Professor?
Não sei como Antonella foi ter uma ideia tão absurda. De qualquer maneira, não tenho muitas opções. Além de que, nunca tinha planejado permanecer a vida toda na MOR. A minha carta de demissão foi enviada rapidamente e em menos de uma semana já me encontrava instalado em um apartamento de luxo no Jardim botânico. Que fica a uns quarenta minutos da UFRJ. Não fui atrás de descobrir como Antonella conseguiu está incrível vaga para mim. Entretanto, não é algo difícil de imaginar, afinal ela tem contato frequente com o governador e uma amizade “suspeita” com alguns senadores. Porém, não fui questioná-la diretamente. Afinal, pouco me importa, quando terminar com a garota vou pegar o meu dinheiro e voltar para a Europa.
Segunda-feira de manhã, inicio do semestre letivo. Ainda estava trabalhando no meu plano a respeito de como me aproximaria dela. É mais complicado do que parece. Até porque as aulas de arquitetura e medicina, se quer acontecem no mesmo prédio. Esbarrar casualmente nela no primeiro dia, me pareceu a melhor opção. Só tinha me esquecido de um detalhe. Detalhe este que me atingiu com força no momento que atravessei a porta da sala. Ser professor significava que eu teria que dar as aulas. Eu não tinha planejado nada. Agora há várias caras me encarando. Agradeço ao meu poder de improviso. Por ter conseguido produzir algo neste primeiro dia. Iniciei questionando a turma sobre O que é arquitetura e em seguida levantei uma discussão sobre por que eles queriam se tornar arquitetos. Questões que ainda me lembro de responder no meu primeiro dia. A arquitetura é uma forma de arte, de expressão, uma arte prática, uma técnica, uma tecnologia, a arquitetura é uma forma de mudar o mundo, não, uma maneira de melhorá-lo. No fundo, não importava a resposta. A questão é pessoal demais. Já que, no âmago, ela é um pouco de tudo isso. A única pergunta que realmente importa é por que escolher a ela? E não a artes, engenharia ou design. Existe algo único na arquitetura. Ela é o único lugar em que se pode sonhar, criar para si e para o outro ao mesmo tempo. Você raramente projetará para si mesmo.
Não imagina o meu choque a perceber que não havia me matriculado no curso em Londres apenas para irritar o meu pai que odeia os arquitetos como odeia qualquer sonhador, ou para ter uma boa desculpa para passar anos no exterior; não, eu genuinamente apreciava está área, queria estudá-la, compreendê-la. Era a primeira vez que fazia algo de que gostava de verdade. Pensar nas cores, em detalhes. Colocando a minha visão e gosto, ao mesmo tempo que queria tornar aquilo útil, funcional, satisfatório para o cliente. Existia uma estranha parte de mim, que encontrava prazer em surpreender o outro, um orgulho em entregar um projeto que agradava ao cliente. Há um sabor em argumentar a escolha de uma pintura, uma mesa. Algo que ninguém que não pertence à carreira consegue compreender. Como você pode haver algo artístico em encolher um piso? Como pode fazer algo por si e agradar ao outro? Como pode sonhar e criar dentro de um orçamento? Dentro das exigências?
Bem, este é o maravilhoso mundo da arquitetura. Foi está a frase que utilizei para fechar a minha improvisada primeira aula. O espanto veio a mim ao notar que eles gostaram. Este estranho g***o de jovens adultos, encarava-me agora com uma admiração incompreensiva. Como se tivessem tido alguma grande revelação. É cômico demais apenas imaginar tal coisa. No fim, não me importava. Eles podiam odiar a aula. Eu não ligaria. Quando todos finalmente deixaram o espaço, pude retirar-me.
Voltando ao meu plano inicial e preocupação primaria. A jovem. Caminhei casualmente até a praça do estudante, um espaço verde com alguns bancos de gesso igualmente distribuídos, que fica convenientemente em frente ao prédio costumeiramente utilizado para as aulas do ciclo básico do curso de medicina. Teoricamente, a senhorita Safra deve estar acabando a sua aula de Biologia celular e tecidual, seja lá o que isso é, em minutos e deve passar por mim. Tive o cuidado de pegar um livro para me ocupar e obviamente distrair-me o suficiente para justificar o esbarram aleatório.
[...]
Já se passaram vinte minutos. As aulas da garota já deviam ter terminado. Ainda assim, nem sinal de uma versão Barbie quero ser médica passou por mim. Lembrando que me sentei no banco que fornece uma visão panorâmica perfeita da porta principal do prédio. Não há como ela ter saído sem que eu veja. Conclui que o professor Otávio Sequeira gastou um tempo extra respondendo perguntas ou passando a ementa do curso e continuei aguardando.
Quarenta minutos. Quarenta minutos, foi o tempo que demorou para que eu realmente desistisse de esperar, e desse uma volta pelo prédio. Sentindo-me completamente e******o ao perceber que existia uma saída lateral que não havia notado anteriormente. Está que do meu ângulo de visão se tornava oculta por um conjunto de árvores.
Irritado, decido deixar o campus. Irritação que apenas aumenta ao pegar um trânsito descomunal até em casa. O caminho que deveria consumir, ironicamente, quarenta minutos do meu tempo, se multiplicou, e por fim, gastei uma hora e meia. Descontente jogo-me no sofá. Estou com fome e cansado, mas não há nada para comer. Abro o aplicativo do banco. Nada. O dinheiro que devia voltar a cair na minha conta ainda não deu o ar da graça. Envio uma mensagem áspera a Antonella:
“Onde está o dinheiro que me prometeu?” questiono.
Demora menos de cinco minutos para que o aparelho vibre com a resposta.
