Episódio 16

1803 Palavras
A tensão crescia dentro de mim, como se eu estivesse tentando reduzir um risco iminente, mas o perigo continuava latente, não importava o quanto eu o evitasse. Basileia, Suíça Margareth 4 meses depois Não parou de doer, não importa o que eu faça, continua me machucando tanto que queima. Inclino-me mais sobre o vaso sanitário para vomitar. Já perdi a conta de quantas vezes fiz isso no último mês. Me sinto doente, cansada e, portanto, sem ânimo para nada. Só consigo levantar para ir trabalhar e volto assim que termina a jornada. Tudo aconteceu num piscar de olhos. Samuel foi embora depois de me trazer para o trabalho, e não tive notícias dele desde então. Conrad não me olha, nem se dá ao trabalho de buscar o próprio café. Nathan não responde às minhas mensagens nem abre a porta quando bato. É um desastre, a minha vida não tem nenhum sentido. Levanto-me do chão do banheiro e entro no chuveiro, deixando a água levar todo o m*al-estar. Ao sair, sinto-me mais desperta, embora igualmente exausta. Saio de casa quando estou pronta e fico olhando para a porta da frente, desejando que ela se abra. No entanto, não o faz. Deixo escapar um suspiro de resignação, endireito-me e continuo o meu caminho. A rotina é a mesma de sempre: abrir, assar, atender, continuar assando e repetir o processo até terminar. Joelle não se mostra mais alegre comigo, não desde que parei de preparar coisas especiais para ela. Caroline fica em silêncio a maior parte do tempo, o que agradeço porque não me interessa fazer amizade com ela nem com ninguém. Não mereço isso. A única coisa que poderia ser considerada diferente é o fato de que a mulher loira continua vindo de tempos em tempos. Seu marido deve ser alguém importante para que lhe permitam a entrada com tanta frequência. — Você parece que vai morrer a qualquer momento. Não está com uma cara que cause boa impressão. Diz a dita. — O mesmo de sempre? Ignoro o comentário dela. — Sim. Preparo o seu chá e dou-lhe um dos bolinhos sem açúcar nem glúten que faço só para ela. Porque, sim, chegou a ordem de que dona perfeita deveria ter algo especial no meu cardápio. O que reforça a minha teoria sobre com quem ela é casada. — Bom apetite. Digo a ela ao entregar o seu pedido. — Obrigado. E vá ao médico ou algo assim, não dá boa impressão que um dos funcionários desta multinacional pareça um morto vivo. Ela acrescenta antes de dar meia-volta e ir embora. — Tão gentil como sempre. Murmuro. Ignoro o que ela diz, embora, no fundo, eu saiba que ela tem razão. Me vi no espelho. Não preencho mais a roupa como antes e as minhas bochechas estão afundadas. Não é para menos, considerando que vomito quase tudo o que como. — Ouvi a senhora. Comenta Caroline quando entro na cozinha. — Ela não está totalmente errada. Você parece cansada e perdeu peso. Você está doente? — Tenho vomitado, mas não é nada com que se preocupar. Minto. — Você não me pediu o meu conselho e eu não gosto de me intrometer, mas você deveria ir ao médico. Pode ser algo grave. A ideia não soa tão m*al. Morrer não é algo que me assuste, não quando não tenho motivos para viver. — Obrigado pela preocupação. Encerrei o assunto. Ao terminar de trabalhar, me despeço dela e saio da empresa. Tomo a direção contrária ao meu apartamento. Minutos depois, encontro-me em frente à casa da minha infância. Não me incomodo em bater na porta, apenas espero em frente a ela. Quero ver o papai, sinto muita falta dele, até sinto falta do Nathan e da mamãe. Não soube nada dela, não sei se ela se recuperou ou continua igual. Fico ali não sei quantos minutos até que a porta se abre, revelando a figura do papai. — Filha… Ele balbucia. — Você não deveria estar aqui. A emoção inicial se transforma num nó na minha garganta que me impede de engolir. — Como você está, pai? Como estão todos? Pergunto. — Estamos tão bem quanto podemos. Agora vá embora. — Pai, por favor... — Quem está na porta, Frederick? A voz da mamãe nos surpreende a ambos e impede que ele consiga fechá-la antes que ela me veja. — Maggie. Ela sussurra. — Mamãe. — Não ouse me chamar assim! Eu não tenho nada a ver com você! Ela grita. De forma inevitável, dou um passo atrás, as suas palavras me atingindo como uma bola de demolição. — Por favor. Imploro. É o que eu fiz todo esse tempo: implorar. Imploro por amor, compreensão, amizade, imploro por minha vida ou pelo desejo de parar de respirar. Humilhada, humilho-me o tempo todo e diante de todos. Não resta mais nenhum vestígio de dignidade em mim. Até onde vou chegar? — Vá embora e não volte, você não é bem-vinda. Não aceitamos assassinas nesta casa. Miro para o papai, esperando que ele faça ou diga algo. Em vez disso, ele abaixa o olhar e dá um passo para trás. Sento-me, compreendendo que já não há lugar para mim neste lugar. Pode ter sido minha casa antes, mas