Episódio 17

1472 Palavras
Ao descobrir a minha gravidez, tentei equilibrar o caos dentro de mim, buscando controlar o incontrolável, mas nada parecia colocar tudo no seu lugar. Basileia, Suíça Margareth Continuo com o olhar fixo na janela que dá para o exterior, observando como as gotas de chuva caem com força em meio à noite. Estou no escuro, e não me refiro apenas à falta de luz no quarto, mas também à minha vida e ao que supostamente devo fazer agora. Já se passaram algumas horas desde que o médico veio, me deu a notícia e foi embora. A obstetra não veio, e dada a hora, duvido que venha. De Samuel não sei nada, mas não me surpreenderia que ele tivesse ido. Ou seja, eu o expulsei. O impulso de levar a mão à barriga é forte e aumenta com o passar dos minutos. Ser mãe era um sonho que eu tinha antes da morte de Ren, e agora que se realizou, parece errado. Estar grávida nunca deveria parecer um erro. Deveria ser uma escolha. O som da porta abrindo me alerta. Viro-me para ver que é uma mulher com um aparelho que reconheço como o ecógrafo, e atrás dela, a imponente figura do meu vizinho, que acende a luz. Ele não foi. Penso com alívio. — Boa noite, Margareth, lamento o atraso. Sou a doutora Fuller. Apresenta-se a mulher. — Este homem gentil me disse que ele é seu acompanhante, você quer que ele fique para o exame? Miro Samuel, cujos olhos estão fixos nos meus. Não quero que ele vá. Por mais que me doa estar nesta situação, quero que ele esteja ao meu lado, me apoiando. — Sim. A doutora assente e prepara o equipamento. Em silêncio, Samuel se aproxima de mim e coloca a mão no meu joelho. O contato é suficiente para aliviar parte da tensão que invade o meu corpo. Gostaria que as circunstâncias fossem diferentes. Queria que fosse ele e não Conrad. — De acordo, vamos começar. Samuel se vira quando a médica insere o aparelho na minha v****a para ver com mais detalhes. — Dói? Ele me pergunta. — Não, só incomoda. Respondo com honestidade. — Vamos ver, o feto mede doze centímetros e pesa cerca de cem gramas aproximadamente. Isso indica que você está com cerca de quatro meses de gravidez. Os seus órgãos estão se formando bem, não vejo nada fora do normal. A doutora vira-se para me olhar. — O normal para este ponto é que a sua barriga esteja maior, você precisa ter menos náuseas e mais energia. No entanto, o seu quadro de desnutrição tornou tudo diferente. Felizmente, ela não foi afetada. De tudo o que ela disse, há uma palavra que se destaca na minha mente. — Sim, você está esperando uma menina. Ela confirma. — Uma menina... Repito em voz baixa. — Você ficará em observação por mais alguns dias para garantir que não nos escapou nada. Vou te enviar alguns exames e partiremos daí com suplementos. — Obrigado. — De nada, Margareth. Ela recolhe o seu equipamento e Samuel abre a porta para ela. — Boa noite. Depois de fechar a porta, ele volta para o meu lado e senta-se na cadeira. Permanecemos em silêncio, embora, pela sua postura, note que ele quer perguntar. Viro o meu rosto para a janela e preparo-me para falar. Não suportaria ver a decepção no seu rosto. — Saí para uma balada com um homem que estava me cortejando. Começo. — Aquele dia foi difícil para mim, para minha família... para eles... Não foi bonito, e ele me ofereceu uma saída que não hesitei em aceitar. Bebi muito, ou pelo menos acho que sim. Não me lembro de nada daquela noite, mas acordei numa cama com ele. Os segundos e minutos passam, e Samuel continua sem falar, enquanto eu me forço a não olhar para ele. — Tem certeza de que você bebeu álcool? Não foi algo mais? — Algo como o quê? Pergunto. — Alguma droga. A minha cabeça gira tão rápido que sinto um puxão no pescoço. — Não uso drogas! Ofeguei. — Não por vontade. Você confia que ele não colocou nada na sua bebida? — Conheço-o pouco, mas não acredito nisso. Ou seja, um homem como ele não