“Pensei ter sido clara. Mostre algum avanço com a senhorita Safra e receberá a sua parte do acordo” era tudo que estava escrito.
Mandei uma resposta insatisfeita e m*l-educada. Porém, não obtive retorno. Então cedi. Caminhei até a cozinha e comecei a abrir os armários. Vazio, nada, limpo… até que me deparo com um pequeno pacote retangular. O que é isso? O pacote é colorido e tem desenhos infantis. Analiso o escrito ‘Turma da Môni, sabor galinha’? Terá que servir. Há que ponto cheguei. Pelo menos em quatro dias cai o pagamento da universidade.
No verso, havia uma instrução de como preparar o prato. Era bem simples, na verdade. Basicamente, colocar o conteúdo do pacote em água fervente. Continha um plástico laminado com tempero que joguei o conteúdo inteiro na panela. Sorte a minha que haviam quatro panelas no armário inferior. Quando provei o prato me senti enganado. Parecia macarrão, mas o gosto estava em um lugar muito distante. Além de que duvido seriamente que contenha todos os nutrientes indicados nas instruções. Contudo, não muito mais o que fazer comi a panela toda e me retirei para um banho.
[...]
No dia seguinte, tinha uma outra turma marcada. Como está assim como a anterior estava no seu primeiro dia. Resolvi repetir a aula de ontem. Aprimorando um pouco alguns detalhes. Anotando algumas coisas em uma folha. Uma espécie de orientação para a aula. Nada demais.
Cheguei a universidade, gastei alguns minutos encontrando a sala que deveria dar a matéria e quando entrei nela os alunos da primeira fase já se encontravam nos seus lugares, grande parte conversando entre si. As salas são organizadas de maneira que a porta de saída e entrada são a mesma e ficam nos fundos da sala. Então consegui capturar partes de conversas enquanto me movia para o meu lugar na frente.
— Espero que não seja muito difícil.
— Eu ouvi que foi uma aula bem interessante.
— A minha amiga está na turma A, ela disse que o professor que dá está matéria é um gato — uma das alunas comentou com a colega do lado, sem me notar.
Quando finalmente coloquei as minhas coisas na mesa, alguns dos alunos, principalmente os mais quietos perceberam a minha presença e começaram a tirar os matérias das bolsas. No entanto, os conversadores, o que incluía a garota com amigos da outra turma, permaneciam tagarelando. De pé apoio-me na minha mesa e limpo a garganta, chamando a atenção para mim, finalmente. Percebo os conversadores arrumarem a postura e virarem para frente. Consegui perceber assim como na turma anterior uma atenção especial, acho que posso chamar assim, do público feminino.
— Boa tarde, turma. É... animador ter todos vocês este semestre— verbalizei após pensar um pouco. Ser receptivo não necessariamente uma das minhas habilidades — Sou o professor Murilo Hoffman e trabalharei com vocês os Fundamentos do projeto arquitetónico — prossegui o discurso inicial analisando o rosto dos presentes.
Estava pronto para lançar as perguntas mesmas perguntas da aula do dia anterior ouvi uma batida educada na porta. Os alunos se viram em conjunto para a origem do som. Evitando a irritação de ser interrompido sigo em passos rápidos até a porta imaginando que talvez fosse algum m****o da diretoria ou da coordenação com alguma espécie de recado. Porém, ao abrir a porta tenho que abaixar o olhar para encontrar uma jovem estudante. Está que nervosamente jogou os cabelos loiros para o lado antes de dizer por que interromperá a minha aula.
— Desculpe a interrupção. Eu sou do curso de medicina. Estamos na sala ao lado, com o professor Rodrigo Hadid de saúde coletiva. Ele está tendo problemas com o projetor, e pediu que viesse ver se você pode emprestar o desta sala — ela disse mudando constantemente o peso de perna.
É quando tenho um estalo. Reconheço esta feição. Está é Amanda Safra. O destino não poderia ter fornecido um encontro mais casual. Quase sem que eu notasse um sorriso surge em minha face. Percebo quando a mesma parece finalmente me analisar de cima a baixo. Instantaneamente suas bochechas ganham um leve rosado e ela muda o olhar de direção.
— Claro, eu vou pegá-lo para você — digo voltando para dentro da sala.
O projetor fica em uma jaula de ferro preso ao teto. Não é tão complicado quanto parece removê-lo dali. Caminho até embaixo do aparelho e peço licença a aluna sentada por perto, que concordo mecanicamente com a cabeça, parecendo absorta por seus próprios pensamentos. Subo na cadeira e com agilidade removo o aparelho. Volto-me a porta.
— Obrigada — a senhorita Safra estende as mãos para pegar o projetor.
— Não se preocupe. Vou levá-lo até o seu professor — a interrompo e as suas mãos voltam para junto do seu corpo — Turma! Não demorarei — digo como um aviso, mas uma ameaça. Seria incomodo voltar e encontrar uma turma barulhenta novamente.
A jovem Safra me segue a alguns passos mais atrás, e dou-me conta que ela tem pernas curtas, por causa da sua altura e diminuo a velocidade.
— Você não precisava se dar ao trabalho de trazê-lo — ela disse timidamente.
— Uma jovem dama como você, não deve carregar peso — pronuncio com neutralidade. Não quero que ela me reporte por má conduta, então tento soar casual.
— Ah! Obrigada — ela diz se encolhendo.
Infelizmente, a sua sala é realmente ao lado da minha, o que não fornece uma caminhada muito longa. Já estamos em frente a porta da sua sala.
— Pode me entregar agora — ela sugere apontando o projetor e desta vez o entrego.
Ela passa por mim, entrando na sua sala e deixando para trás apenas um rastro do seu perfume, suave e adocicado. Talvez ela não seja um alvo tão r**m assim.