deixou de ser quando Renard morreu. Quem diria que um erro mudaria a minha vida para sempre? Recuo um passo, depois outro, mais um, até que não estou mais lá. Como posso, contenho os soluços, mas não faço nada contra as lágrimas que caem livremente dos meus olhos e nublam a minha visão. Não quero mais sentir, não vale a pena. Caminho não sei por quanto tempo, só sei que estou longe de casa e perdida. Chego a uma das rodovias, os carros passam em alta velocidade e o impulso está lá. Não vai doer, faça isso. Penso. Dou um passo à frente com a intenção de me deixar levar, no entanto, uns braços se fecham contra mim como tenazes e me abraçam contra um peito musculoso. — Te peguei, Maggie. Diz aquela voz grave. — Eu só quero ir embora. Reclamei entre soluços. — Eu só quero acabar com tudo. Você me ignorou todo esse tempo. — Eu sei, não foi o certo. Não se desculpa. Samuel não pede perdão. Por que ele faria isso? Ele não me deve nada. — Deixe-me ir. — Nunca. Viro-me nos seus braços e finalmente deixo tudo sair. Entre soluços e reclamações sem sentido, libero-me do peso que carreguei todo esse tempo. E ele deixa que eu faça isso sem emitir nenhuma queixa. A liberação é tão avassaladora que as minhas pernas perdem a força e, se não fosse por ele me segurar, eu teria caído no chão. — Vamos. Ele diz. Ele me leva até o carro dele e dirige de volta para a cidade. Quero perguntar como me encontrou, onde esteve todo esse tempo, por que não deixou um bilhete ou entrou em contato comigo. No entanto, estou cansada demais para abrir a boca, então me encosto no banco e o observo. Me embebo dele, o que me ajuda a perceber o quanto senti falta dele. — Você não se cuidou, Maggie. Ele me repreende. — Se eu soubesse que isso aconteceria, não teria ido. Ele soa tão bravo que eu sorrio. Ele se preocupa comigo, o que é surpreendente. O sorriso desvanece quando percebo o que acontece com as pessoas que me amam. O medo me invade e, com ele, vêm as náuseas. — Pare o carro. Peço. Assim que ele faz isso, desço tropeçando e inclino-me para vomitar o pouco que comi hoje. Ao terminar, estou tão exausta que não consigo nem ficar de pé, então Samuel me carrega de volta para o carro. Estou tão fraca que entro e saio de um estado de inconsciência. Ouço vozes falando, a de Samuel e mais alguém. As luzes são tão brilhantes que ofuscam os meus olhos, fazendo com que eu os mantenha fechados. Logo serei capaz de sentir o cheiro de antisséptico. Estou no hospital? Quero levantar, não gosto deste lugar. No entanto, uma mão me empurra de volta para a cama macia e depois acaricia o meu cabelo. Deixei fazer, sinto-me tão bem. A sensação de ser cuidada, amada, não tem comparação. Fico ali, relaxada, embora sem dormir completamente. Não quero parar de sentir aquele carinho no meu cabelo, temo que não aconteça de novo. — Maggie. Me chama. — Abra os olhos. — Samuel. Murmuro quando o vejo. Senti tanto a falta dele, se é que isso faz sentido. A sua mão ainda está no meu cabelo, não parou de acariciá-lo. — O médico está aqui, ele tem notícias importantes. Inevitavelmente, eu me estresso. As lembranças daquele dia me assaltam com tanta força que temo desmoronar. Hora da morte... — Maggie. Samuel me chama de novo, tirando-me daquele lugar escuro na minha mente. — Olá, Margareth. Sou o doutor France, seu médico. Cumprimenta o homem mais velho. — Você foi internada por um grave grau de desidratação e um quadro leve de desnutrição. Colocamos soro e algumas vitaminas e minerais para te ajudar na recuperação. No entanto, você deve se alimentar melhor e beber água. — Vomito o que como. Digo. — Temos uma explicação para isso. A obstetra virá para falar com você e receitar algo para as náuseas. — Obstetra? Falar comigo? — Você está grávida, Margareth. — Não, eu não posso, não... O médico diz mais alguma coisa, mas eu já não o ouço. As lembranças daquela noite com Conrad me invadem. Ele foi o único. A minha vida poderia piorar? — Maggie… — Vá embora. Peço a ele. Viro as costas para não vê-lo. Como posso olhar nos olhos dele? Sou uma vergonha, uma mulher fácil que se deitou com um homem que m*al conhecia e que agora espera um filho dele. Estou grávida. Há um bebê dentro de mim, uma vida. — Maggie… — Vá embora, Samuel! E não volte. Ouço-o soltar um suspiro, o seu corpo pesado levanta-se da cadeira e fecha a porta atrás de si. O primeiro soluço sai ao ouvir o clique da fechadura, e depois desse seguem outros, que não param até que eu fique vazia, olhando para o nada. A minha vida foi completamente arruinada. E agora carrego o peso de outra vida dentro de mim. Não vou conseguir, não é justo para ele ou ela me ter como mãe. Não sou digna de gerar uma vida, não depois de ter tirado um filho de uma mãe. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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