teria por que fazer algo assim, não é? A última frase soa mais como uma pergunta do que como uma afirmação. — Você se surpreenderia com o que uma pessoa má é capaz de fazer. Acomoda-se melhor na cadeira. — Você me diria o nome dele? Olho para ele com suspeita. De que adiantaria eu dizer o nome de Conrad para ele? O dano já está feito e não há volta atrás. — Não, só quero esquecê-lo e o que aconteceu. No entanto, isso não vai acontecer, e agora preciso reunir coragem para falar com ele. — Você pode esconder a verdade. Ele sugere. — Ele é o progenitor, ele merece saber. Se ele não quiser ter nada a ver depois, é problema dele e decisão dele, não minha. — Isso quer dizer que você vai ter? A minha mão treme enquanto a levanto e a deixo cair sobre a minha barriga lisa. Pode não ter estado nos meus planos, mas já está aqui, e não tenho coragem de me livrar dela. Já carrego o peso de uma morte na minha consciência. Não sobreviveria a outra. — Sim. — De acordo. Fico olhando para ele, esperando que se explique, mas estamos falando de Samuel. — De acordo com o quê? —Vou te ajudar. A minha boca abre e fecha como a de um peixe fora d'água. Ele me deixou pasma e sem saber o que dizer nem como reagir. — Você vai me ajudar com a minha gravidez? Questionei. — De qualquer forma. Você não precisa dele, você me tem a mim. Que caramba! — Samuel, você entende o que está dizendo? Só nos conhecemos, você é meu vizinho. Nem somos amigos. — Você é minha amiga. Ele afirma. —Não me fala! Você bate a porta na minha cara toda hora e é um pouco rude. — Tenho Asperger, nem sempre sei como me comportar. Ele murmura. Para minha surpresa, ele cora. O gigante do meu vizinho está envergonhado. As suas orelhas e bochechas ficam rosadas enquanto ele evita o meu olhar. — Não sabia isso sobre você. Digo a ele. — Eu sei, não é que eu não queira ser gentil. É só que... eu sou assim. — De qualquer forma, isso não explica por que você diz que quer cuidar de mim. — Não tenho uma explicação, ok? Só sei que quero fazer isso, é um impulso que não consigo explicar nem parar. — Eu... — Você não pode dizer não. Mesmo que você faça isso, eu estarei lá por você. Você deveria ter guardado as suas sobremesas e gentileza, Maggie. Estarei lá fora enquanto você descansa. Nos vemos. Levanta-se e sai do quarto, deixando-me mais confusa do que nunca. Sacudo a cabeça como se isso esclarecesse o que acabou de acontecer, mas não tenho sucesso. Pego o meu celular da mesa ao lado e envio uma mensagem para Conrad. Esperava vê-lo de manhã, mas os dois pontos azuis marcaram imediatamente. — Margareth, por que você me escreve a essa hora? As minhas mãos começam a suar, então eu as limpo no lençol antes de responder. — Há algo importante que preciso te dizer, podemos nos encontrar? — Olha, tenho muito por fazer. Melhor me dizer por aqui. Bem, lá vou eu. — Estou grávida, é seu. Não há resposta imediata. As reticências aparecem e desaparecem várias vezes antes que ele finalmente responda. — O quê? — Estou no hospital, a obstetra acabou de confirmar. — Olha, tenho uma reunião crucial amanhã e não posso me dar ao luxo de me distrair. Vou te enviar um convite para a festa da empresa que será realizada no sábado. Vem e poderemos conversar. — Por que no sábado e não antes? Me desespera o fato de não podermos nos reunir antes. Embora o que eu poderia esperar de um homem como ele? Não sei o que vi nele. — Não posso. Até sábado, Margareth. E desconecta sem me dar tempo para responder. Joguei o celular de volta na mesa, virei-me completamente em direção à janela e deixei a minha mente vagar pelos acontecimentos do dia. Tenho tanto para processar, mas estou cansada e deixo o sono me invadir. Amanhã será outro dia, amanhã lidarei com o que tiver que enfrentar. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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