimida no inverno e nos raros dias chuvosos de verão.
E então, meu pai mandou aumentar as janelas, mas ele estragou tudo. Selou nosso destino. Deu aos seus inimigos um alvo fácil porque o vidro à prova de balas que deveria ser colocado não foi. Outra traição.
Eu os matei também. Os porcos que lhe venderam aquele vidro.
Vou matar todos os filhos da p**a que nos traíram. Que participou do m******e da minha família.
— Amanhã nos encontraremos com representantes das famílias. Está tudo arranjado — diz Carlos.
— Como eles receberam a notícia? — A notícia de que a família Romano não foi exterminada como Ronaldo Rinaldi queria que você acreditasse. Que eles esqueceram filhos. Aqueles que vão vingar os assassinatos de nossa família.
Carlos sorri largamente.
— Eles estão emocionados porque o Cartel está fora de cena e que você voltou para ocupar seu lugar de direito — diz ele, com uma nota de sarcasmo em seu tom sutil, mas inconfundível.
— Eu aposto que sim.
— Conhecemos os dois que ficaram do lado de Rinaldi. Ainda temos a maior parte do apoio do nosso lado.
Concordo com a cabeça e caminho em direção às escadas.
— Eles estão comigo ou contra mim. Não haverá meio termo. Não dessa vez.
Ele não responde. Mas foi aqui que ele cometeu os erros que custaram a vida da minha família.
— Eu vou me trocar. Você vai ficar para jantar? — Eu pergunto.
Ele verifica o relógio.
— Não, não esta noite. Vou me encontrar com algumas pessoas. — Tudo bem. Vejo você em breve.